Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Derrocada da Samsung em celulares na China serve de alerta para a Apple

Em cinco anos, Samsung passou de líder de vendas para participação de inferior a 1% na China

Timothy W. Martin
Seul | The Wall Street Journal

O tropeço da Apple na China é uma história familiar para a rival Samsung. Cinco anos atrás, a gigante sul-coreana estava no topo do mercado da China, vendendo cerca de 20% dos celulares comprados no país. 
Hoje, a empresa quase desapareceu do ranking, e detém menos de 1% do maior mercado mundial de smartphones

A Samsung demitiu pessoal na China e, no mês passado, fechou uma das duas fábricas de que mantinha no país. Ainda que pouca gente espere que as vendas da Apple na China caiam de forma tão dramática, uma das causas da derrocada da Samsung deveria servir de alerta a fabricantes estrangeiros.

Pessoa em frente ao logo da Apple em loja da companhia em Xangai, na China. Empresa cortou previsão de receita devido à baixa no consumo no país asiático
Pessoa em frente ao logo da Apple em loja da companhia em Xangai, na China. Empresa cortou previsão de receita devido à baixa no consumo no país asiático - Aly Song/Reuters

A Samsung, que continua a ser a maior fabricante mundial de celulares, foi derrotada por rivais chineses mais ágeis que vendem aparelhos bons por preços mais baixos. 

O declínio foi exacerbado pelo recall mundial dos aparelhos Galaxy Note 7, em 2016, por conta de superaquecimento de baterias. 

A instalação de um sistema de defesa antimísseis adquirido dos Estados Unidos, pela Coreia do Sul, agravou as tensões entre o país e a China, resultando em uma reação adversa dos consumidores chineses a marcas sul-coreanas.

As vendas da Apple na China ultrapassaram as da Samsung em 2015, de acordo com a Counterpoint Research. Depois disso, a posição da empresa decaiu ainda mais mais, enquanto rivais chineses como a Huawei abocanhavam sua fatia de mercado.

As vendas recentes da Apple na China ficaram bem aquém das expectativas, o que resultou em um corte anunciado de surpresa, na semana passada, em suas projeções de receita. A companhia, entretanto, está em muito melhor forma que a rival sul-coreana. 

Continua a desfrutar de prestígio entre muitos consumidores chineses de alta renda, sua fatia de mercado parece firme, e o iPhone é fabricado no país, o que gera empregos no país.

A incapacidade de reanimar suas vendas na China agravou um ano que já vinha sendo difícil para a Samsung. Os embarques gerais de celulares da empresa registraram queda de dois dígitos –acima da queda geral do setor –, e o lucro operacional dos aparelhos móveis caiu em um terço no trimestre mais recente.

“A Samsung perdeu o rumo na China”, disse Sanjeev Rana, analista sênior da corretora CLSA, em Seul. 

As dificuldades da Apple são diferentes das que a Samsung enfrentou. O iPhone usa o sistema operacional iOS, desenvolvido pela Apple, e comprar um aparelho equipado com um sistema rival é mais complicado para um consumidor do que no caso da Samsung, que usa o Google Android.

Mas o ecossistema da Apple exerce menos controle sobre os consumidores chineses, que dedicam boa parte de seu tempo ao WeChat, um app de chat, pagamentos e mídia social criado pela Tencent.

A Apple também pode confiar bastante na força de sua marca, embora o iPhone já não seja o símbolo de status que um dia foi, na China, mesmo entre os consumidores menos afluentes, diz Mark Natkin, diretor da Marbridge Consulting, em Pequim.

Wang Yu 33, estava fazendo compras em um shopping no centro de Xangai. Ele trabalha com comércio exterior, e estava tentando decidir se compraria um aparelho novo da Huawei ou da Samsung. 

“Muita gente ama o país e quer usar um celular de marca chinesa”, disse Wang, cujo smartphone é um Huawei.

Mas o principal argumento para ele é a duração da bateria. Um celular Samsung que ele teve anos atrás apresentou problemas de bateria depois de um ano. “Estou usando meu Huawei há mais de dois anos, e ele nunca travou”, disse Wang, que continuará com a marca chinesa.

As empresas sul-coreanas tiveram de enfrentar represálias econômicas quando Seul desafiou Pequim ao mudar o sistema de defesa da Coreia do Sul. A Apple, até o momento, não parece ter sido afetada pelas reações dos consumidores chineses à disputa comercial entre seu país e os Estados Unidos. 

“Se o patriotismo ferver, quem sabe o que pode acontecer?”, diz Tom Kang, analista da Counterpoint Research.

A Samsung ajustou sua estratégia para os a celulares em seu período de dificuldades na China, e em reação ao amplo declínio de vendas causado pela relutância dos consumidores em pagar preços superiores a US$ 1 mil (R$ 3,71 mil) por aparelhos recém-lançados, mesmo que estes oferecessem novos recursos.

Nos últimos meses, a Samsung, como parte de sua mudança de rumo, começou a oferecer seus recursos mais avançados em aparelhos de preço médio, direcionados a mercados como o da Índia. 

Em novembro, a Samsung lançou o Galaxy A9, que custa cerca de US$ 530 (R$ 2,1 mil) e é o primeiro smartphone a ter quatro câmeras traseiras.

A companhia também investe US$ 700 milhões (R$ 2,5 bilhões) para construir a maior fábrica mundial de smartphones, na Índia, onde a companhia sul-coreana continua a ter boa posição no mercado.

Nas últimas semanas, a Apple começou a oferecer descontos na China a compradores que estejam trocando modelos mais antigos do iPhone.

No caso do iPhone XR, a empresa oferece mais de 30% de desconto se o comprador colocar no negócio um modelo anterior de iPhone. Isso poderia reduzir o preço do aparelho a apenas 4.399 yuan (R$ 2,3 mil). No caso do iPhone XS, o desconto é de quase um quarto do preço, reduzindo a 6.599 yuan (R$ 3,5 mil).

 

As vendas dos modelos mais caros da Apple vêm mostrando força na China, de acordo com alguns analistas, e os produtos de ponta representam a esperança da Samsung de reconquistar a China.

A Samsung está preparando uma grande atualização tecnológica no ano que vem, para celebrar o 10º aniversário do lançamento de seus principais smartphones.

A linha incluirá um celular 5G equipado com seis câmeras. A empresa está se preparando para iniciar a produção em massa de um celular de tela dobrável, cuja tela estendida terá 7,3 polegadas.

The Wall Street Journal, traduzido do inglês por Paulo Migliacci
 

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