Convênios criam estratégias contra escalada de transtornos mentais

Diante da maior demanda por psicólogos e psiquiatras, grupos oferecem terapia online

Andrea Vialli
São Paulo

Operadoras de planos de saúde estão criando estratégias para lidar com a escalada da demanda na área de saúde mental. Terapias online, atenção integrada com médicos da família e ação conjunta com startups são parte do arsenal das seguradoras para prestar atendimento e conter os custos trazidos pelo aumento da procura.

Ilustração colorida mostra mãos segurando bisturis
Ilustração Deco Farkas

As consultas psiquiátricas cresceram 69% e as internações tiveram aumento de 97% entre 2012 e 2018.

As consultas com psicólogos saltaram 116% e as internações em hospital-dia (quando o paciente é acolhido durante o dia e volta para casa à noite) cresceram 211% no período, segundo dados da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar).

Os diagnósticos mais recorrentes nos pedidos de tratamento na área são ansiedade, depressão, estresse, síndrome de burnout (esgotamento no trabalho) e dependência química.

O aumento desses transtornos não é um fenômeno brasileiro: segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), nos últimos dez anos o número de pacientes com depressão no mundo aumentou 18%. No Brasil, quase 6% da população sofre com o problema; já a ansiedade acomete 9%. 

Um dos fatores que ajuda a explicar esse aumento é a maior procura por ajuda. “Há uma maior medicalização de condições antes relegadas ao não diagnóstico”, diz Daniel Peixoto de Albuquerque, superintendente de provimento em saúde da Central Nacional Unimed. “O aumento da tensão que o mercado de trabalho exerce devido à crise econômica é outro fator determinante”, diz.

A operadora relata um aumento de 10% no número de consultas de psiquiatria e psicologia e de 20% nas internações nos últimos 12 meses. Segundo Albuquerque, a área de saúde mental responde hoje por 2% dos custos assistenciais, e as estratégias para administrá-los passa por auditoria e monitoramento dos doentes crônicos.

Para os pacientes com depressão e ansiedade leve a moderada, os atendimentos online, que há um ano passaram a ser permitidos e regulamentados pelo Conselho Federal de Psicologia, foram uma inovação bem-vinda, pois diminuíram a pressão sobre a rede assistencial.

A Amil lançou em 2018 uma estratégia de suporte à saúde mental, voltada aos beneficiários de São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, que combina o atendimento por psiquiatra, psicólogo, assistente social e um médico da família. O objetivo é dar uma assistência mais integrada aos pacientes. 

“Ao analisar os dados de atendimento, vimos que o paciente ficava solto na rede quando tinha alguma crise —às vezes procurava o psicólogo e o psiquiatra, mas esses profissionais não conversavam”, diz Nulvio Lermen Junior, diretor técnico de atenção ambulatorial da Amil. 

A estratégia tem dado resultados: em pouco mais de um ano, as internações psiquiátricas tiveram queda de 13%, sendo que no ano anterior a Amil registrara uma alta de 30%. “Atitudes simples, como disponibilizar assistentes sociais para conversar com os pacientes, já ajudou a salvar vidas”, afirma Fabiane Minozzo, psicóloga e gerente de práticas assistenciais da Amil.

Na Bradesco Saúde, a alta no número de beneficiários que buscam consultas, terapias e internações psiquiátricas foi de 38% nos últimos dois anos. De janeiro a setembro de 2019, o aumento foi de 19% em comparação ao mesmo período do ano passado.

Em razão disso, a empresa criou uma área dedicada a acompanhar a jornada do paciente por todas as instâncias de atenção, que identifica oportunidades para direcionar o tratamento. 

Outra frente é junto aos clientes corporativos. “Oferecemos às empresas um treinamento de liderança, no qual uma psicóloga atua junto aos líderes instruindo na identificação e na condução de casos na equipe”, afirma Thaís Jorge, diretora da Bradesco Saúde. 

As startups de saúde também são uma saída buscada tanto pelos planos de saúde quanto por empresas que estão sendo impactadas com queda na produtividade, absenteísmo e desligamento de seus profissionais em razão de esgotamento.

A Psicologia Viva, startup acelerada pela Oxigênio, empresa da Porto Seguro, teve sua plataforma incluída na rede referenciada da Porto Seguro Saúde em outubro de 2018, dando aos segurados o acesso a uma rede com mais de 4.000 psicólogos em todo o país, com atendimento 24 horas.

Até o momento, a seguradora registra 4.500 atendimentos pela plataforma, diz Marcelo Zorzo, diretor da Porto Seguro Saúde. A startup também tem parceria com as operadoras Care Plus e Unimed.

A dificuldade de encontrar um bom psicólogo no plano de saúde motivou a empreendedora Tatiana Pimenta, de São Paulo, a criar a Vittude, startup que faz a ponte entre terapeutas e pacientes. 

Em 2012, sofrendo de depressão, Tatiana chegou a passar por três psicólogos sem bons resultados, o que a levou a investigar o mercado. Ao estudar as possibilidades da telemedicina, descobriu uma oportunidade de negócios. 

A Vittude começou a operar em 2016, a princípio com uma rede de psicólogos recrutados em São Paulo.

Com a regulamentação dos atendimentos online, a startup percebeu um boom nos acessos, e hoje conta 20 mil usuários e 3.500 psicólogos cadastrados.

“Além de pessoas físicas, notamos um aumento na procura por parte de empresas, o que nos levou a criar um serviço corporativo”, diz.

Veio então a Vittude Corporate: as empresas que contratam o serviço subsidiam a psicoterapia para seus colaboradores. Escritórios de advocacia, empresas de TI e outras startups estão entre os principais clientes.

Com o novo produto, a Vittude negocia com empresas de até 40 mil funcionários, o que deverá nortear a expansão de seus negócios —a startup recebeu em novembro aporte de R$ 4,5 milhões, liderado pelo fundo de venture capital Redpoint Eventures. 

Mas a prática da telemedicina ainda está sendo discutida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), de modo que não são permitidas consultas virtuais na área de Psiquiatria, diz Antônio Geraldo da Silva, diretor da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria).

“Em psiquiatria, nada substitui a consulta presencial, pois o contato físico com o paciente é parte do diagnóstico.”

Para o médico, esse tipo de atendimento deve ficar restrito a orientações mais gerais, como sobre uso e efeitos colaterais de medicamentos. 

“Os planos de saúde buscam baratear as operações com atendimentos em escala, mas a medicina tem que ser como a alta costura, sob medida para cada paciente.”

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