Após redução salarial, rotina de home office vai da sobrecarga ao tédio

Afetados por corte de jornada têm horas ociosas em casa, mas precisam dar conta da demanda em menos tempo

São Paulo

Profissionais afetados pela Medida Provisória 936, que permite, entre outros pontos, redução da jornada e do salário durante três meses, contam que, se por um lado passam mais horas ociosas em casa, por outro às vezes acabam tendo que trabalhar mais do que deveriam.

"Me adaptar à carga de duas horas e meia foi complicado. Como lido com clientes, às vezes preciso trabalhar um pouco a mais, mas aí compenso em outros dias", diz Karina Gouveia, 28, formada em marketing e executiva de negócios na B. Drops, canal de TV para salões de beleza.

Ela teve corte de 70% no salário e na jornada por três meses. Deve trabalhar só duas horas e meia por dia. Mesmo nos dias em que fica um pouco mais, ainda lhe sobra tempo.

Não foi fácil, conta, lidar com as horas ociosas. Para driblar o tédio, faz aulas de meditação e inglês.

No lado financeiro, conseguiu renegociar o preço de seu aluguel para pagar 20% a menos e cortou alguns canais de sua TV a cabo. "Por outro lado, saía muito, e boa parte dos gastos vinha disso. Ter de ficar em casa também ajudou a equilibrar as contas."

Outra que cortou gastos para passar pelo período é Amanda Silva Santos, 30, analista na FX Retail Analytics, que fornece soluções de fluxo de clientes a lojistas.

Amanda Silva Santos, 30, funcionária da FX, no escritório da empresa em SP
Amanda Silva Santos, 30, funcionária da FX, no escritório da empresa em SP - Gabriel Cabral/Folhapress

"Cancelei aplicativos de streaming. Só deixei Netflix e Spotify. Também não compro nada de vestuário desde o início da pandemia", diz.

Sua redução foi de 25%. Ela afirma que nem sempre consegue trabalhar as seis horas diárias que deveria, mas não se incomoda com isso.

"Temos clientes de todo o Brasil, e há lugares que estão funcionando normalmente. Também há fuso horário. Não posso ignorar. Das 10h às 16h30 estou 100% disponível, mas também trabalho antes e depois eventualmente."

À exceção de dias que fica muitas horas a mais, Amanda conta que registra o ponto como se tivesse trabalhado normalmente.

"Se tem de fazer, eu faço. Não é justo ficar apontando isso agora. Todo mundo está assim na empresa. Se eu desligar meu computador às 16h31, o fluxo não funciona", afirma.

Trabalhar mais do que sua jornada prevê, em um momento em que recebe apenas metade do salário, tem sido um incômodo constante para Joana, 30 (nome fictício).

Ela ocupa um cargo de gestão numa agência de intercâmbios. Comanda uma equipe de três pessoas.

"Estamos em tese proibidos de fazer horas a mais. Minha chefe faz questão de deixar isso bem claro, mas ao mesmo tempo as cobranças para fazer coisas fora do meu horário não param de chegar. É muito ambíguo", diz.

Segundo ela, duas ou três vezes por semana o trabalho lhe consome três ou quatro horas a mais do que deveria.

"Já reclamei com a minha gestora, que disse que ia passar a demanda adiante. Ficou só nisso mesmo. Não a culpo. Ela também trabalha mais que deve porque mandam."

Horas extras durante a vigência da medida provisória são proibidas, de acordo com a advogada trabalhista Maria Lúcia Benhame.

"É irregular. Se você faz hora extra é porque na verdade não deveria reduzir a jornada. As empresas têm que tomar muito cuidado com isso."

Ela explica que os funcionários só podem trabalhar mais que o estabelecido caso tenham um débito anterior no período. Ou seja, se a jornada do profissional foi menor do que a prevista em uma semana, ele pode fazer a compensação nas próximas.

Na outra ponta, a MP tem ajudado empresários a passar pelo momento de crise sem precisar demitir. É o caso da Mark's Veículos, de Barretos.

"A pandemia, claro, pegou a gente de surpresa. Tivemos queda de 80% das vendas em abril, aí aplicamos a MP para não ter de demitir", conta Renan Garcia Marques, sócio.

A redução foi de 25% para quase todo o pessoal. Segundo ele, as vendas tem melhorado em maio porque a empresa tem focado o ecommerce, algo raro no segmento e exatamente a área que não teve salário e jornada reduzidos.

De acordo com o Ministério da Economia, 3,25 milhões trabalhadores tiveram redução salarial até 12 de maio. O número deve crescer.

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