Precisamos de uma política industrial em que o design não seja só cereja de bolo, diz Adélia Borges

Curadora analisa produção recente e diz o que falta para que mais consumidores tenham acesso às melhores ideias

São Paulo

O Brasil precisa investir em todo o circuito produtivo, desde o projeto até a venda, para poder avançar e estimular o design inovador do país, defende a crítica e curadora Adélia Borges, autora de livros que são referência na área. Ela frisa, nesta entrevista, que inovação é sinônimo de design.

Adélia Borges em sua casa, na Vila Madalena
Adélia Borges em sua casa, na Vila Madalena - Eduardo Knapp/Folhapress

“A gente precisa de uma política industrial com projeto integral. E não imaginar que design é a cereja do bolo”, afirma. “Tivemos grandes sacerdotes dessa visão integral, como José Mindlin [empresário e bibliófilo paulista, 1914-2010], que sempre soube que design não é superficial. A política tem de promover a produção.”

O que é inovação em design?  É sinônimo de design. A própria origem da palavra, desígnio, nos remete ao futuro, algo que é projetado hoje para ser usado amanhã. É a capacidade de empresas e designers de atender necessidades e desejos do consumidor, que muitas vezes ele nem sabe que tem. Para descobrir isso, se desenvolve essa cultura de observar e criar fazendo uso de tecnologias disponíveis.

Que designers simbolizam a inovação no Brasil?  Santos Dumont, uma figura que foi praticamente esvaziada por causa dessa ideia de quem voou primeiro, mas que foi um grande inovador. Ele criou máquinas de voar e tantos outros projetos. Era um designer de verdade, na verdadeira acepção da palavra. 

Também gosto de citar a dupla José Carlos Bonancini e Nelson Ivan Petzol, do Rio Grande do Sul, por muitos projetos relevantes, que geraram muitas patentes. Porque, no final das contas, como se mede inovação? Também por patentes geradas. E essa dupla teve um olhar sobre o consumidor de antropólogo, que vê os usos e costumes para extrair projetos dessa observação. 

Deles, eu citaria o set de talheres para crianças, que ficou marcado na memória afetiva, os talheres camping, que se encaixam e ficaram durante muito tempo no catálogo da loja do MoMa [Museu de Arte Moderna de Nova York], e também a garrafa térmica que desenvolveram para a Termolar. Essa garrafa resolveu um problema que sempre houve nas garrafas desse tipo: todas escorriam. Os japoneses chegaram a criar um modelo que tinha uma base, como se fosse um pires grudado, para recolher o líquido. Mas eles não se contentaram com essa solução. Estudaram e criaram a garrafa que verte sem pingar. Isso foi bem usado no marketing da empresa. É um exemplo. Às vezes, a gente acha que a inovação está em algo exótico, diferentão. Não é isso. Está nas coisas que melhoram o nosso dia a dia.

Quais são as áreas em que há mais inovação hoje?  Mobiliário e iluminação. Quando começou o Prêmio Design do Museu da Casa Brasileira, em 1986, não havia tantos bons designers fazendo projetos para indústrias. Hoje ainda existe a autoprodução, mas designers são contratados pelas indústrias para fazer projetos. O setor que mais absorve é o mobiliário.

Falta muito para o Brasil ser uma Itália. Falta mentalidade dos empreendedores. Mas um bom exemplo de mentalidade de inovação é a Grendene, em Farroupilha, na Serra Gaúcha. A empresa tem 200 designers contratados, fora os que contratam para séries especiais, como Viviene Westwood [estilista britânica], Gaetano Pesce [arquiteto italiano], Philip Starck [designer francês]. E a empresa inova não só na Melissa, que é vendida em 200 países, mas nas outras marcas, como Glenda e Ipanema, levando para essas de preço mais baixo as características de inovação da Melissa. E é uma indústria de plástico que tem preocupação com lixo, usa plástico reciclado. 

As inovações da indústria brasileira chegam ao consumidor?  Sim. Com faixa de preço menor, como nas marcas que citei. Em mobiliário, por exemplo, há alguns anos, você andava pela rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, e parecia que estava estacionado no estilo colonial. Hoje, não tem o glamour da Gabriel Monteiro da Silva, mas há oferta de muito mais variedade, projetos bons.

O que falta para que mais projetos inovadores cheguem à indústria e ao mercado?  Falta estímulo do Estado e dos governos. Temos de ter uma verdadeira política industrial, que faça jus a esse nome. A Holanda era um país que ficava bem atrás no cenário do design. Mas os ministérios da economia, das relações exteriores e da cultura, unidos, apostaram no design inovador, em criadores independentes, em dar também força a uma escola que é celeiro de novos talentos (Endhoven). Hoje, o design holandês é uma referência, tem personalidade, tem um humor característico, que é reconhecido. 

Como deve ser essa política industrial?  Tem de promover a produção não só da empresa a ou b, ou do setor a ou b, mas coletivamente. Tem de abranger o design como projeto integral. E não imaginar que design é a cereja do bolo. 

Alguém tem de fazer o projeto, alguém produz, alguém promove, o marketing vende, uma assessoria de imprensa divulga o produto mostrando seus usos, para criar a repercussão, relevância, tem de haver promoção das vendas.

Tem de haver investimento para mover esse sistema. No Brasil, não há. A Apex [Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos] faz algumas iniciativas, mas há necessidade de muito mais. Tivemos grandes sacerdotes dessa visão integral como José Mindlin, que sempre soube que design não é superficial. Pessoas como ele usaram esse conhecimento também em suas empresas. Mas foram vozes isoladas.

Adélia Borges
Crítica, autora de “Design + Artesanato: O Caminho Brasileiro” e curadora, com mais de 70 mostras no currículo, entre elas a recém-aberta “Nuno – Poéticas Têxteis Contemporâneas”, na Japan House, em São Paulo. Integra a comissão de seleção da conferência Making Futures, do Plymouth College of Art, no Reino Unido, que investiga agentes de mudança na sociedade do século 21

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