Descrição de chapéu The New York Times

À sombra dos esportivos da marca, Mercedes do pós-guerra é visado pela geração X

Manchada por envolvimento com nazistas, marca voltou ao jogo com modelo que teve Ella Fitzgerald e Gary Cooper como compradores

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Brett Berk

Depois da Segunda Guerra Mundial, a Mercedes-Benz queria restabelecer sua posição na hierarquia automotiva e criar um carro que, nas palavras do presidente do conselho da empresa à época, Wilhelm Haspel, “volte a dourar o nome da Mercedes-Benz”.

O lugar da marca no mercado da Alemanha havia sido devastado por uma longa pausa no desenvolvimento de veículos, enquanto a companhia produzia materiais de guerra para os nazistas, e após um bombardeio aéreo em uma de suas fábricas.

No mercado europeu, a marca estava prejudicada por seu envolvimento com os nazistas na época da guerra, que incluiu uso generalizado de trabalhadores forçados provenientes de campos de concentração. E a empresa mal tinha presença na América do Norte.

Mas ela perseverou, até o final da década de 1940, da mesma forma como fizeram muitas outras montadoras: oferecendo versões ligeiramente atualizadas de seus modelos do pré-guerra –no caso da Mercedes-Benz, o 170, um cupê sem qualquer coisa de notável, equipado com um modesto motor de quatro cilindros.

“Era um modelo muito básico, o 170”, disse Michael Kunz, diretor do Mercedes-Benz Classic Center, em Irvine, Califórnia, uma subsidiária da companhia dedicada à história, preservação e restauração de seus produtos clássicos, alguns dos quais remontam a 1886. “Historicamente, não somos conhecidos como uma fabricante de carros básicos, e por isso era importante mostrar uma ressurreição como uma das principais fabricantes de bens de luxo e de veículos com alta qualidade de produção."

O resultado foi o sedã e conversível Mercedes-Benz 300, revelado no Salão do Automóvel de Frankfurt de 1951, com uma grade cromada proeminente, um longo capô formal, para-choques bulbosos que se alinhavam às portas dianteiras e traseiras, uma cabine ampla revestida com materiais de qualidade e uma traseira aerodinâmica. Era o maior e o mais veloz carro em produção regular na Alemanha Ocidental; no jargão interno da empresa, ele era conhecido como um veículo da “classe representante”.

Carro antigo vermelho da Mercedes-Benz nas ruas de Moscou
Mercedes-Benz 300 em Moscou, na Rússia, em 2012 - art_zzz - stock.adobe.com

“Eram tipicamente carros possuídos e dirigidos por capitães da indústria e chefes de Estado”, disse Kunz. “Absolutamente o melhor do melhor."

Brian Rabold, vice-presidente de serviços de avaliação na Hagerty, seguradora de veículos clássicos, concorda. “Seria um modelo comparável ao Rolls-Royce Silver Cloud ou ao Bentley R-Type”, disse.

O modelo podia ser adquirido equipado com radiotelefones, ditafones, escrivaninhas embutidas, separação entre motorista e passageiros e acabamentos de luxo personalizados. “A fábrica fazia todos os esforços para acomodar qualquer desejo da parte compradora”, disse Kunz.

O carro que transportava o Papa era uma versão especialmente construída da variante Landaulet, com um topo retrátil sobre o compartimento traseiro –um espaço que continha apenas um assento, com jeito de trono.

Ella Fitzgerald, Gary Cooper e Errol Flynn estavam entre os compradores do Mercedes-Benz 300 durante os 11 anos de produção do modelo (pouco mais de 11 mil deles foram montados). Konrad Adenauer, o primeiro chefe de governo da Alemanha Ocidental, encomendou meia dúzia de versões especiais do Mercedes-Benz 300, em seus 14 anos no posto.

“Ele viajava pelo país nesses carros”, disse Kunz, “e é por isso que eles foram apelidados de Adenauer, uma nomenclatura que continua a ser usada.

O Mercedes-Benz 300 foi introduzido com um motor em linha de seis cilindros, 115 HP e 3.000 cilindradas, e o conjunto motopropulsor passou por três revisões durante a produção do modelo.

O 300b, de 1954, tinha potência maior, de 125 HP. O 300c, de 1955, oferecia a primeira transmissão automática da marca, um recurso obrigatório se a montadora desejava disputar o mercado dos Estados Unidos.

