Descrição de chapéu mercado de trabalho

Diretor do LinkedIn diz o que faria para conseguir emprego na pandemia se fosse jovem

Milton Beck, 57, fala sobre as novas competências exigidas pelas empresas e como aumentar as chances de contratação

São Paulo

A crise econômica criada pela pandemia tem dificultado a entrada dos jovens no mercado de trabalho.

"Eles têm que se preparar para um contexto muito competitivo, porque há mais gente aplicando para um número menor de vagas", afirma Milton Beck, diretor-geral do LinkedIn para a América Latina.

Neste período, novas habilidades também passaram a ser valorizadas pelos recrutadores, em razão da adoção do trabalho remoto e da necessidade de lidar com um cenário de incertezas.

"As empresas começaram a se conscientizar de que tão importante do que saber programação, marketing ou finanças é ter habilidades interpessoais e capacidade de aprendizado constante", diz ele.

Nesta entrevista, Beck fala sobre como os jovens profissionais podem se preparar para enfrentar o mundo do trabalho transformado pela pandemia.

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Como o jovem que está saindo da faculdade agora vai encontrar o mercado de trabalho?

Quando há uma crise, a primeira coisa que para são as contratações. Mesmo com a melhora do cenário econômico, as empresas ainda demoram a voltar a contratar, não é algo imediato.

No Brasil, nós tivemos uma retração enorme das vagas ofertadas em março e abril. Em alguns dias, passamos de 200 mil vagas disponíveis no LinkedIn para em torno de 130 mil.

Agora, as nossas métricas apontam que as contrações estão voltando aos níveis pré-pandemia. Significa que as empresas estão voltando a contratar, mas isso não cobre todo o déficit de desempregados.

Milton Beck está de terno preto, segurando os ósculos com a mão direta, em frente a um fundo azul
Milton Beck, diretor-geral do LinkedIn para a América Latina - Divulgação

Há áreas menos impactadas pela crise e que devem continuar crescendo?

As mudanças que tivemos no nosso estilo de vida fizeram alterações no mercado profissional. Há mais pessoas trabalhando com suporte técnico a distância, comércio eletrônico, supply chain (gestão da cadeia de suprimentos), mercado de entrega de comida e de supermercados.

As áreas que apresentaram crescimento constante e que devem continuar em expansão no pós-pandemia são aquelas relacionadas a aplicativos e desenvolvimento de softwares. Essas vagas continuam abertas e com menos candidatos do que postos disponíveis.

Dentro das empresas, as menos afetadas foram as áreas de negócio e de vendas, porque as organizações continuam tendo que vender e faturar.

Quais habilidades passaram a ser mais valorizadas pelas empresas?

As habilidades comportamentais já estavam em evidência antes da pandemia e continuam. As pessoas passaram a trabalhar a distância, então a capacidade de comunicação passou a ser mais importante ainda. Também a resiliência, que num momento de crise fica ainda mais relevante, e a criatividade, que está muito relacionada a pensar em processos novos que não podem ser feitos por modelos antigos.

Você vai ver uma série de artigos e posts no LinkedIn sobre a importância das "soft skills" [as competências comportamentais, em oposição às chamadas "hard skills", que são as habilidades técnicas]. Está muito em voga a importância de você saber se relacionar com o outro e participar de reuniões em que a sua opinião não é a vencedora.

No passado, as pessoas subestimavam a importância dessas habilidades. Havia uma hipervalorização dos certificados e dos aprendizados formais e uma subvalorização do comportamental. Aí, você contratava uma pessoa que tinha um currículo acadêmico muito bom, mas que não sabia se comportar em grupo, que mais subtraía do que somava no ambiente de trabalho.

As empresas passaram a se conscientizar de que tão importante do que saber programação, marketing ou finanças é ter habilidades interpessoais e capacidade de aprendizado constante. Algo que você sabe hoje pode te servir para agora, mas talvez não te sirva para daqui seis meses.

Para manter esse aprendizado constante, o profissional não precisa fazer necessariamente uma pós-graduação. Podem ser cursos rápidos, para os quais ele dedique uma hora por dia, por exemplo.

