Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Dinheiro saudita financia startups dos EUA e gera controvérsia

Fundo do reino investe em empresas como Uber, que são questionadas após morte de jornalista

Eliot Brown e Greg Bensinger
San Francisco

À medida que crescem as reações internacionais contra o suposto envolvimento da Arábia Saudita no homicídio do jornalista Jamal Khashoggi, confirmado na última sexta-feira (19), o Vale do Silício se vê forçado a encarar um fato perturbador: o reino da Arábia Saudita se tornou a maior fonte de capital para as startups dos Estados Unidos.

Desde a metade de 2016, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman destinou o equivalente a US$ 11 bilhões (R$ 40,5 bilhões) para startups americanas. 

A imagem à esquerda mostra o jornalista Jamal Khashoggi entrando no consulado saudita em Istambul. Do lado direito o agente saudita Maher Abdulaziz Mutreb usa as mesmas roupas do jornalista horas depois.
A imagem à esquerda mostra o jornalista Jamal Khashoggi entrando no consulado saudita em Istambul. Do lado direito o agente saudita Maher Abdulaziz Mutreb usa as mesmas roupas do jornalista horas depois. - Reprodução/CNN

As operações ocorreram por meio do Vision Fund —fundo de investimento focado em tecnologia com US$ 92 bilhões (R$ 339,4 bilhões), administrado pelo SoftBank Group.

Os sauditas têm US$ 45 bilhões (R$ 166 bilhões) nesse fundo,de acordo com estimativa do The Wall Street Journal baseada em dados da empresa de pesquisa PitchBook. 

O valor investido pelo reino em startups, até o momento, supera o total arrecadado por qualquer fundo de capital para empreendimentos do tipo.

Algumas das mais importantes jovens empresas de tecnologia americanas receberam o capital saudita, entre as quais Uber, WeWork, que opera escritórios compartilhados, e Magic Leap, fabricante de aparelhos de realidade aumentada. 

Para a Uber, a situação pode se provar especialmente complicada: um importante funcionário do governo saudita é parte de seu conselho.

Por enquanto, as empresas optam por manter o silêncio sobre o caso. Das 22 startups em que o Vision Fund ou os sauditas investiram, apenas uma respondeu ao jornal. 

A Uber encaminhou ao The Wall Street Journal uma recente declaração de Dara Khosrowshahi, seu presidente-executivo, que disse que planejava desistir de uma conferência de negócios promovido pelos sauditas, e que as reportagens sobre a morte do jornalista Jamal Khashoggi o haviam abalado.

Na comunidade das empresas iniciantes, “existem incidentes que você tem de observar e decidir em que lado da história deseja estar e, se as acusações procedem, estamos vivendo um desses momentos”, diz Venky Ganesan, sócio na Menlo Ventures, que investiu na Uber.

 “É algo que vai além das startups e de dinheiro —trata-se fundamentalmente daquilo em que você acredita sobre os direitos humanos.”

As empresas de tecnologia se veem em uma posição conflituosa, dadas as missões idealistas que muitos dos líderes do Vale do Silício adotam. Os trabalhadores do setor se rebelam rotineiramente contra contratos cujos princípios eles não aprovam. 

A WeWork, por exemplo, não permite o consumo de carne bovina em seus escritórios devido à preocupação com o impacto ambiental.

“O Vale do Silício vem sendo incrivelmente hipócrita em aceitar investimentos de um país antissemita, que pune os gays como criminosos e discrimina mulheres formalmente”, afirma Keith Rabois, executivo de capital para empreendimentos da Khosla Ventures, uma das companhias mais importantes do segmento, em email.

A posição de Rabois também serve para ilustrar a onipresença do dinheiro saudita.Diversas startups nas quais a Khosla têm investimentos captaram dinheiro do Vision Fund.

A escala do dinheiro envolvido não tem precedentes —e para alguns fundadores de startups, isso é irresistível. 

O Vision Fund —que tem participação saudita, mas cujas decisões cabem principalmente ao SoftBank —possui  pelo menos 20 investimentos em startups americanas, segundo a PitchBook, em valor agregado de mais de US$ 17 bilhões (R$ 62,7 bilhões). 

O Public Investment Fund saudita investiu mais US$ 4,9 bilhões (R$ 18 bilhões) nas empresas Uber, Magic Leap e Lucid Motors, fabricante de carros elétricos.

Depois que o fundador e então presidente-executivo da Uber, Travis Kalanick, viajou à Arábia Saudita para uma reunião com o príncipe herdeiro, dois anos atrás, ele obteve um investimento de US$ 3,5 bilhões (R$ 12,9 bilhões) do PIF (sigla em inglês para fundo de investimento público, o fundo soberano saudita) poucas semanas mais tarde, disseram pessoas informadas sobre o assunto. Uma das condições da transação era que o PIF recebesse uma posição no conselho da empresa.

Alguns líderes do Vale do Silício criticaram a Uber, afirmando que ao aceitar o investimento do PIF a empresa estava endossando tacitamente as políticas sauditas, entre as quais a proibição de que mulheres dirijam veículos.

Em resposta, executivos da Uber negaram qualquer apoio às políticas do reino, afirmando que EUA e Arábia Saudita eram aliados e que o serviço de transporte de passageiros era uma ferramenta importante para as mulheres. 

Arianna Huffington, que é integrante do conselho da companhia, disse, então, que acreditava que o governo saudita deveria permitir que mulheres dirijam veículos —e as autoridades do reino mudaram as regras de lá para cá.

A Uber insistiu em seus contatos com os sauditas. Quando Khosrowshahi sucedeu Kalanick como presidente-executivo, no ano passado, ele adotou como uma de suas primeiras prioridades finalizar um investimento do Vision Fund que veio a atingir o valor de US$ 7,7 bilhões (R$ 28,41 bilhões). 
A operação deu aos sauditas cerca de 10% da Uber, se incluída a fatia do PIF.

O SoftBank e o PIF da Arábia Saudita se recusaram a comentar a reportagem.

Nos dias posteriores à acusação turca de que os sauditas haviam matado e desmembrado Khashoggi no consulado saudita de Istambul, muitos executivos e investidores anunciaram que suspenderiam projetos com o governo saudita ou cancelariam seus planos de participar da conferência de negócios.

A Alphabet anunciou que Diane Greene, presidente da unidade de computação em nuvem do Google, não participaria da conferência. Robert Thomson, presidente-executivo da News Corp., controladora do The Wall Street Journal,  está revisando a situação, disse um porta-voz da empresa. 

Yasir Al Rumayyan, presidente do PIF, é um dos 12 integrantes do conselho da Uber, e de acordo com pessoas informadas sobre o assunto, a Uber tem obrigação contratual de manter um assento reservado para o PIF, como condição para o investimento. 

Alguns investidores da Uber optaram por ignorar a controvérsia que vem abalando o Vale do Silício. 
A empresa planeja abrir capital em 2019, e depois disso não precisará mais levantar capital privado, e a composição de seu conselho provavelmente mudará, disseram os investidores. 

A Uber recebeu propostas de capitalização de bancos de Wall Street nas quais seu valor de mercado foi estimado em até US$ 120 bilhões (R$ 442,7 bilhões) para uma oferta pública inicial que pode acontecer já no começo do ano que vem

The Wall Street Journal, traduzido do inglês por Paulo Migliacci 
 

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