O 300d, de 1957, adotou uma carroceira mais moderna e retilínea, cerca de 23 centímetros mais longa; quase metade desse ganho de espaço aconteceu no compartimento traseiro de passageiros. As colunas das janelas laterais também foram removidas. Isso deu ao carro um ar espaçoso e uma aparência grandiosa, acentuada por um novo motor com sistema de injeção direta que produzia 160 HP de potência.

“Da perspectiva da potência, eles não são carros esporte”, disse Kunz sobre os Adenauer, que pesam mais de duas toneladas. Ele os caracteriza, em lugar disso, como veículos ideais para viagens rodoviárias. “Pode ser que a viagem demore um pouco, mas eles fazem 140 km/h sem dificuldade”, disse o executivo.

Isso acontecia em parte porque o motor e outros componentes do conjunto de motor e transmissão do veículo eram compartilhados com outro dos modelos estelares da Mercedes no pós-guerra. “Foi dele que veio boa parte da tecnologia usada na produção do Mercedes-Benz 300 SL”, disse Kunz, em referência ao avançado modelo de corrida e cupê, dotado de portas em estilo asas de gaivota, que a companhia lançou na metade da década de 1950.

O fato de que os Adenauer não eram carros esporte ajudou a manter seus preços acessíveis. “Eles violam um par dos princípios centrais dos colecionadores de carros”, disse Rabold. “Têm quatro portas, e não duas. E são mais modelos de turismo que esportivos. Acho que isso resulta de uma concentração na qualidade artesanal da produção mais do que no exibicionismo. São carros muito refinados, mas existe sutileza em seu refinamento."

Assim, de acordo com a Hagerty, enquanto um Mercedes-Benz 300 SL costuma ser vendido em média por US$ 900 mil, com os melhores exemplares atingindo a marca do US$ 1,2 milhão, um Adenauer médio é vendido por US$ 42 mil, e é possível comprar um exemplar em perfeitas condições por menos de US$ 100 mil.

Outra coisa que limita a importância do Mercedes-Benz 300 para os colecionadores é o custo de manutenção e reparo do veículo.

“No caso desses carros, há mais de tudo”, disse Kunz. “Muitos cromados, uma quantidade tremenda de couro, peças em madeira complicadas e muito bonitas no acabamento interno. Se você tem uma versão conversível, o topo costuma causar problemas. E a estrutura da carroceria é imensamente complicada, com tolerâncias milimétricas. Quando mostro o carro a alguém, sempre chamo a atenção da pessoa para a transição entre o para-choque frontal e as portas da frente, e menciono o tamanho das ranhuras. A separação é de apenas dois ou três milímetros. É complicado acertar essa distância com precisão”.

O valor de mercado atual desses carros não justifica a despesa de restaurações completas, que podem chegar à casa das centenas de milhares de dólares.

“Houve um sedã que fizemos que o cliente nos trouxe em péssimo estado”, disse Kunz. “Ele comentou que sabia que era loucura querer restaurar o carro, mas ele o tinha há muitos anos, e existia um elo emocional. Ele se via como guardião do carro, e sentia responsabilidade por restaurá-lo."

O valor de mercado do Adenauer pode estar mudando. “Nós constatamos que os preços desse modelo subiram cerca de 25% nos dois últimos anos”, disse Rabold.

A alta foi promovida em alguma medida pelo aumento do interesse por parte de uma audiência atípica. Para medir o interesse e atração de um modelo, a Hagerty acompanha os pedidos de cobertura de seguro de veículos específicos, com a ideia de que, se alguém busca cobertura para um modelo específico, isso acontece por a pessoa ter comprado um carro desse modelo, ou estar se preparando para fazê-lo.

“Em 2018, a Geração X respondia por apenas 12% dos pedidos de cotação de seguros para os Mercedes Adenauer”, disse Rabold. “Mas, em 2020, a proporção subiu a 32%. O que demonstra que o modelo está atraindo os mais jovens, e acho que isso contribui para a alta de preços."

Para quem está no mercado à procura de um Mercedes-Benz 300, o momento é propício para comprar, especialmente se você encontrar um carro que alguém tenha pago para restaurar

“Eles são uma excelente combinação de luxo e engenharia. Foram construídos para durar. São carros de alta qualidade”, disse Rabold. “Se você conseguir encontrar um desses carros restaurado, existe muito valor."

Tradução de Paulo Migliacci

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