Popularização de ônibus elétricos esbarra no alto custo de baterias

Debatedores defendem investimento em pesquisa e políticas públicas

Eduardo Sombini
São Paulo

Ônibus elétricos têm maior eficiência energética que veículos convencionais, com motores a combustão, e emitem menos poluentes, mas sua popularização esbarra em custos elevados.

O preço de um ônibus elétrico é o dobro, em média, de outro movido a diesel, e a explicação para a diferença está no alto custo das baterias, responsáveis por cerca de 60% do valor total dos ônibus.

Os dados foram discutidos por palestrantes de uma das mesas da 3ª edição do seminário Mobilidade e Inovação, realizado nesta quarta-feira (30) em São Paulo pela Folha, com patrocínio da CCR.

Quatro homens sentados em poltronas no palco de um auditório
Ricardo Takahira (esq.), vice-coordenador do comitê técnico de veículos elétricos híbridos da SAE-Brasil (Sociedade de Engenheiros de Mobilidade), Paulo Henrique de Mello Sant’Ana, professor da UFABC (Universidade Federal do ABC), Carlos Roma, diretor de vendas da BYD Brasil, e Everton Lopes Batista, jornalista da Folha - Reinaldo Canato/Folhapress

“Não é verdade que não existe energia suficiente para a eletrificação [dos transportes] no Brasil. O grande desafio do ônibus e do carro elétrico é o preço das baterias”, afirmou Carlos Roma, diretor de vendas da BYD Brasil, multinacional chinesa do setor.

Para Paulo Henrique de Mello Sant’Ana, professor da UFABC (Universidade Federal do ABC), há um evidente interesse público na eletrificação dos transportes, já que a descarbonização do setor vai ao encontro dos compromissos do Acordo de Paris.

O engenheiro defendeu que a ampliação do uso de ônibus elétricos deva ser acompanhada da geração de energia limpa. "Não adianta ter usinas a carvão para suprir essa necessidade de mobilidade elétrica", disse.

Sant’Ana citou um estudo comparativo entre ônibus elétricos e movidos a diesel, que leva em conta a cadeia produtiva completa de eletricidade e petróleo, que indicou uma redução da ordem de 85% nas emissões de poluentes se houver a adoção dos elétricos em São Paulo.

Enquanto um motor elétrico converte 95% da energia em impulso das rodas de um veículo, a eficiência energética de um ônibus com motor a combustão é de 35%, afirmou. Além disso, veículos a diesel emitem gases onde circulam, o que agrava problemas ambientais em grandes cidades —no caso dos ônibus elétricos, as emissões se concentram nas áreas de geração de eletricidade.

Nesse cenário, a eletrificação dos ônibus urbanos é uma questão de tempo, na opinião de Carlos Roma, da BYD Brasil, que defendeu a viabilidade tecnológica e financeira dos modelos. “A infraestrutura é o mais fácil de fazer. A questão econômica vem antes. A gente costuma dizer: 'Não adianta ser verde se não gerar as verdes'. Ninguém quer saber de sustentabilidade se não der retorno sobre os investimentos.”

Ricardo Takahira, vice-coordenador do comitê técnico de veículos elétricos híbridos da SAE-Brasil (Sociedade de Engenheiros de Mobilidade), ressaltou que o avanço dos ônibus elétricos pode ser uma oportunidade para o país desenvolver pesquisa do setor.

“Tenho uma preocupação muito grande com a formação de mão de obra. Não tem problema depender inicialmente de importação, mas com o tempo tem que ter competência e capacitação local”, disse.

Takahira levantou várias vantagens de veículos elétricos, como a possibilidade de converter a energia que seria desperdiçada em frenagens para recarregar as baterias do veículo, mas disse que não há incentivos governamentais suficientes para a eletrificação dos transportes.

“Quando falta dinheiro, fica difícil fazer política. A gente precisa ser mais criativo e achar mecanismos mais eficientes para criar essa política pública”, afirmou Carlos Roma.

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