Descrição de chapéu 4º Fórum Inovação Educativa

Modelo de aprendizagem colaborativa vai além da disposição de carteiras em sala

Método estimula jovem a ir atrás de informações e favorece ambientes de troca

São Paulo

A aprendizagem colaborativa, modo de ensino no qual o aluno, e não o professor, é colocado no centro do processo, tem sido implementada aos poucos nas escolas. Sem romper, porém, com o modelo tradicional.

“As melhores inovações são as incrementais, não as disruptivas. Não dá para jogar tudo de antes no lixo e dizer ‘agora a escola é assim’. Se eu disser ‘bom, agora não tem mais prova nem sala de aula’, as pessoas vão embora”, diz Renato Júdice, diretor da unidade de Higienópolis do Colégio Rio Branco, em São Paulo.

À frente da escola desde 2017, Júdice diz que a inovação nos colégios deve ser constante e promovida pela diretoria. Segundo ele, não adianta esperar que a comunidade escolar mude seus hábitos de maneira orgânica. 

“Se eu ficar de braços cruzados, ninguém vai fazer nada. Tenho que capacitar professores e incentivar alterações.”

Sob sua gestão, o Rio Branco proibiu, por exemplo, que as carteiras nas salas de aula sejam dispostas da maneira tradicional, em fileiras. A exceção é quando há provas.

Durante as aulas, os professores não devem ser apenas transmissores de informação, diz o diretor, mas orientadores de alunos com autonomia. 

“Estamos falando de uma mudança no modelo de ensino, não só nos recursos da classe porque mudamos as mesas de lugar. Pense numa lousa digital: esse é o maior exemplo de não inovação. É tecnológica, mas o jeito de ensinar não muda”, afirma.  

Além disso, a escola turbinou seu wifi, para que ele funcione bem em todas as dependências da construção. 

Com isso, é possível que os alunos tenham aulas em qualquer ambiente, até nos abertos.
Segundo Fátima Lopes, diretora do Colégio Aubrick, no Campo Belo, a escola que dirige também implementa mudanças com parcimônia.

Segundo ela, o colégio ainda reconhece muito a importância do ensino tradicional, mas, ao mesmo tempo, capacita professores para que aprendam a lecionar usando metodologias ativas. 

“Há situações em que o ensino tradicional é necessário e outras em que é possível levar experiências que dão mais autonomia aos alunos. A gente vai mesclando”, diz.

De acordo com a diretora, não é possível afirmar que a abordagem tende a melhorar o desempenho acadêmico dos estudantes, mas sim que ela auxilia no seu desejo de frequentar a escola.

“O aluno tem um interesse maior em participar dessas experiências, comparadas a ter que, todos os dias, assistir a uma aula convencional, quadrada, sem muita chance de ser ouvido”, afirma. 

Luciana Fevorini, diretora do Colégio Equipe, em Santa Cecília, centro de São Paulo, diz que é mais fácil aplicar o modelo para alunos mais velhos. A escola dispôs as carteiras em semicírculos para facilitar trocas entre estudantes e professores no ensino médio e no fundamental 2, mas a iniciativa só deu certo com o primeiro grupo. 

“Os mais novos talvez ainda não tenham o autocontrole suficiente para não se distrair nesse tipo de aula”, afirma. 

A aula mais liberal, exatamente por ser assim, precisa de organização, ou pode virar uma bagunça. Principalmente no início da implementação do modelo, diz Miguel Thompson, diretor acadêmico da Fundação Santillana, é necessário haver orientações específicas para os estudantes, com estabelecimento de funções em seus grupos e de datas para a entrega de pesquisas ou trabalhos.

“A aprendizagem colaborativa causa um frisson porque os alunos podem sair da sala de aula e ficar mais soltos, então é necessário seguir alguns passos para que eles não fiquem indisciplinados”, diz. 

Na outra ponta, também é importante explicar bem aos pais, acostumados às aulas tradicionais, as características do novo modelo de ensino, para que não haja resistência. 

O método, segundo Thompson, é uma exigência do mundo de trabalho contemporâneo, que não absorve mais profissionais que só sabem reproduzir o que aprendem, mas os que são capazes de inventar e criar.

“Os modelos de aprendizagem ativa são fundamentais para a criação. O processo é mais importante que o produto. Mais importante que saber o que é fotossíntese é saber onde buscar informações confiáveis sobre isso. Se você aprende fazendo pesquisa, isso fica para a vida toda”, diz. 

Na rede pública do estado de São Paulo, a Secretaria da Educação também se mexe para incentivar abordagens diferentes da tradicional. 

“A aprendizagem colaborativa é algo essencial hoje em dia. É uma nova maneira de lidar com a escola, tirando o aluno da passividade e trazendo-o para o centro do processo. Os estudantes e professores aprendem juntos”, afirma Débora Garófalo, assessora de tecnologias da secretaria. 

A pasta, conta ela, estimula professores e diretores a identificar locais fora da sala de aula que possam servir como ambientes de colaboração. “O espaço também precisa ser propício para trabalhar com trocas e favorecer o trabalho em equipe”, afirma ela.

A secretaria capacita seus docentes para lidar com novas formas de ensino. Cerca de 100 mil professores paulistas já fizeram um minicurso sobre o assunto. 


