Empresas tentam abrandar demissão com extensão de benefícios e orientação de recolocação

Pandemia amplificou tendência; companhias já oferecem serviços especializados em desligamento

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São Paulo

A demissão de um funcionário nunca é um momento feliz —nem para ele, nem para a empresa. A opção que existe é tornar a situação menos dolorosa.

É nisso que acreditam profissionais de recursos humanos que pregam o desligamento humanizado, uma versão da demissão que passa longe do emblemático berro de "você está demitido" popularizado por Donald Trump no programa de TV "O Aprendiz".

"É um processo que tem o objetivo de minimizar o impacto do desligamento", conta Lucy Nunes, fundadora da empresa Prepara.me, especializada no procedimento.

Dentre os serviços que fazem parte da compreensão de desligamento humanizado estão ajuda com a parte legal de finalização de contrato, orientações de carreira, aulas sobre uso de Linkedin e até bate-papo previdenciário, para funcionários mais velhos.

Ela afirma que, tanto para o gestor quanto para o colaborador, a demissão passa longe de ser apenas a conversa do desligamento em si. As lideranças devem se preparar para que seja um processo claro e transparente —e o funcionário deve receber acolhimento para redução de impacto durante o período seguinte ao desligamento.

É o processo de preparação para tornar as demissões menos tensas que está na mira das empresas como a Prepara.me e Medei, que oferecem serviços de orientação especializados.

O planejamento vai do acerto de contas e documentação até a escolha do local e momento para ter a conversa de desligamento. Segundo os profissionais da área, todas essas etapas são importantes para a criação de um ambiente acolhedor para os gestores e funcionários.

Imagem recortada de um homem branco com roupa formal segurando uma caixa com suas coisas, em fundo cinza.
Georgerudy/Adobe Stock

Para Carolina Cabral, gerente sênior de recrutamento da Robert Half, até o horário da demissão pode ter um impacto: se o funcionário for desligado após um dia de trabalho, a reação é diferente de ser desligado no início do dia, quando ele pode voltar para casa e processar o ocorrido.

Durante a pandemia, com o aumento de demissões em decorrência do agravamento da crise econômica, tornou-se necessário pensar, também, nas demissões online.

Para Fernanda Medei, fundadora da Medei, o processo a distância pode até ter vantagens. "Na demissão digital, a pessoa demitida pode tomar o tempo dela, desligar a câmera", diz. "Pode tirar aquele dia para ficar sozinha e ter o momento dela de pôr as ideias no lugar, sem precisar arrumar mesa ou se despedir dos colegas."

Parte do pacote de atendimento da Medei envolve, além de cuidar da assinatura dos documentos de rescisão, a retirada de equipamentos de trabalho e orientação sobre seguro-desemprego e acesso ao FGTS. Com a pandemia, 90% das demissões feitas por eles estão funcionando de forma remota.

O cenário atual torna os desligamentos mais delicados por conta de benefícios como plano de saúde. Em casos em que a demissão se dá por corte de gastos, algumas empresas oferecem a continuidade do plano para evitar que, na pandemia, os funcionários percam o benefício de forma abrupta.

É o caso da jornalista Pâmera Ferreira, 37, que trabalhava na comunicação interna de uma empresa de infraestrutura no Rio de Janeiro. A empregadora, fortemente afetada pela pandemia, já dava sinais de que haveria corte de gastos.

"Minha líder nunca escondeu que a demissão poderia ser uma possibilidade. Ela nunca deixou de nos alertar para ficarmos atentos ao mercado", conta Pâmera. Quando o momento chegou, a empresa ofereceu quatro meses de plano de saúde e um serviço de orientação de carreira.

Para Lucy Nunes, da Prepara.me, o oferecimento de serviços de recolocação, geralmente reservado a cargos mais elevados, é essencial para todos os níveis. "O Brasil não é um país de executivos, mas de cargos de entrada e médios."

Ela acredita que reservar o recurso para profissionais de alto cargo pode até reforçar desigualdades sociais. "É ótimo oferecer esse serviço para o executivo que ganha R$ 30 mil, mas também é importante oferecer para o profissional do telemarketing que ganha R$ 1.300", diz.

Além de mitigar as chances de um processo trabalhista, o cuidado com o processo pode auxiliar na reputação da companhia.

Para Mario Sampaio, gerente de recursos humanos da Certisign, empresa de certificados digitais, a atenuação da saída de um colaborador deve ser entendida como papel social das empresas. "Acompanhamos os desligados e mantemos um vínculo com eles", conta. Esse processo serve, inclusive, para prospectar possíveis contratações.

Segundo estimativas internas da empresa de recrutamento Gupy, cerca de 15% dos funcionários desligados de uma empresa retornam. Para isso, o processo rescisório deve ser claro e direto.

Bruna Guimarães, cofundadora da Gupy, acredita que ter clareza de todas as etapas do desligamento e de quem e quando o fará são os primeiros passos para um processo bem-sucedido. "Desligamento não é momento de fazer feedback", afirma. "Nem de terceirizar, afirmando que a ordem veio de cima. O gestor deve assumir a responsabilidade."

Outro aspecto que ela considera importante é a entrevista com o ex-funcionário depois do desligamento. "Isso ajuda a empresa a entender pontos críticos e melhorar o processo", afirma.

A demissão pode, também, acontecer por iniciativa do funcionário. Nesse caso, as regras de clareza valem da mesma forma. É importante ser transparente e direto com o gestor sobre as motivações por trás da decisão e deixar a "casa arrumada": preparar manuais que facilitem a adaptação da próxima pessoa a ocupar o cargo, por exemplo, pode ser bem visto pelos líderes. Manter relações amigáveis com os colegas, em happy hours ou redes sociais, também vale.

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