Então, com a pandemia, muitas empresas que não davam tanta atenção às "soft skills" perceberam a sua importância?

Sim. É igual a navegar num rio com muitas pedras. Quando há bastante água, você passa por cima das pedras. Quando tem pouca água, as pedras começam a atrapalhar o barco.

As habilidades comportamentais sempre foram necessárias, mas neste momento de pandemia elas se fizeram mais visíveis e críticas.

Mas é preciso reforçar que as competências técnicas continuam sendo tão necessárias do que antes. Não passamos a ter uma subvalorização das habilidades tradicionais. Se uma empresa precisa contratar um desenvolvedor de plataforma Java, de nada adianta ele ter boa comunicação, lidar bem com o chefe ou ter resiliência se ele não souber programar Java.

Como essas habilidades comportamentais são avaliadas em um processo seletivo? Como o profissional pode se preparar?

São habilidades mais difíceis de se avaliar. Mas as empresas estão dedicando mais tempo a isso. Uma parte das organizações usa o método de entrevista, na qual o candidato tem que responder um conjunto de perguntas.

Algumas fazem testes, outras simulações. Em uma semana de trabalho, a empresa coloca a pessoa numa situação parecida com a real, para ver como ela se comporta. Assim, pode ver se funcionário tem um perfil mais colaborativo ou competitivo, se tem preconceitos, se dá valor para a diversidade.

Num processo seletivo, o jovem deve saber que tudo isso será avaliado. Mas como aprender "soft skills"? Não existe uma faculdade para isso, mas há cursos. O LinkedIn, em particular, tem uma plataforma de treinamentos online e gratuitos.

Como o jovem profissional pode aumentar as suas chances de se contratado e crescer na carreira?

É complicado se formar em uma época em que o mercado está retraído. Mas é preciso manter a motivação.

Se eu fosse um jovem que estivesse procurando emprego, eu faria um perfil no LinkedIn com todas as minhas informações. É importante se conectar com profissionais da área em que se deseja atuar, com professores e colegas de classe. Também é interessante seguir pessoas que você admira e as empresas nas quais tem interesse em trabalhar.

Procurar um emprego é um emprego também. Dá trabalho, tem que se dedicar muito. Mas o profissional pode dedicar seis, sete horas do dia para procurar emprego e uma hora para fazer um curso, que pode ser gratuito. Por exemplo, um conhecimento que serve para qualquer área é saber trabalhar com dados. Todo mundo hoje tem que tomar decisão com base em dados. Então, ele pode fazer um curso de dados ou de línguas, de habilidades interpessoais.

Mesmo quando arrumar um emprego, ele não deve desistir de continuar aprendendo. E também de fazer networking. Um dos maiores erros que as pessoas cometem é se preocupar em fazer networking só quando estão desempregadas. Aí, não é netwoking de verdade, é procurar alguém para te arranjar um emprego.

Para os jovens que puderem, ter um mentor ajuda. Alguém que tenha interesse na sua carreira, que possa aconselhar com base na experiência prévia.

Muitas vezes, quando têm uma dúvida de que caminho seguir em uma encruzilhada, os jovens acabam perguntando para pessoas de confiança que podem não ter tanta habilidade para fazer a resposta correta: a mãe, o pai, um tio. São pessoas que não têm a isenção necessária para dar um aconselhamento profissional mais adequado.

Então, a busca por mentores externos, que não são membros da sua família, é importante. Pode ser um professor ou um colega que se formou dois ou três anos antes. Não precisa ser exatamente um mentor, mas alguém que ajude a dar uma orientação na carreira.

Milton ​Beck, 57

É diretor-geral do LinkedIn para a América Latina. Formou-se em engenharia pela Universidade de São Paulo e cursou pós-graduação em administração pela FGV (Fundação Getulio Vargas). Também fez diversos cursos de especialização no Brasil e no exterior, em instituições como Harvard e Berkeley. Com mais de 20 anos de carreira, já passou por empresas de pequeno, médio e grande porte

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