Descrição de chapéu The New York Times

Crise faz com que 800 mil mulheres deixem o mercado de trabalho nos EUA

Disparidade salarial e trabalho doméstico são principais causas de saída em massa; movimento deve aprofundar desigualdade

Alisha Haridasani Gupta
Nova York | The New York Times

Os números sobre emprego nos Estados Unidos em setembro confirmaram o que economistas e especialistas temiam: a recessão deflagrada pela pandemia está tendo efeitos desproporcionais sobre milhares de mulheres e aumentando a desigualdade no mercado de trabalho.

O índice de desemprego nos Estados Unidos caiu a 7,9% em setembro, bem abaixo do pico de quase 15% em abril, mas boa parte da redução no desemprego não foi causada por crescimento econômico —embora tenha havido algum avanço no quadro de emprego— e sim pelo fato de que milhares de pessoas optaram por deixar o mercado de trabalho.

A maioria das pessoas que deixaram a força de trabalho são mulheres. Do 1,1 milhão de pessoas com idade superior a 20 anos que deixaram a força de trabalho americana (ou seja, não estão nem trabalhando nem procurando emprego), em agosto e setembro, mais de 800 mil são mulheres, de acordo com uma análise conduzida pelo Centro Nacional das Leis para a Mulher. O número inclui 324 mil mulheres latinas e 58 mil negras. Em comparação, 216 mil mulheres brancas deixaram o mercado de trabalho no mesmo período.

Desde que a pandemia começou, postos de trabalho foram fechados em setores onde há mais mulheres, como os de hospitalidade, educação, entretenimento e mesmo algumas porções do sistema de saúde.

Mas, mesmo que algumas partes da economia tenham retornado à atividade, dados recentes indicam que muitas mulheres estão optando por sair do mercado.

“A questão da disparidade salarial é parte importante da história, a esta altura”, disse Stefania Albanesi, professora de Economia na Universidade de Pittsburgh que pesquisou sobre desigualdades de gênero na força de trabalho.

Ao longo do ano, houve sinais de que as mulheres estavam sendo pressionadas pelo peso do trabalho não remunerado que fazem, enquanto ao mesmo tempo mantêm empregos de tempo integral.

Um relatório da Lean In e da consultoria McKinsey & Company, publicado em setembro, constatou que das 40 mil mulheres pesquisadas em diversas companhias americanas, entre maio e agosto, 25% estavam contemplando pedir demissão ou reduzir a prioridade que atribuem às suas carreiras —trabalhando em tempo parcial, procurando empregos menos sacrificados ou buscando postos que permitam um melhor equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal.

À medida que o esforço necessário para cuidar das famílias cresceu, com o fechamento de muitas escolas e creches persistindo até o quarto trimestre, muitas mulheres –especialmente mulheres brancas– tomaram a decisão de deixar o mercado de trabalho.

O índice de participação na força de trabalho americana para as mulheres de 20 ou mais anos foi de 56,3% em setembro, ante 58,3% no período em 2019. Entre as mulheres negras, ele foi de 59,8%, ante 62% em setembro de 2019, e entre as mulheres hispânicas ou latinas ele foi de 57%, ante 61% no período no ano anterior.

“As famílias brancas tendem a ter patrimônio maior e renda média maior, e por isso tomar a decisão de alguém parar de trabalhar, quando comparadas aos domicílios de famílias negras, cujas rendas são bastante baixas”, disse Albanesi.

Ao escolher quem tomará conta das crianças ou de parentes doentes, faz sentido econômico que a pessoa que ganha mais volte a trabalhar ou continue trabalhando, explicou Albanesi. Em um domicílio com duas fontes de renda, o mais frequente é que a renda maior seja a do homem.

“Quanto maior a disparidade salarial entre os cônjuges, menor a presença na força de trabalho do cônjuge com renda mais baixa, que tipicamente é a mulher”, ela disse.

Abandonar o trabalho tem consequências de longo prazo, não só para quem tenta reingressar nele posteriormente mas também para o lugar da mulher no mercado, disse Matthias Doepke, professor de Economia na Universidade Northwestern e coautor de um relatório publicado em agosto sobre o impacto da atual recessão econômica sobre os gêneros.

“Primeiro, demora algum tempo para encontrar um novo emprego”, disse Doepke. "Mas o que é mais importante, na verdade, é que se torna ainda mais difícil encontrar um emprego comparável e voltar à mesma posição de carreira."

“E assim vemos que, mesmo décadas depois de uma recessão, as pessoas que perderam seus empregos muitas vezes continuam tendo renda baixa”, ele acrescentou.

Isso exerce impacto sobre a disparidade salarial. De acordo com as pesquisas de Doepke, a recessão provavelmente alargará a disparidade em cinco pontos percentuais, perpetuando por ainda mais tempo as condições que levaram as mulheres a deixar o trabalho neste ano.

Quando as mulheres deixam a força de trabalho, quer seja por demissão, quer por decisão voluntária, se torna mais provável que passem um período mais longo fora da força de trabalho, disse Kweilin Ellingrud, sócia sênior da McKinsey. “E essa é uma história muito preocupante."

“Perdemos agora muito terreno que havia sido conquistado bem devagar ao longo dos dez últimos anos”, ela acrescentou.

Tradução de Paulo Migliacci  

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