Gigantes de tecnologia investem em aparelhos para lucrar com serviços

Google, Amazon e Microsoft lançam mais equipamentos do que nunca, mas só Apple lucra com eles

DAN GALLAGHER
San Francisco

As maiores empresas mundiais de tecnologia estão vendendo mais aparelhos do que em qualquer outro momento do passado, mas apenas a Apple ganha muito dinheiro com isso.

Essa dura realidade não deve mudar no curto prazo, a despeito dos diversos aparelhos que serão lançados neste trimestre por Amazon, Google e Microsoft. 

Eles incluem smartphones, alto-falantes inteligentes, tablets, laptops, fones de ouvido e até mesmo um forno de micro-ondas que opera por meio de comando de voz.

O Facebook está entrando no jogo com o Portal, um aparelho para chat em vídeo que presume que ainda restam algumas pessoas capazes de confiar na empresa a ponto de instalar em casa uma câmera fornecida por ela.

O sucesso de todos esses novos dispositivos dependerá do segmento em que estejam posicionados. Amazon e Google lideram o mercado de alto-falantes inteligentes no momento. A Microsoft construiu um nicho respeitável nos tablets.

Enquanto isso, a despeito de ser dono do mais popular dos sistemas operacionais para smartphones, o Google mal conseguiu deixar a sua marca no mercado desse tipo de aparelho. 

Para todas essas empresas cujo nome não é Apple, o hardware continua a ser uma atividade paralela, diante de negócios centrais muito maiores e mais lucrativos. Mesmo que suas mais recentes ofertas conquistem sucesso inesperado, isso não vai mudar.

Considere que se o Google vender 14 milhões de unidades de seu novo smartphone Pixel 3 nos próximos 12 meses —mais que o dobro da estimativa da consultoria de pesquisa IDC para as vendas nos dois anos precedentes —, isso ainda responderia, no mesmo período, por menos de 10% da receita de publicidade projetada para a Alphabet, controladora do Google.

A receita da Microsoft com o tablet Surface no ano fiscal encerrado em junho respondeu por apenas 4% da receita total da empresa. Embora os detalhes sobre as vendas de hardware da Amazon sejam escassos, eles precisariam vender espantosos 100 milhões de unidades de seu alto-falante inteligente Echo, a US$ 99 (R$ 365,28) por peça, para chegar aos 4% da receita projetada para a gigante do comércio eletrônico este ano.

Por que elas ainda tentam? As motivações variam de empresa a empresa, e provavelmente incluem um tanto de orgulho e outro tanto de medo de exclusão.

Uma coisa que as maiores companhias mundiais de tecnologia têm em comum, porém, é que todas chegaram até onde estão ao desenvolver serviços que trouxeram mudanças profundas nas vidas de seus usuários.

O crescimento depende de expandir esse engajamento. Vender aparelhos se provou uma boa maneira de fazê-lo. Brent Thill, do banco Jefferies, chama os aparelhos da Amazon, Google e Microsoft de “rampas de acesso a assinaturas”.

Os alto-falantes inteligentes servem como exemplo. A Amazon praticamente criou o segmento ao lançar o primeiro Echo, quatro anos atrás. 

Muitos dos aparelhos que a Amazon e, agora, o Google vendem nesse segmento têm preços a partir dos US$ 50 (R$ 184,49), e ocasionalmente ainda menos. Eles propelem o uso dos serviços básicos dessas companhias. 

Uma pesquisa do serviço ComTech, parte da Kantar Worldpanel, constatou que 56% dos usuários do Echo são assinantes do serviço de streaming de música da Amazon.

O grupo de pesquisa de mercado Canalys antecipa que o mercado mundial de alto-falantes inteligentes mais que dobre, para 100 milhões de aparelhos, em 2018.

Os tablets Surface da Microsoft conquistaram um nicho lucrativo no segmento de tablets para uso empresarial. A companhia recentemente lançou o tablet Surface Pro 6 e o Surface Laptop 2, que devem expandir esse nicho.

No entanto, o segmento de laptops e tablets de alta qualidade e design refinado é território da Apple, o que torna esse mercado muito mais difícil. 

Embora o faturamento com o Surface tenha crescido em 16%, para US$ 4,7 bilhões (R$ 17,34 bilhões) no ano fiscal encerrado em junho, isso equivale a apenas 10% das vendas estimadas de iPads e Macs no mesmo período.

 

A Microsoft lançou de surpresa este ano um par de fones de ouvido de US$ 350 (R$ 1.291), que também terá de competir com a marca Beats da Apple, hoje a líder de vendas no segmento de fones de ouvido sem fio dos EUA de acordo com a NPD.

Nenhum mercado se provou mais difícil para um novo concorrente que o de smartphones. Amazon e Microsoft na prática abriram mão desse terreno. 

Enquanto isso, os smartphones Pixel, do Google, vistos por alguns como os melhores celulares Android, mal conquistaram 0,1% do mercado mundial de smartphones, desde seu lançamento em 2016, de acordo com a IDC.

Os investidores talvez imaginem se o esforço vale a pena. Mas conquistar participação no mercado de aparelhos não é o objetivo do exercício. 

Os gigantes da tecnologia precisam do máximo possível de pontos de contato para promover o engajamento dos usuários. 

Google e Amazon, especialmente, estão correndo para desenvolver as plataformas controladas por voz do futuro. Ambas precisam semear o mercado com todos os aparelhos dotados de microfones que puderem.

Desse ponto de vista, mesmo alguns poucos milhões de celulares ajudam mais do que atrapalham.

Traduzido do inglês por Paulo Miggliacci

The Wall Street Journal
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