Séries médicas matam e ressuscitam mais do que na vida real, dizem estudos

Ficção, porém, pode ajudar na formação de novos profissionais, nem que seja como mau exemplo

O ator Freddie Highmore  na pele do cirurgião com autismo em ‘The Good Doctor'

O ator Freddie Highmore na pele do cirurgião com autismo em ‘The Good Doctor' Divulgação

São Paulo

A medicina representada em séries de TV como "Dr. House", "Plantão Médico", "Grey's Anatomy" e "The Good Doctor" pode ser útil, dizem artigos científicos --nem que seja como mau exemplo.

Uma pesquisa publicada na revista New England Journal of Medicine, em 1996, já estava preocupada com o impacto causado por séries de TV. No artigo, os autores analisaram 60 casos de ressuscitação cardiopulmonar (RCP) exibidos em programas como "Plantão Médico" (no ar havia dois anos) e "Emergência 911" (que estreou em 1989).

A taxa de sobrevivência observada na ficção era muito maior do que a da literatura médica. No curto prazo, 75% das pessoas sobreviviam na ficção, contra 40% na realidade. A longo prazo, a diferença se mantinha: 67% contra 30%. 

"Reconhecemos que esse tipo de drama produz um bom programa de TV, o que é evidenciado pela grande audiência. No entanto, esses casos excepcionais podem fazer as pessoas menosprezarem conselhos de médicos e passarem a esperar que um milagre aconteça com elas também", escrevem os autores, de instituições como a Universidade Duke e a Universidade de Chicago. "Mostrar esses milagres como eventos relativamente comuns pode minar a confiança nos médicos e nas evidências científicas."

Essas séries tendem a mostrar dois tipos de resultados: morte ou recuperação completa. Fica de fora uma boa fração que é a de pessoas com sequelas ou que precisam de acompanhamento permanente por profissionais de saúde.

"Durante as discussões sobre o uso da RCP, devemos perguntar sobre as percepções de sobrevida de nossos pacientes, abordar especificamente as imagens da RCP na televisão e apresentar dados quantitativos sobre possíveis resultados para nossos pacientes, quando apropriado. Com esses esforços, médicos, pacientes e famílias poderão tomar decisões mais bem informadas sobre esses problemas difíceis", concluem os autores.

Outro estudo sobre séries médicas foi publicado em 2018 no British Medical Journal (ou BMJ), que analisou os pacientes de "Grey's Anatomy" que passaram por traumas físicos.

Se nas ressuscitações de "Plantão Médico" as pessoas morriam pouco, o contrário ocorre no fictício hospital Seattle Grace, onde se desenrola a rocambolesca trama de "Grey's Anatomy".

Pesquisadores do Hospital e Centro Médico St. Joseph, no Arizona, compararam 290 pacientes da série com 4.812 pacientes do Banco de Dados Nacional de Trauma dos EUA. Na ficção, a mortalidade é de 22%, contra 7% da vida real. 

Há ainda outros deslizes da trama: os pacientes da série tendem a ir direto do pronto-socorro para o centro cirúrgico (71% na série contra 25% na realidade) e poucas pessoas são encaminhadas para tratamentos de longa duração, como fisioterapia e terapia ocupacional (6% versus 22%). 

Por fim, os pacientes gravemente feridos da série iam para casa em menos de uma semana em 50% dos casos, o que só ocorre em 20% dos casos reais.

"As expectativas do paciente após ser ferido podem ser distorcidas por essa retratação irrealista das lesões na ficção", escrevem os autores, que também reconhecem que muito pouco se sabe sobre o efeito das séries médicas de TV no mundo real. 

Mas nem tudo são más notícias. Um grupo da Universidade de Marburgo, na Alemanha, resolveu criar um curso optativo para alunos de medicina para demonstrar exemplos --bons e maus-- encenados na série "Dr. House" (2004-2012). Eles relataram a experiência na revista Plos One em 2018.

Entre os maus exemplos estão a forma grosseira com a qual o protagonista Gregory House trata sua equipe e os pacientes. Já do lado bom estão as surpreendentes capacidades diagnósticas do médico --que consegue decifrar condições muito raras com relativa facilidade-- e sua habilidade de tratar o doente.

Entre os 213 alunos que responderam a um questionário, 70% disseram que é possível aprender muito com o drama ainda que o conteúdo seja pouco relevante para a atuação profissional. 

Segundo os autores, uma das características de "Dr. House", também por causa da meticulosidade do protagonista, é o compromisso de trazer informações médico-científicas corretas. "Claro que o principal objetivo dessas séries é entreter, e nem sempre elas representam completamente a prática médica. Contudo, essas mesmas características podem tornar a transmissão de conhecimento mais atraente."

Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Alberta, no Canadá, chegaram a criar uma espécie de guia para quem quer usar as séries médicas no ensino, no qual avaliaram sete séries. A publicação está na revista especializada Medical Teacher.

Segundo eles, "Plantão Médico" ajuda a entender como se dá o sistema de mentoria, no qual o médico mais experiente é o responsável na formação dos mais novos, e as relações profissionais; "Grey's Anatomy" mostra bem como funciona um hospital, além de conflitos éticos, e "Dr. House" seria útil para discutir profissionalismo e a importância das habilidades de comunicação, baseando-se no mau exemplo do médico protagonista.

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