Ecommerce explode durante pandemia, mas deve continuar crescendo no país

Previsão é de que consumo online vire hábito e continue aumentando mesmo depois da crise sanitária

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Artur Búrigo
Florianópolis

O impulso dado às vendas no comércio eletrônico brasileiro no 2020 pandêmico foi surpreendente mesmo para um setor que já crescia na ordem de dois dígitos ao ano. No cenário pós-Covid, quando as lojas físicas voltarem a operar sem restrição, essa tendência de expansão deve permanecer, apostam os debatedores da terceira mesa do 4º seminário Inovação no Brasil, promovido pela Folha na última quinta-feira (25).

Os números ajudam a explicar a empolgação com o setor. Em 2020, as vendas do comércio eletrônico cresceram 41%, atingindo um faturamento de R$ 87,4 bilhões, de acordo com dados do relatório Webshoppers da Ebit|Nielsen e do Bexs Banc.

A consultoria Nielsen projetou ainda que as vendas online do país devem continuar em forte ascensão, chegando a uma alta de 26% em 2021. O percentual, que já é significativo, se torna ainda mais expressivo ao considerar que parte de uma base de comparação alta como a de 2020.

Entre os motivos apontados pelos participantes do webinário para essa expansão, estão o ingresso de novos consumidores ao mundo das compras digitais, a experiência e comodidade oferecidas ao cliente do momento da compra à entrega do produto e a margem de expansão ao comparar o desempenho do setor com o de outros países.

“Apesar de estar crescendo bastante, o ecommerce ainda é relativamente pequeno no país. O setor está no cenário da oportunidade, com pouco tamanho, grande taxa de crescimento e uma expectativa de participação muito grande”, afirmou Giuliano Donini, diretor-presidente da Marisol S.A, empresa de vestuário infantil com sede em Jaraguá do Sul (SC).

Relatório de fevereiro deste ano da XP Investimentos apontou que o percentual das vendas do comércio eletrônico no Brasil em comparação ao total do varejo cresceu de 6% em 2019 para uma projeção em torno de 9% em 2020. Como comparação, essa taxa chegava a 35% na China e a 22% no Reino Unido e na Coreia do Sul ainda no período pré-pandemia.

Maurício Salvador, presidente da Abcomm (Associação Brasileira de Comércio Eletrônico), também lembrou que foram criadas 150 mil lojas virtuais entre abril e setembro de 2020, superando em dez vezes a previsão total para o ano, feita antes da crise sanitária.

“O legado da pandemia para o ecommerce é da entrada de muitas pessoas e empresas que, sob condições normais, não teriam vindo para o setor de compras online. O que aconteceu não foi transformação digital, foi obrigação digital, e isso trouxe um novo modelo de concorrência para o setor, abriu oportunidades”, afirmou Salvador.

O número de consumidores que se aventuraram pela primeira vez no mundo das compras online foi de 20 milhões em 2020, também superando a previsão inicial, que era de 3 milhões.

“As pessoas que não compravam no digital passaram a fazê-lo. Depois de um ano, se torna um costume que você não tira mais”, ressaltou Eduardo Fregonesi​, CEO da Synapcom, empresa especializada em full-commerce, com foco no desenvolvimento de todas as etapas do ecommerce para os clientes.

Essa integração citada por Fregonesi é conhecida no mundo de jargões do setor como omnichannel —a junção dos canais de atendimento de uma empresa, integrando a experiência do cliente nos meios físico e digital e possibilitando que ele faça a compra no site e retire na loja, por exemplo.

A estratégia foi citada por todos os debatedores como essencial para o futuro das empresas no comércio eletrônico. “Hoje o consumidor não se atenta mais para o fato de estar comprando da loja física ou do site, ele está interessado na marca. O importante é atender o cliente onde quer que ele esteja”, afirmou Patricia Knipl, head de ecommerce na Fikbella Perfumaria, que atua há 20 anos no setor.

Donini, diretor-presidente da Marisol S.A, apontou que o omnichannel pode inclusive diminuir custos para as empresas, como nas operações que envolvem logística, um tema que está sempre na lista de prioridades do setor por conta da dimensão territorial do país.

“O consumidor não está mais disposto a pagar por ineficiências nos negócios. A inteligência que a tecnologia tem trazido para o jogo vai possibilitar que muito desperdício seja evitado.”

Outro reflexo da forte alta do comércio eletrônico no país é a falta de mão de obra especializada para o setor. As características do negócio, assim como o pouco tempo de presença no Brasil, são apontados como fatores que ajudam a explicar um cenário de 12 mil vagas abertas para o setor.

O levantamento, realizado pela Abcomm junto à Comschool em sites que reúnem ofertas de empregos, registrou um crescimento de quase 10 mil vagas em relação a 2019.

“A maior dificuldade para contratar hoje na área é de um profissional de ecommerce, que tem de ser multidisciplinar, saber de logística, marketing digital, fraude, pagamento”, disse Salvador, da Abcomm. “A concorrência com muitas empresas entrando nesse mercado tende a inflacionar mais essa procura”, completou.

“É muito difícil encontrar mão de obra qualificada para acompanhar a evolução que acontece a todo momento no ecommerce, que está há 20 anos no mercado”, concordou Patrícia Knipl.

O evento teve mediação de Vinicius Torres Freire, colunista da Folha, e contou com patrocínio de Santander, Synapcom e apoio do Nelson Wilians Group.


Assista à íntegra do webinário

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