Trainee virtual ajuda empresas a diversificar perfil de candidatos

Companhias reformulam atividades, apostam em dinâmicas online e criam programas híbridos para depois da pandemia

São Paulo

A pandemia obrigou empresas a migrar para o universo digital às pressas e, além de acelerar a adoção do trabalho remoto, transformou os processos seletivos e programas de treinamento.

Para Cintia Reinaux, especialista em recursos humanos e fundadora do portal Vida de Trainee, a realização de etapas de processos seletivos online já era uma tendência. Agora, ela acredita que até as fases tradicionalmente presenciais, como dinâmicas de grupo e entrevistas, podem se manter digitais após a pandemia.

Já os programas de treinamento podem ser híbridos a partir de 2021. É o que planeja a Ambev, segundo a porta-voz da empresa Ilana Kern. Neste ano, a companhia teve de adaptar rapidamente os conteúdos às plataformas digitais.

Alana Cyrne, trainee da Ambev, que fez parte do programa online 
Alana Cyrne, trainee da Ambev, que fez parte do programa online  - Adriano Vizoni/Folhapress

Dependendo do cenário no ano que vem, atividades que seriam feitas em São Paulo, incluindo conversas com diretores, vão continuar online. E práticas que envolvem visitas na rede de operações e logística poderiam ser feitas de forma presencial.

“Com certeza os trainees estão sentindo as mudanças porque eles queriam estar vivenciando o dia a dia desde o início, com todo o time”, diz.

Graduada em direito pela Universidade Federal de Viçosa (MG), Alana Cyrne, 24, uma das trainees da Ambev deste ano, acompanhou a transição para o online.

Entre janeiro e março, antes da quarentena, os trainees tinham viajado por três estados do país —atividade comum dos programas de treinamento que se propõem a mostrar toda a cadeia de produção da companhia.

Com a pandemia, o programa foi reformulado para que todas as etapas que pudessem ocorrer de forma remota fossem priorizadas.

Alana cita um treinamento de soft skills, feito virtualmente, no qual questões de diversidade racial, sexual e de gênero ganharam espaço.

Além da reorganização do cronograma de atividades, a empresa organizou o empréstimo de equipamentos.

Para ela, o saldo de ter vivenciado uma situação de crise é positivo. “Estar em contato com as lideranças, participar de conversas estratégicas, ser integrada às equipes nesse momento foi importante para entender como a empresa se posiciona”, diz.

“Apesar dos momentos de frustração no home office, de não ter aquele cafezinho para trocar uma ideia, foi um amadurecimento profissional”, completa Alana.

Segundo Reinaux, do Vida de Trainee, os momentos de descontração são importantes para quem está começando em uma empresa. Para ela, vale até um cafezinho virtual.

“Uma das grandes características do trainee é o networking, a exposição para outros setores da empresa. Claro que nos programas online ainda vai ter interação, mas é diferente de ter uma conversa no coffee break”, afirma.

A vontade de se destacar no ambiente virtual pode criar um ambiente competitivo.

“É comum o trainee achar que é um palco de guerra ou um palanque. É óbvio que é uma competição, mas não deve ser de um candidato contra o outro. É como se alguém jogasse tênis olhando para o adversário e não para a bolinha. E, quando a bolinha cai no seu campo, você a perdeu de vista”, diz o consultor de recursos humanos Adriano Lima.

Segundo ele, para se sobressair nos programas, continuam válidas as mesmas premissas do mundo offline: mostrar comprometimento e engajamento, pesquisar sobre a empresa, fazer perguntas que não sejam apenas buscando o benefício próprio e entender como funcionam a companhia, os valores e sua cultura.

Lima afirma, ainda, que é importante manter o foco e conhecer a fundo os processos seletivos e empresas antes de se inscrever.

“Sou crítico à ideia de atirar para todo lado. Você acaba investindo tempo e energia em um lugar que pode não te dar bons resultados”, diz.

De acordo com o especialista, os programas mudaram de alguns anos para cá —e a mudança foi além da digitalização. “A empresa não quer um profissional que não valoriza o outro, que não valoriza a equipe”, afirma.

Agora, as companhias buscam mais do que apenas a formação técnica forte e apostam em perfis de liderança e trabalho em equipe.

Para Reinaux, os processos seletivos online abriram mais portas para candidatos de outras cidades e estados.

“As empresas exigiam inglês fluente, davam muita preferência para quem tinha intercâmbio, para quem vinha de faculdade renomada. E selecionavam sempre o mesmo perfil de candidato. Hoje já sabem que, quanto mais diversidade tiverem, mais inovação e criatividade vão ter”, diz.

Ela acredita que os processos 100% online vieram para ficar, mas alerta: “Apesar de a gente estar fazendo tudo na internet, não dá pra confundir as coisas. Já recebi feedback de empresa que falou que candidatos estavam gravando vídeo de inscrição deitados na cama. É importante ter cuidado com o cenário”.

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