Descrição de chapéu The Wall Street Journal

YouTube é acusado de lucrar com publicidade para menor

Mais de 80% dos pais dos EUA permitem que filhos assistam ao site, diz pesquisa

Douglas MacMillan
San Francisco

Organizações de proteção às crianças vêm expressando preocupação com o fato de o YouTube, site de vídeos controlado pelo Google, estar lucrando com publicidade dirigida a menores, enquanto uma pesquisa do Pew Research Center aponta que mais de 80% dos pais americanos com filhos de menos de 11 anos lhes dão permissão para assistir a vídeos no site.

Mais de um terço desses pais permite que seus filhos assistam a vídeos regularmente, de acordo com os resultados divulgados neste mês.

A pesquisa mostra que a maioria dos pais cujos filhos assistem ao YouTube afirma que suas crianças já presenciaram conteúdos perturbadores na página.

As constatações podem reforçar o apoio a organizações de defesa dos consumidores e do direito das crianças à privacidade que apresentaram queixa à Comissão Federal do Comércio (agência de proteção ao consumidor dos EUA), em abril.

Eles acusaram o Google de recolher deliberadamente dados pessoais sobre usuários menores de idade do YouTube, com o propósito de direcionar anúncios publicitários a eles. 

A Lei de Proteção à Privacidade da Criança Online, de 1998, torna ilegal que empresas recolham informações sobre crianças menores de 13 anos sem consentimento explícito de seus pais nos Estados Unidos.

Em resposta à queixa, o Google declarou que não permite que menores de 13 anos criem contas no serviço de vídeo e, quando descobre que crianças violaram essa regra, as excluem do site.

A empresa também oferece o YouTube Kids, um aplicativo de vídeo criado especialmente para crianças, que não recolhe dados sobre menores.

“Proteger as crianças e as famílias sempre foi grande prioridade para nós”, afirmou um porta-voz do YouTube em comunicado. 

“Como o YouTube não é para crianças, investimos significativamente na criação do app YouTube Kids, a fim de oferecer uma alternativa especificamente projetada para crianças.”

As perguntas na pesquisa do Pew Center se concentravam em pais que deliberadamente autorizavam seus filhos a assistir ao YouTube. A pesquisa não incluía referência específica ao YouTube Kids. 

Os resultados se baseiam em uma amostra nacional representativa de mais de 4.500 adultos americanos, de acordo com o instituto.

Mesmo que os menores estejam usando o aplicativo com o conhecimento de seus pais, o YouTube está violando a lei ao recolher dados como a localização geográfica, afirma Josh Golin, diretor-executivo da Campaign for a Commercial Free Childhood, organização que combate a veiculação de comerciais para crianças e é uma das queixosas que recorreram à FTC.

Em carta ao Google, em setembro, os deputados federais americanos David Cicilline (democrata de Rhode Island) e Jeff Fortenberry (republicano do Nebraska) pressionaram a empresa para que ela revele o número de crianças que usam YouTube.

O Google respondeu à pergunta no mês passado, afirmando não ter informações de idade que indiquem que pessoas de menos de 13 anos assistam aos vídeos do site.

“Eles estão agindo como se todo o mundo que usa o YouTube tivesse mais de 13 anos, e por isso [a lei de proteção à privacidade infantil] não se aplica”, afirma Ciciline em entrevista. “Mas a ideia de que crianças não usem o site é simplesmente negar a realidade”, acrescenta.

Um porta-voz da FTC confirmou que a agência recebeu a queixa do YouTube, mas se recusou a dizer se estava estudando a questão.

O conteúdo do YouTube popular entre as crianças inclui desenhos animados e vídeos que mostram crianças desempacotando, montando e testando brinquedos que recebem. Vídeos dirigidos a crianças tipicamente são oferecidos na seção de família e filhos do site. 

No entanto, um universo de conteúdo mais maduro fica a apenas um clique de distância. Entre os pais que permitem que os pequenos assistam ao YouTube, 61% dizem que suas crianças encontraram vídeos inapropriado para menores, segundo o Pew Center.

Para os adultos, o YouTube vem sendo usado cada vez mais para outros fins que não apenas o entretenimento. A pesquisa constatou que cerca de 13% dos adultos dos Estados Unidos recorrem ao site para compreender as notícias e os acontecimentos atuais.

A prevalência de conteúdo noticioso, no YouTube atual, gerou pressão sobre a empresa para que filtre informações falsas e conteúdo hostil. 

Mais de dois terços das pessoas que acessam o site disseram ter encontrado vídeos que “parecem obviamente falsos ou dúbios” e 60% deles dizem ter visto vídeos de pessoas cujo comportamento era “perigoso ou perturbador”.

Em sua análise sobre os usuários do YouTube como um todo, os pesquisadores constataram que 81% disseram que assistem a vídeos recomendados pelo site ao menos ocasionalmente, depois de concluírem um primeiro vídeo —uma tendência que indica o poder do algoritmo do YouTube.

Os pesquisadores também identificaram uma tendência surpreendente, nos vídeos recomendados pelo algoritmo. Segundo o Pew Center, cada vídeo que o YouTube recomenda tende a ter duração um pouquinho maior que a do último vídeo assistido pelo usuário.

A duração média do primeiro vídeo assistido no YouTube é de nove minutos e 31 segundos; já o segundo vídeo assistido pelo usuário tem duração média de 12 minutos e 18 segundos, e a duração aumenta em vídeos posteriores.

The Wall Street Journal, traduzido por Paulo Migliacci

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