Governo britânico recomenda padrão de beleza para construção de novas casas

Estética ainda ocupa segundo plano em moradias de São Paulo, criticam urbanistas

São Paulo

O Ministério da Habitação da Inglaterra tornou público no mês passado um relatório no qual defende que a beleza é fundamental para a qualidade de vida nas cidades

O documento, intitulado Living with beauty (vivendo com beleza, em tradução livre) contém mais de 130 recomendações para tornar as ruas inglesas mais bonitas. Entre elas estão o plantio de milhões de  árvores, inclusive frutíferas; a democratização de tecnologias como realidade virtual e impressão 3D, para que os moradores tenham melhores condições de planejar suas construções; e a priorização de casas sustentáveis.

O secretário de Habitação inglês, Robert Jenrick, que assina o estudo, afirma que casas bem projetadas e de alta qualidade, localizadas em ruas arborizadas, deveriam ser a norma, não a exceção. A identidade das pessoas, ele emenda, se forma a partir dos lugares onde vivem e trabalham. 

O órgão já havia publicado em outubro do ano passado um guia nacional de design com recomendações para os governos locais sobre o que exigir de urbanistas em projetos públicos e "inspirar a próxima geração de comunidades bonitas". O documento, de 70 páginas, inclui sugestões como a construção de espaços públicos de qualidade, áreas verdes que promovam convívio social de diversas formas, cuidado com a geração de resíduos e a valorização da história e cultura locais.

Hampstead is one of the well-known areas of London, not just amongst residents of the City, but also from expats looking to move to a family-oriented, elegant area.
Rua arborizada de Hampstead, bairro de alto padrão de Londres e uma das referências da secretaria de Habitação britânica para projeto de casas bonitas - Reprodução/gov.uk/government

Em um país que registra IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de 0,907, o 14º melhor do mundo, parece natural eleger a beleza das cidades como prioridade. 

Nas cidades brasileiras, onde dados da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE apontam que mais de um terço das residências não tem acesso a coleta de lixo, água encanada ou rede de esgoto, há espaço para este debate?

Na opinião do arquiteto e urbanista Nabil Bonduki, professor de Planejamento Urbano da Universidade de São Paulo e relator do Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo, de 2014, a qualidade e a beleza das moradias deve ser uma questão central para qualquer cidade.

“No Brasil, que sofre com tantos problemas sérios, concordo que não seja a questão mais relevante. Mas ela jamais deveria ser descartada”, afirma.

Mesmo em metrópoles ricas como São Paulo, projetos urbanísticos geralmente colocam a estética em segundo plano em função do orçamento, segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, Fernando Chucre.

Projetos de maior qualidade custam mais caro. Em uma cidade onde diversos orçamentos e grandes demandas sociais concorrem entre si, não se pode pegar mais dinheiro para uma obra, deixando que falte para outra.”

Nessa política do cobertor curto, afirma Chucre, a opinião pública também tende a rejeitar investimentos de valor puramente estético.

Como exemplo, ele cita a obra de revitalização do Vale do Anhangabaú. Orçada em R$ 80 milhões, a reforma inclui a construção de chafarizes iluminados por leds coloridos. A ideia desagradou comerciantes do entorno e a obra chegou a ser embargada a pedido da Associação Preserva SP, mas foi retomada.

“O Anhangabaú vai virar ponto turístico. Obras sofisticadas assim geram incremento para todo o entorno e aumentam a renda dos comerciantes”, defende o secretário.

Quando se trata de uma obra em comunidade carente, Chucre admite que os critérios devem ser outros. Entre construir uma praça e implantar saneamento, ganha a segunda opção sempre.

Mas ele acredita que é possível reurbanizar bairros pobres e melhorar todo o ambiente, sem deixar de lado as prioridades. Como exemplo, cita o Programa de Recuperação Socioambiental da Serra do Mar, em Cubatão, realizado pelo governo do estado de São Paulo para desocupar áreas de risco e recuperar a vegetação.

Iniciado em 2007 e prestes a ser concluído, o projeto orçado em US$ 460 milhões (pouco menos de R$ 2 bilhões) está sendo executado com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do governo federal.

Os moradores removidos das áreas de risco foram instalados em residências com pé-direito alto (2,6 metros), construídas com materiais reconhecidos pelo Programa Qualihab da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU), aquecimento solar e azulejos até o teto das cozinhas e banheiros –um padrão raro em se tratando de habitações populares.

Fachadas e muros da comunidade receberam cores vibrantes e painéis decorativos. “O resultado foi impressionante, a comunidade assumiu os espaços públicos de forma inédita. Esse projeto deveria servir de modelo para outras intervenções”, diz Chucre.

Outra experiência bem-sucedida, desta vez na cidade de São Paulo, foi a reforma capitaneada pelo designer Marcelo Rosenbaum no Parque Santo Antônio, na zona sul da cidade.

Depois de visitar a comunidade e se assustar com a aparência de abandono, Rosenbaum criou o programa A Gente Transforma (AGT) e, como primeira ação, em 2010, deu literalmente um banho de tinta nas casas e prédios públicos do bairro.

A Suvinil doou as tintas, enquanto um antigo lixão foi transformado em praça a partir de plantas e materiais de construção que seriam descartados ao final do evento de decoração Casa Cor São Paulo.

Na opinião de Nabil Bonduki, projetos dessa natureza têm um potencial transformador maior do que se imagina. “Ambientes bem cuidados fazem com que os moradores se apropriem do lugar onde vivem e passem a tomar conta dele.”

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