Descrição de chapéu 3º Seminário Economia da Arte

Quando a escola tem biblioteca, desempenho do aluno é melhor, mostra pesquisa

Impacto positivo é ligado a estrutura, qualidade do acervo e atividades pedagógicas envolvendo o espaço

Amarilis Lage
Rio de Janeiro

A presença da biblioteca escolar tem efeito positivo no desempenho dos alunos em avaliações de português e matemática.

Esse efeito é ainda mais forte quando se observa os estudantes das escolas mais vulneráveis, que estão no menor terço do Inse (Indicador de Nível Socioeconômico das Escolas de Educação Básica).

As conclusões são do estudo "Retratos da Leitura em Bibliotecas Escolares", realizado pelo IPL (Instituto Pró-Livro), em parceria com o Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) e a empresa OPE Sociais. 

A análise não para por aí.

"O primeiro objetivo era medir o impacto das bibliotecas escolares. O segundo, descobrir que aspectos precisam ser garantidos para que tenham esse impacto", diz Zoara Failla, coordenadora do estudo.

A universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do país está prevista na lei 12.244, de 2010.

O PNE (Plano Nacional de Educação) prevê a instalação do equipamento em todas as escolas até 2024.

Contudo, diz Zoara, as normatizações não deixam claro o que esses espaços precisam ter e como devem funcionar. 

A meta do estudo é orientar as políticas públicas. Com isso em mente, a equipe ouviu profissionais de 465 escolas públicas, de todas as regiões do país.

Todas elas contam com uma biblioteca ou sala de leitura —o que já faz delas uma exceção.

Segundo o Censo MEC de 2017, 61% das escolas públicas não dispõem de biblioteca ou sala de leitura.

Em cada escola pesquisada foram feitas entrevistas com diretor, professor de português e responsável pela biblioteca.

Eles responderam 60 questões informando se a biblioteca funcionava todos os dias, se tinha computadores com acesso à internet, se oferecia empréstimo domiciliar etc.

Isso permitiu ver como eles avaliavam a biblioteca nas áreas: espaço físico; acervo; atendimento e pessoal; serviços e atividades curriculares e extracurriculares; recursos eletrônicos.

Os resultados mostraram que escolas onde a biblioteca dispõe de espaço bem iluminado, com mobiliário adequado, se saem melhor no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica: apresentam Ideb 0,2 maior em relação às que têm biblioteca, mas sem a estrutura física adequada.

Para fins de comparação, o Brasil inteiro cresceu 0,3 ponto no Ideb entre 2015 e 2017.

Também se observou o impacto da biblioteca escolar na escala Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica).


Formulada pelo Inep, órgão nacional de pesquisas de educação, essa escala estabelece uma série de níveis com as competências e habilidades que os alunos devem dominar a cada etapa.
 
Quando a escola tinha um profissional qualificado cuidando da biblioteca e participando de atividades pedagógicas, o desempenho dos alunos em português era 4 pontos maior na escala Saeb.

Nas escolas mais vulneráveis, o ganho era ainda maior, de 16 pontos. Mas o que isso significa, na prática?

"Entre o quinto e o nono ano, os alunos avançam 44 pontos na escala Saeb, em português. A cada ano, são 11 pontos", explica Sergio Firpo, professor do Insper.

"Logo, quatro pontos na escala Saeb equivalem a um terço de um ano de aprendizado." Dezesseis pontos equivalem a quase um ano e meio de estudo.

Os alunos também iam melhor em português quando a biblioteca escolar tinha recursos eletrônicos e bom acervo e quando o professor incentivava o uso do espaço.

Cabe dizer que o acervo não se refere apenas à quantidade de exemplares, mas à diversidade de gêneros e à participação dos atores no processo de aquisição, levando em conta os interesses dos alunos. 

Para surpresa de Zoara, a pesquisa também identificou impacto no resultado em matemática. Ter um bom acervo foi associado a um ganho de 10 pontos na escala Saeb.

"Talvez porque a aprendizagem da matemática também depende de compreensão de texto e capacidade analítica."

Segundo Zoara, a conclusão é que não dá para eleger um aspecto (como acervo) e negligenciar outros.

"Não basta ter livros, é preciso que esse acervo esteja adequado e atualizado. Além disso, que funcione num local bem equipado, de fácil acesso aos estudantes. E que os professores estimulem o uso desses livros, de forma integrada ao projeto pedagógico. É o conjunto de fatores que leva ao impacto positivo."

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