Descrição de chapéu 3º Seminário Economia da Arte

Jovens leem mais no Brasil, mas hábito de leitura diminui com a idade

Bíblia e outras obras religiosas empurram número de vendas; segmento sofre menos com a crise do mercado

Eduardo Sombini
São Paulo

Em um país com baixos indicadores de leitura, a evolução na primeira metade desta década parece oferecer algum alento.

Entre 2011 e 2015, a estimativa de brasileiros que consomem livros passou de 50% para 56%, totalizando 104,7 milhões de pessoas. A quantidade anual média de livros lidos por habitante passou de 4 para 4,96.

Esses dados estão na última edição da pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil", de 2016 —o mais amplo estudo sobre o tema, realizado pelo Instituto Pró-Livro a cada quatro anos. A entidade prevê divulgar uma nova versão do levantamento em 2020.

No entanto, há pouco o que se comemorar, na avaliação de Zoara Failla, socióloga e coordenadora da pesquisa. "Acho que essa elevação não é qualitativa, é quantitativa", afirma.

Para ela, o estudo é generoso ao apontar que mais da metade da população brasileira lê, já que a metodologia abarca todos os que afirmam ter lido pelo menos um trecho de livro nos três meses anteriores à aplicação do questionário.

Da média anual de 4,96 livros por habitante, apenas 2,43 foram lidos do começo ao fim. Isolando as obras lidas por vontade própria do entrevistado, o índice é de 2,88 e despenca para 1,26 se apenas as obras de literatura forem consideradas —incluindo os livros lidos em partes.

As definições de livro e leitor usadas na pesquisa cobrem uma ampla gama de gêneros, muitos deles distantes do universo da produção literária consagrada.

Livros didáticos, técnicos ou universitários, religiosos, de autoajuda e mesmo enciclopédias entram na conta.

A pesquisa apontou que a Bíblia é o gênero mais lido no país, alcançando 42% dos leitores. Em seguida, aparecem obras religiosas, contos e romances (22% cada).

Failla considera que o crescimento da leitura da Bíblia e de outros livros religiosos por adultos é parte importante da explicação da alta de livros lidos e de leitores. Para ela, o aumento de evangélicos no país explica o fenômeno —eles são 32% da população brasileira, segundo o Datafolha.

"Nada contra religião e autoajuda, que contribuem para o hábito de ler, mas não são leituras que levam a construir uma crítica sobre a realidade e a desenvolver empatia, que é o que a literatura possibilita."

O segmento dos religiosos é o que menos vem sofrendo os efeitos da forte retração do mercado de livros no Brasil. Entre 2011 e 2015, o faturamento do setor editorial encolheu 18% em valores atualizados, enquanto a venda de obras religiosas diminuiu 12%, de acordo com levantamento da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas).

De 2006 a 2018, o desempenho dos livros religiosos se distanciou ainda mais do mercado em geral: enquanto o faturamento do setor editorial recuou 25%, houve queda de 4% no montante comercializado de obras religiosas.

João Luís Ceccantini, doutor em letras e professor de literatura brasileira na Unesp, compartilha a avaliação pessimista dos níveis de leitura no país, mas se contrapõe à ideia persistente de que os jovens não leem.

"Se tem alguém que lê no Brasil são os jovens, e não só porque estão na escola. A pesquisa mostra que se lê menos com o aumento da faixa etária, e esse é um dado desastroso", afirma.

Crianças e adolescentes concentram as maiores proporções de leitores na população. Na faixa de 5 a 10 anos, 67% são leitores. O topo do índice está na faixa de 11 a 13 anos, com 84%, e diminui para 75% entre os jovens de 14 a 17 anos.

A partir dos 18 anos, a taxa de leitores cai continuamente, até ser ultrapassada pela proporção de não leitores na faixa de 40 a 49 anos, em que 52% da população se declara como não leitora. 

Entre os brasileiros de 70 anos ou mais, apenas 27% afirmam ler livros. 

Ceccantini argumenta que há uma cultura escolar estabelecida de incentivo à leitura nos primeiros anos do ensino fundamental, mas que a partir do 6º ano as aulas de português costumam se tornar mais teóricas e distantes dos interesses dos alunos.

"É muito comum falar da língua e não praticar. Vejo todos os dias os professores gastarem uma aula inteira para explicar o uso da crase", diz.

Para ele, a escola ignora o que os estudantes gostam de ler, como best-sellers, prejudicando sua formação autônoma. "Nunca vou ser contra a leitura de obras canônicas, mas há um divórcio muito grande entre cultura de massa e cultura erudita. Quanto mais você afastar o cânone e aproveitar o imaginário da criança e do jovem para estabelecer pontes com a cultura erudita, melhor."

Já que parcela importante dos pais e mães não são leitores e crianças são alfabetizadas com pouco contato com a literatura, é preciso promover um trabalho de base, defende Roberta Estrela D'Alva, pioneira no país dos slams, batalhas de poesia falada.

"Não adianta impor autores clássicos goela abaixo na garotada. Eles acham que literatura não é para eles."

Em sua opinião, "os slams possibilitam encontros literários que abrem portas primeiro para a literatura e depois voos para outros universos", afirma.

"Talvez não se tenha na escola esse encontro entre a pessoa e a literatura", completa Roberta.

Para desatar os nós dos hábitos de leitura de jovens, especialistas concordam que é imprescindível investir na formação de professores e outros profissionais que conectam leitores e livros.

Mas 16% dos professores não leem no Brasil, e a média de livros lidos é de 5,21.

"No Brasil, os professores não são provocados a ler em sua formação. Se você próprio não lê, não incentiva a leitura em seus alunos", afirma Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação.

"Para achar os livros que possam interessar ao jovem e promover conexão com outras atividades culturais, precisa ter um professor mergulhado no mundo da cultura. A gente compra livros e põe nas escolas públicas, mas não tem mediador, biblioteca, sala de leitura com alguém formado", afirma Ceccantini, da Unesp.

Esse cenário tem também impactos sobre o setor editorial, de acordo com Zoara Failla. A baixa taxa de leitores mantém o tamanho reduzido do mercado consumidor e aumenta os custos de editoras.

O presidente do Snel (Sindicato Nacional de Editores de Livros), Marcos da Veiga Pereira, destaca a ausência histórica de políticas educacionais no Brasil nesse contexto. 

"Para a criação de um mercado editorial forte e saudável, são necessárias duas condições essenciais, que são papel do Estado: educação e renda", diz Pereira.

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