Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Batalha entre Trump e China perturba empreitada nuclear de Gates

Mudança de política dos EUA prejudica esforços da TerraPower para tornar os reatores nucleares menores, mais baratos e mais seguros

Jay Greene
The Wall Street Journal

Pode incluir Bill Gates na lista de executivos cujas empresas se viram enredadas na batalha entre o governo Trump e a China nos campos da tecnologia e comércio.

O magnata da tecnologia e filantropo afirmou em texto recente que um projeto de energia nuclear que seria realizado na China pela TerraPower, empresa que fundou, não deve ir adiante por conta de mudanças nas políticas dos Estados Unidos para com Pequim.

Bill Gates, fundador da Microsoft, em evento de importação na China, em novembro; a TerraPower contava com o projeto piloto na China para validar a tecnologia em que trabalha há uma década
Bill Gates, fundador da Microsoft, em evento de importação na China, em novembro; a TerraPower contava com o projeto piloto na China para validar a tecnologia em que trabalha há uma década - Matthew Knight/Reuters

Isso deixa a TerraPower sem parceiro e incerta quanto à sua capacidade de realizar um projeto piloto para o reator que vem desenvolvendo, de acordo com representantes da empresa.

Gates, fundador e presidente do conselho da TerraPower, ajudou a criar e capitalizar a empresa, sediada em Bellevue, no estado de Washington, em 2008, como parte de um esforço de longo prazo para reduzir o tamanho e o custo, e aumentar a segurança, dos reatores nucleares, ante a geração atual de equipamentos de energia nuclear.

A empresa vem desenvolvendo um reator dito "de onda viajante", que usa urânio empobrecido como combustível, o que segundo a TerraPower pode melhorar a segurança e reduzir custos.

Restrições regulatórias e verbas federais limitadas tornam a construção desse tipo de instalação nos Estados Unidos difícil, e por isso a TerraPower decidiu buscar parceiros no exterior, disse Chris Levesque, presidente-executivo da empresa, em entrevista.

A TerraPower assinou um acordo com a estatal China Nuclear, em 2015, para desenvolver a tecnologia, e em 2017 as duas parcerias decidiram construir um reator de demonstração para testar a tecnologia em Cangzhou, cidade cerca de 210 quilômetros ao sul de Pequim. O projeto seria a primeira demonstração da tecnologia da TerraPower.

Em outubro, o Departamento de Energia anunciou de novas regras que, embora não proíbam todos os acordos nucleares com a China, requerem maiores garantias de que a tecnologia não venha a ser usada para fins militares ou outros propósitos não autorizados.

O secretário da Energia, Rick Perry, citou preocupações de segurança nacional, no momento do anúncio, quanto à possibilidade de que a China obtivesse energia nuclear "fora dos processos estabelecidos para a cooperação nuclear entre a China e os Estados Unidos".

A mudança de política foi parte de um esforço da parte do governo Trump para bloquear a obtenção pela China de tecnologias críticas americanas, e veio em meio a uma batalha comercial mais ampla entre os dois gigantes econômicos.

O governo Trump impôs tarifas sobre US$ 250 bilhões em produtos importados da China, de chips para computadores a frutos do mar e bicicletas, e ameaçou elevar a alíquota dessas tarifas em 1º de março, se não surgir um acordo comercial com Pequim.

A TerraPower, que tem 180 empregados, estava contando com o projeto piloto na China para validar a tecnologia em que vem trabalhando há uma década. Agora, a empresa está tentando determinar suas opções, disse Levesque.

"Estamos nos reagrupando", ele acrescentou. "Talvez consigamos encontrar um novo parceiro."

O Departamento de Energia está encorajando a companhia a olhar para além da China.

O órgão "vê oportunidades para exportações mundiais dessa tecnologia a nações que desejem desenvolver seus programas nucleares para propósitos pacíficos no setor civil", disse Shaylyn Hynes, porta-voz do departamento.

Mas encontrar um novo parceiro não será fácil. O custo de desenvolver um reator de demonstração chega a US$ 1 bilhão, disse Levesque.

O preço limita os potenciais parceiros a países ricos que já banquem programas de energia nuclear. E esses países também precisam ter acordos nucleares com o governo dos Estados Unidos que permitam a espécie de parceria que a TerraPower tem com a China.

Bill Gates diz que está investindo em usinas nucleares de quarta geração por meio da TerraPower, e afirma que elas serão mais seguras e mais eficientes que os reatores nucleares existentes.

Emirados Árabes Unidos (EAU), Arábia Saudita e Turquia seriam opções de parceria no futuro, disse Randolph Bell, diretor do Centro Global de Energia do Conselho Atlântico, uma organização de pesquisa sem afiliações partidárias em Washington.

Mas a missão nacional da China quanto a desenvolver a energia nuclear, e o imenso tamanho de seu mercado, tornam, difícil substitui-la, ele acrescentou.

"A escala da China é muito maior que a de qualquer outro lugar", disse Bell.

Mas a nova política dos Estados Unidos –e a falta de consenso nacional quanto ao desenvolvimento interno de novas fontes de energia nuclear –limitam os caminhos que empresas americanas podem percorrer para o desenvolvimento de avanços na energia nuclear, o que gera o risco de que a China desenvolva esse tipo de tecnologia por sua conta, ele disse.

Gates, em um texto de final de ano postado em seu site pessoal no fim de 2018, afirma que a TerraPower poderia construir seu projeto de reator nuclear nos Estados Unidos, mas apenas se houver mudanças na regulamentação.

O cofundador da Microsoft disse que pretende defender essas mudanças em 2019, porque vê a energia nuclear como "a única fonte de energia que não envolve carbono, é capaz de expansão, e está disponível 24 horas por dia".

"O mundo precisa trabalhar em muitas soluções para deter a mudança do clima", ele escreveu. "Energia nuclear avançada é uma delas, e espero persuadir os líderes dos Estados Unidos a entrar no jogo".

Tradução de Paulo Migliacci 

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