Descrição de chapéu mercado de trabalho

Aprenda a se tornar um freelancer na pandemia sem cair em ciladas

Dicas vão de reserva antes de deixar emprego fixo a uso das redes sociais; plataforma especializada bate recorde de cadastros

São Paulo

A crise econômica decorrente da pandemia da Covid-19 trouxe impactos significativos para as modalidades de trabalho. Diante da instabilidade, contratos mais flexíveis e com menos obrigações trabalhistas para empresas ganham espaço, e cresce o número de profissionais autônomos trabalhando como prestadores de serviços.

Segundo Daniel Schwebel, diretor na Workana Brasil, plataforma de trabalho especializada em freelancers, já era possível observar um aumento de profissionais e de empresas em busca de serviços nos últimos três anos. O número, porém, bateu recordes durante a pandemia.

De uma média de 25 mil freelancers cadastrados mensalmente, a plataforma passou para 45 mil em abril de 2020. Ao longo da pandemia, esse número se estabilizou em cerca de 30 mil mensais. No mês passado, houve um novo salto, com 58 mil freelancers registrados.

Além da crise econômica, Schwebel avalia que existe uma mudança de perfil, inclusive geracional, com relação à forma de trabalho desejada.

"Pessoas querem flexibilidade para buscar equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional", comenta. "A geração Z, saindo da faculdade agora, não quer mais ter o mesmo tipo de carreira que os avós deles tiveram, de passar décadas na mesma empresa."

Mulher vista de cima trabalhando em uma mesa de trabalho com laptop, abajur e computador
Adobre Stock/ phpetrunina14

Ele acredita que mudanças aceleradas pela pandemia, como o home office e o trabalho a distância, estão diretamente ligadas ao crescimento dos autônomos.

A flexibilidade, que vai dos horários de trabalho até o tipo de projeto aceito, exige, porém, planejamento. Segundo Michele Alves, sócia-fundadora da Ubunttu Gestão e Finanças, o profissional autônomo exerce, sozinho, todas as funções fundamentais da administração de um negócio.

"O freelancer troca de chapéu durante o dia: tem o do administrador, o do atendimento, o do executor", diz.

Um dos principais erros de quem trabalha por conta própria é não incluir o tempo necessário para todas as etapas do serviço na organização de agenda.

A ilustradora Mariana Louro, que passou a trabalhar como freelancer em agosto de 2020 após pedir demissão do emprego fixo, só atentou para a parte administrativa da carreira após fazer um curso de gestão financeira no espaço Platô.

Ela precisou adaptar a rotina para abarcar o processo completo.

"Parece que caiu a ficha que isso é um negócio sério. O problema de ser só você é que você faz tudo: orçamento, trabalho, projeto. É preciso criar uma rotina de olhar para as planilhas também", conta.

Além da organização do tempo, o planejamento financeiro também é essencial para um trabalho saudável.

Um ponto que Alves considera essencial é separar as contas da empresa das contas pessoais.

Para isso, ela aconselha, além da administração de contas bancárias diferentes, a separação das despesas da pessoa física daquelas da pessoa jurídica. Nas despesas da empresa, deve entrar o equivalente ao salário do autônomo.

"O autônomo acha que tudo que ele ganha como pessoa jurídica é dele como pessoa física", diz Alves. "Mas todo profissional precisa ter um salário mensal estipulado dentro do que a empresa gera —ou ele acaba pagando para trabalhar."

Os gastos da empresa, como contas de luz, água, internet, telefone e custos com equipamentos, devem, inclusive, entrar na conta na hora de pensar o valor da hora de trabalho.

Manter a parte burocrática em dia, seja por meio do CNPJ de MEI ou de outra modalidade, é importante para evitar complicações futuras —e formalizar os serviços por escrito, seja por contratos ou por email, também.

"O autônomo precisa se enxergar como uma pequeníssima empresa", afirma Eduardo Amuri, autor do livro "Finanças para Autônomos" (Benvirá, 208 págs., R$ 40). Para isso, ele aconselha começar pondo na ponta do lápis todos os gastos pessoais e da empresa.

"É importante para saber, por exemplo, quais vão ser os impactos de negar um trabalho que aparece", diz.

Alves afirma que para quem está pensando em se tornar freelancer, mas tem um trabalho fixo, montar uma reserva de dinheiro que vá durar seis meses de gastos pessoais, no mínimo, é um bom começo.

"Às vezes a pessoa decide virar freelancer de um dia para o outro e não atenta para o fato de que ela não vai ter a receita do antigo trabalho entrando", diz Alves. "Enquanto está no trabalho fixo, é bom captar alguns 'freelas' e divulgar o portfólio. Não precisa esperar sair do emprego para, só então, começar como freelancer."

Trabalhos passados podem, inclusive, ser uma boa fonte de clientes para autônomos.

"Os trabalhos sempre vêm de ex-colegas de trabalho, ex-chefes", conta Mariana. "Sempre que eu estava disponível, deixava claro, mandava emails com o portfólio atualizado. E poucas vezes não tive retorno."

Segundo Alves, é importante, também, fazer um bom uso das redes sociais. Para autônomos da área criativa, ela aconselha o uso das plataformas Behance, Instagram e Linkedin, pois o profissional pode, além de procurar oportunidades, ser encontrado por quem busca um serviço.

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