Piora da pandemia também aumenta conflitos em prédios

Barulho, obras e recusa em usar máscara são as reclamações mais comuns

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São Paulo

O recrudescimento da pandemia fez com que os condomínios voltassem a ficar cheios em tempo integral. A convivência forçada de pessoas que só têm em comum o fato de morarem no mesmo prédio, aliada ao cansaço por um ano de pandemia, aumentou o número de conflitos entre vizinhos.

Segundo síndicos consultados, a quantidade de reclamações disparou desde o ano passado, e a situação está ainda pior nas últimas semanas, com a volta da fase vermelha e a implementação da fase emergencial em São Paulo.

Segundo Márcio Rachkorsky, advogado especializado em condomínios e colunista da Folha, antes da pandemia as principais reclamações eram sobre temas com “c”: cachorro, criança, carro, cano e calote. Agora, é o barulho que mais causa discórdia.

Catarina Pignato

Conversas, música e televisão alta: tudo pode irritar o morador vizinho. “Já existe um clima de medo, e isso é potencializado pelas pessoas tentando sobreviver. Uns querem trabalhar e precisam fazer reuniões, enquanto o filho do outro não para quieto”, diz Felipe Bonavite, sócio da empresa de sindicância profissional Bonavite & Carvalho.

Ele afirma que problemas de convivência eram pontuais e ocorriam principalmente aos finais de semana, mas que agora são contínuos. “Os apartamentos são compactos, você escuta qualquer coisa.”
Barulhos que demonstram felicidade, como risadas, cantorias e mesmo o som de pessoas namorando geram indignação em quem os ouve.

As festas nos imóveis, que antes incomodavam apenas pelo excesso de barulho, agora representam desprezo à grave situação da Covid-19 no país.

“Ganhou uma roupagem de falta de consideração e de humanidade. Antes era um incômodo, enchia a paciência, mas hoje se torna uma afronta”, afirma Luciene Bandeira, psicóloga e sócia da plataforma Psicologia Viva.

A própria Bandeira passou por isso no condomínio de casas em que vive, no Rio de Janeiro. No final do ano, moradias de veraneio no local ficaram cheias de famílias celebrando a data, com festas, para desespero dos outros moradores, que tentavam se isolar.

“Teve vizinho que quase surtou por isso, porque ele está guardado o ano todo, se protegendo, e, de repente, vem um bando de gente de fora e faz festa até de madrugada”, diz.

As obras nos apartamentos são outro tormento. Muitos aproveitaram o tempo em casa para fazer reformas e melhorar seus lares para a infelicidade de vizinhos que precisam conviver com os ruídos.
Para amenizar o problema, os síndicos estão reduzindo o horário em que é permitido fazer reformas ou consertos, mas afirmam que os moradores estão muito sensíveis a esse tipo de incômodo.

Josué Vitorino, síndico profissional de seis condomínios em São Paulo, conta ter recebido ligações de uma moradora transtornada porque um vizinho estava usando a furadeira fora do horário de reformas. “Infelizmente, existem os consertos de emergência, que vai ter que fazer barulho por 15, 20 minutos, mas as pessoas não têm tolerância, estão muito estressadas”, diz.

Além de problemas com barulho, o desrespeito às normas para evitar a Covid-19 dentro dos condomínios, como a recusa em usar máscara nos espaços comuns, também aumentou em 2021.
“Temos muita dificuldade em fazer com que as pessoas entendam que as restrições lá de fora podem ser aplicadas também nos condomínios”, diz Rachkorsky.

Nas áreas comuns, como halls, jardins, quadras, academias, piscinas e elevadores, é preciso seguir as regras estipuladas pelo condomínio.

“As pessoas estão exaustas e há questões de desobediência, de não querer usar máscara e achar que todo o condomínio é a casa delas”, afirma Angélica Arbex, gerente de relações com o cliente e de marketing da Lello Condomínios.

Na fase emergencial, vários prédios decidiram fechar os espaços de uso comum, o que também gerou reclamações.

Funcionários dos condomínios, como porteiros, faxineiros e zeladores, sofrem com o descumprimento das regras. Paulo Ferrari, presidente do Sindifícios (Sindicato dos Trabalhadores em Edifícios e Condomínios de São Paulo), defende que eles estão na linha de frente da pandemia, já que lidam diretamente com moradores, e são essenciais para que os outros possam ficar em casa.

Ferrari afirma que os funcionários chamam a atenção de quem não quer usar máscara e desrespeita outras regras, mas que seus poderes são limitados —correm o risco de serem demitidos por desacato ao confrontar um morador.

A convivência nos condomínios é um fator de risco para quem trabalha nesses locais. A saber: os síndicos Vitorino e Bonavite estavam com Covid, em isolamento domiciliar, quando participaram da reportagem, por telefone.

Desavenças com vizinhos, seja qual for o motivo, precisam ser encaradas com cuidado. Os condôminos devem evitar o confronto direto e seguir as regras disponíveis no regulamento do prédio.

“Já ocorreram casos na pandemia de pessoas que foram bater na porta do vizinho e acabaram agredidas”, lembra a psicóloga Luciene Bandeira.

Segundo Arbex, o primeiro passo é reunir provas do problema. Se for um barulho recorrente, por exemplo, fazer gravações e chamar um funcionário para presenciar o problema ajuda a dar embasamento à reclamação. Também é indicado fazer uma anotação no livro de ocorrência do prédio. A partir daí, síndico e administradora vão avaliar se é o caso de conversar com o outro morador, dar uma advertência ou multa.

Bandeira recomenda que, antes de reclamar, o morador tente se acalmar. “Há coisas realmente absurdas, aí você chama o síndico, o porteiro, mas evite confronto direto. Quando estamos com raiva, não medimos o risco.”

Em situações mais graves, como casos de violência ou de moradores que insistem em dar festas na pandemia, a solução é chamar a polícia.

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