Conheça os termos da inovação escolar

Aprendizagem baseada em problemas
 Metodologia de ensino na qual os estudantes partem de um problema real ou simulado, ou de um estudo de caso, proposto pelo professor, e trabalham colaborativamente para chegar a uma solução

Aprendizagem baseada em projetos 
Método em que alunos fazem juntos um produto, como um site, uma mão robótica ou uma história em quadrinhos, a partir de uma questão relacionada, de preferência, a um problema real 

Aprendizagem baseada em times
Propõe que os estudantes colaborem na construção de seus conhecimentos a partir da interação com os pares e com o professor. É uma metodologia recomendada para grupos grandes

Aprendizagem criativa 
Incentiva a exploração livre e a criação de projetos, colocando o estudante como protagonista de seu conhecimento. As atividades costumam envolver temas abertos e materiais diversos, de massinha a computadores

Cidade educadora 
Compreensão da cidade como território educativo. Seus espaços e atores são entendidos como agentes pedagógicos, que podem participar do processo de formação dos indivíduos 

Competências para o século 21
Conjunto de conhecimentos e atitudes que os alunos devem desenvolver para poderem atuar em um mundo em constante transformação. Envolve aspectos cognitivos (capacidade de resolver problemas e pensamento crítico) e socioemocionais (autocontrole e empatia)

Design thinking  
 Abordagem que busca a criação de soluções inovadoras para desafios cotidianos do processo de ensino e de aprendizagem por meio da colaboração entre as pessoas

Educação Integral
Considera o desenvolvimento dos sujeitos em todas as suas dimensões: intelectual, física, emocional, social e cultural. Nesse sentido, a escola age como uma articuladora de experiências que ocorrem dentro e fora dela

Espaço maker
Espaço físico com ferramentas e materiais diversos à disposição dos alunos para que eles desenvolvam projetos. Um exemplo são os FabLabs (laboratórios de fabricação), pequenas oficinas tecnológicas

Educomunicação
Refere-se a ações que buscam fortalecer a comunicação em espaços educativos. O professor pode propor, por exemplo, que os estudantes façam análises críticas da mídia e criem seus próprios veículos

Ensino híbrido
 Metodologia que combina momentos de interação entre professores e alunos presenciais e online, dentro e fora da sala de aula

Gamificação
Utilização de elementos de jogo (colaboração, competição, superação de obstáculos e premiação) na trilha de aprendizagem, para manter os alunos motivados e envolvidos. Não precisa envolver tecnologias digitais

Metodologias ativas 
Estratégias que colocam o estudante no centro do processo de aprendizagem. A ideia é que o aluno deixe de ter uma postura passiva, em que é apenas receptor dos conhecimentos transmitidos pelo professor, para atuar com autonomia na construção do seu conhecimento

Pensamento computacional  
Habilidade que considera os fundamentos da computação para modelar soluções e resolver problemas. Envolve a divisão do problema em partes menores; o reconhecimento de padrões; a abstração dos detalhes e análise dos aspectos relevantes

Personalização do ensino 
Possibilidade de usar diferentes estratégias 
no processo pedagógico para que alunos com diferentes perfis e ritmos de aprendizagem possam ser atendidos, respeitando as necessidades e o potencial de cada um. Esse processo pode ou não ter o auxílio das tecnologias digitais

Recursos educacionais abertos (REA) 
Materiais de ensino, aprendizagem e pesquisa de domínio público ou que tenham sido divulgados sob licença aberta, que permitem o acesso, o uso, a adaptação e a redistribuição por terceiros. Podem ser veiculados em suportes digitais ou não. Alguns exemplos estão no REliA (Recursos Educacionais com Licenças Abertas), um repositório de REAs na internet 

Sala de aula invertida 
Abordagem que propõe uma mudança no modelo tradicional de ensino, com aulas menos expositivas e mais participativas. O professor indica materiais de preparação e, em sala de aula, os alunos são estimulados a trabalhar em grupos para resolver problemas e aplicar os conhecimentos estudados previamente. Podem ser sugeridos nessa etapa de planejamento vídeos, desafios ou pesquisas que conectem os estudantes com aquilo que será realizado na escola 

STEAM 
Da sigla em inglês para ciências, tecnologia, engenharia, artes e matemática, é uma abordagem pedagógica 
que defende a aprendizagem integrada e interdisciplinar no lugar do estudo isolado de cada disciplina. O STEAM tem ênfase na realização de atividades práticas e na valorização da a experimentação. Recomenda que o aprendizado realizado na escola esteja associado a questões e à resolução de problemas da vida real, 

Transdisciplinaridade  
Abordagem que proporciona uma integração curricular. Vai além da interdisciplinaridade, porque não estabelece separações entre disciplinas

Fontes: Antonieta Megale, coordenadora de extensão do Instituto Singularidades; Leo Burd, pesquisador do MIT Media Lab e diretor da Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa; Lilian Bacich, diretora da Tríade Educacional e co-autora do livro “Metodologias Ativas para uma Educação Inovadora”; Priscila Gonsales, diretora-executiva do Instituto Educadigital; Tatiana Klix, diretora do Porvir
​Texto de Lisandra Matias

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