Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Apple muda estratégia e aposta em cidades fora do Vale do Silício

Expansão para Culver City, Seattle e San Diego sustenta o avanço em serviços e o aumento nos preços de hardware

Tripp Mickle
San Francisco | The Wall Street Journal

 A intenção da Apple de criar milhares de empregos em Austin (Texas), San Diego, Seattle e Culver City (Califórnia) estabelece um plano de rota para sua transformação, que envolve deixar para trás sua identidade como fabricante do iPhone e avançar para um futuro no qual ela dependerá dos serviços e de aparelhos de preços mais altos.

Cada uma das cidades nas quais a Apple anunciou planos de expansão na quinta-feira (13) reflete uma faceta diferente do modelo que a empresa está desenvolvendo. 

Culver City oferece à Apple uma base de operações em Hollywood, para sua expansão rumo à produção de conteúdo em vídeo. 

Seattle será o polo para aprendizado de máquina, onde ela poderá desenvolver algoritmos que personalizem os playlists de música para streaming e melhorem a assistente digital Siri. 

San Diego e Austin oferecem engenheiros de semicondutores que podem levar adiante os esforços de desenvolvimento de chips especializados que ajudarão a Apple a extrair mais dinheiro de seus iPhones, iPads e Macs.

A mistura entre software e serviços, combinados a preços mais altos para os produtos, é crucial nos esforços da Apple para compensar o declínio nas vendas do iPhone. 

Ainda que a empresa tenha anunciado receita anual recorde, em 1º de novembro, devido ao aumento dos preços do iPhone, também informou que deixaria de informar o número de unidades de celular vendidas --um indicador que recentemente vinha mostrando estagnação. 

Muitos analistas interpretaram essa decisão como sinal de que os anos de crescimento do iPhone ficaram no passado. O preço das ações da Apple caiu quase 25%, de lá para cá.

Embora o avanço para além de sua base no Vale do Silício possa beneficiar os esforços da companhia, também será um teste para uma empresa altamente centralizada que prosperou devido a uma força de trabalho concentrada nas proximidades de sua sede, em Cupertino, Califórnia.

"A ideia do 'projetado em Cupertino' era uma peça central da Apple, e agora eles vão ter inteligência artificial e serviços projetados fora de Cupertino", diz Gene Munster, sócio do grupo de pesquisa e investimento Loup Ventures. 

"É uma mudança que torna a cultura da companhia mais complexa", acrescenta.

Campus da Apple em Austin, no Texas; empresa expande para além da Califórnia
Campus da Apple em Austin, no Texas; empresa expande para além da Califórnia - Suzanne Cordeiro/AFP

O cofundador Steve Jobs queria o máximo possível do pessoal da empresa perto da sede, como forma de acelerar o processo decisório e fomentar uma cultura mais forte. 

Ele inspirou o novo campus da Apple, com área de 260 mil metros quadrados e um edifício circular, acreditando que instalar as equipes difusas da Apple sob um mesmo teto melhoraria a troca de ideias. 
A força de trabalho da empresa disparou, para cerca de 132 mil empregados, ante menos de 16 mil antes do lançamento do iPhone.

Como empresa cujo foco é a venda de aparelhos, a Apple criou nos últimos dez anos milhões de empregos industriais de baixa capacitação na China, nos fornecedores que montam seus dispositivos. 

Embora seja improvável que esses empregos de linha de montagem retornem aos Estados Unidos, cada vez mais a empresa vem enfatizando a criação de outros tipos de empregos em seu país de origem.


Na quinta-feira, ela anunciou que criaria mil postos de trabalho em Culver City e número semelhante em Seattle e em San Diego. A companhia investirá US$ 1 bilhão (cerca de R$ 3,9 bilhões) em um novo campus em Austin, para 5.000 empregados.

O presidente Donald Trump, que pressionou a Apple a trazer de volta os empregos industriais que ela sustenta na Ásia, na sexta-feira (14) tuitou um agradecimento a Tim Cook, o presidente-executivo da empresa, "por concordar em expandir operações nos Estados Unidos e assim criar milhares de empregos!"

Além da boa vontade política que isso pode gerar, a expansão da força de trabalho da empresa fora do Vale do Silício ajudará a Apple a se diversificar para além do iPhone.

Culver City deve servir de base às operações em Hollywood, às quais a Apple destinou um investimento de US$ 1 bilhão em 2017, para desenvolvimento de programação e contratação de talentos. 

As contratações em Seattle prometem reforçar a presença da Apple em inteligência artificial. A Amazon e a Microsoft, com ajuda da Universidade de Washington e do Instituto Allen para a Inteligência Artificial, ajudaram a atrair importantes cientistas do campo para a região. 

A Apple conseguiu entrada na comunidade de aprendizado por máquina em Seattle ao adquirir a Turi, startup criada por um professor da Universidade de Washington, em 2016, e manteve as operações da empresa lá. 

Os esforços ajudaram a habilitar a tecnologia de reconhecimento facial do iPhone, um recurso que ajudou a justificar o aumento de preço de mais de 50% que acompanhou o iPhone X, vendido nos EUA a US$ 999 (R$ 3.900).

The Wall Street Journal, traduzido do inglês por Paulo Migliacci

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