Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Explosão de vídeo muda cenário de mídia na Índia

Indianos usam o YouTube como se fosse o Google, e as empresas aproveitam a tendência do mercado emergente

Eric Bellman
Indore  | The Wall Street Journal

A Índia está em meio a uma onda de popularidade sem precedentes para os vídeos em aparelhos móveis, e isso está mudando a maneira pela qual muitas empresas de tecnologia veem a evolução da internet.

O custo dos planos de dados 4G caiu para menos de US$ 2 ao mês, e o volume de vídeos vistos nos smartphones indianos decuplicou, o que significa bilhões de horas de vídeo a mais nos últimos três anos.

Isso fez da Índia o país com maior audiência para o YouTube em 2018, de acordo com a empresa de pesquisa App Annie.

Os usuários indianos de smartphones baixam em média 8,5 gigabytes de dados ou mais por mês —o que pode representar mais de 40 horas de vídeo —, diretamente das redes de telefonia móvel, sem uso de Wi-Fi, de acordo com pesquisas da Analysis Mason. É um total de downloads mais alto que os dos usuários dos Estados Unidos, China e Japão.

Indiano faz selfie em comício; vídeo está forçando investimento em servidores e torres para celulares, e lançando novos tipos de conteúdo  
Indiano faz selfie em comício; vídeo está forçando investimento em servidores e torres para celulares, e lançando novos tipos de conteúdo   - Vishal Bhatnagar/AFP

Ritik Taank, 18, estudante em Déli, diz que sente falta de jogar críquete com os amigos. Hoje em dia, afirma, todo mundo prefere ficar em casa compartilhando vídeos engraçados pelo celular. O jovem passa horas por dia assistindo a vídeos de música, cenas de humor, clipes de videogames e vlogs de moda.

Também recorre ao YouTube para estudar. É comum que atinja seu limite diário de um gigabyte de conteúdo. Nesse caso, passa a usar o celular de sua mãe.

“Ela me dá bronca, mas explico que de outra forma ela estaria desperdiçando seus dados”, diz.

A explosão do vídeo está mudando o panorama da mídia indiana, criando novas estrelas em Bollywood, forçando investimento adicional em servidores e torres para celulares, e lançando novos gêneros de conteúdo online. O conteúdo em vídeo também registrou disparadas de popularidade em outros mercados.

Na China, ele decolou em direção diferente. Plataformas para vídeos curtos, de apenas alguns segundos de duração, colocaram empresas como a Bytedance entre as startups mais valiosas do planeta.

Na Índia, isso está criando novas oportunidades para que o YouTube —parte do Google, controlado pela Alphabet —e outras plataformas aprendam novas lições sobre o uso de vídeo. Os internautas do sul da Ásia, muitos dos quais estão usando a internet pela primeira vez, estão explorando a rede via vídeo, não por meio de sites estáticos.

Eles preferem girar a tela, falar e ver, a digitar, buscar e ler —o que está levando as companhias a adaptar seus aplicativos. O amor dos indianos pelo vídeo é especialmente atraente para as empresas, já que nos Estados Unidos há esforços para reduzir o tempo que as pessoas passam diante das telas de seus aparelhos.

“Aprendemos que quando tornamos a experiência do usuário indiano melhor, terminamos por aperfeiçoar nossos produtos em todo o mundo”, disse Caesar Sengupta, vice-presidente de pagamentos do Google e responsável pela iniciativa Próximo Bilhão de Usuários da empresa, em um evento em Nova Déli no ano passado.

Para compreender melhor os internautas indianos e sua obsessão pelo vídeo, o YouTube, que tem cerca de 250 milhões de usuários ao mês no país, enviou equipes a residências em toda Índia para perguntar sobre os hábitos de navegação das pessoas.

Shelby Vignolo, gerente de programa na equipe de mercados emergentes do YouTube, visitou casas em Indore. Ela conversou com os usuários e lhes fez uma série de perguntas básicas. Pediu que classificassem os apps que usam, perguntou se empregam o sistema de buscas usando comandos de voz, e pediu para ver o histórico de sites que visitavam.

Vignolo leva as informações obtidas à sede da empresa para ajudar o YouTube a mudar o design de seus apps e de suas interfaces. Em uma viagem no ano passado, ficou aparente que, para muitos indianos, o app de vídeo é a primeira parada para conselhos médicos, dicas financeiras, pesquisas sobre viagens e mesmo aprendizado religioso.

Em outras palavras, para eles o YouTube é o Google. Os vídeos explicativos são um gênero cada vez mais popular.

Não é só o que os indianos assistem, mas como eles consomem conteúdo, que está conduzindo companhias a inovar. Os internautas da Índia gostam de baixar o máximo que podem, quando têm conexão.

Monitoram sua cota de gigabytes por dia, semana ou mês. Quando chegam à hora final, assistem a ainda mais vídeos, para garantir que estejam usando toda a cota pela qual pagam, dizem empresas de telecomunicações.

Para acomodar essa nova forma de assistir, o YouTube permite que os usuários realizem buscas por comando de voz em diversos idiomas indianos. Permite que baixem vídeos e os assistam mais tarde. 

Para acelerar o tempo de download quando a conexão é ruim, deixa que optem por qualidade de imagem inferior. A maioria dessas mudanças foi desenvolvida para a Índia mas também está sendo adotada em outros países.

O YouTube também está tentando promover maior variedade de conteúdo em diferentes idiomas e sobre diferentes assuntos, para garantir que os indianos encontrem o que estão procurando. Categorias específicas de vídeo para a Índia decolaram.

Desenhos para tatuagens com henna para noivas, receitas para refeições coletivas, gurus espirituais e aulas para ajudar na preparação para os exames de admissão nas faculdades de engenharia indianas são gêneros em ascensão.

O canal de maior sucesso no YouTube é o T-Series, de vídeos de música indiana; o canal é operado por uma das mais antigas empresas de mídia, e a estratégia de conteúdo não muda: música de Bollywood.

O T-Series já registrou mais de 60 bilhões de visitas - mais do que Justin Bieber, Katy Perry e Taylor Swift combinados.

O mercado de publicidade digital indiano ainda é pequeno, com apenas cerca de US$ 2 bilhões em receita por ano, ante mais de US$ 100 bilhões nos EUA, mas dentro de cinco anos pode movimentar US$ 6 bilhões ao ano, estima a consultoria KMPG. 

A publicidade é dominada pelo Google e Facebook, mas muitas empresas internacionais de mídia e tecnologia estão tentado aproveitar essa disparada no consumo de vídeos para ganhar dinheiro.

Entre elas estão a Netflix e a Amazon Prime, cujos apps estão entre os mais lucrativos na Índia. Outra empresa que disputa o mercado é a Hotstar, que oferece programas de muitos canais operados pela 21st Century Fox . 

Traduzido do inglês por Paulo Migliacci

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