Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Índia resiste à campanha americana contra a Huawei

Grande aposta para o mercado global de telecomunicações, asiáticos não reprimem avanço da empresa chinesa

Newley Purnell, Rajesh Roy e Dustin Volz
Nova Déli | The Wall Street Journal

Washington encontrou um obstáculo inesperado em sua campanha mundial para remover a chinesa Huawei do cenário: a Índia, maior democracia do planeta.

As autoridades e as empresas de telecomunicações indianas não se deixaram persuadir pelas advertências americanas de que usar equipamentos da Huawei para atualizar suas redes de telecomunicações representa uma ameaça à segurança cibernética

“A percepção é que a ação dos Estados Unidos é mais uma questão de política externa”, disse Rajan Mathews, diretor da Associação de Operadoras de Celulares da Índia.

O ceticismo faz da Índia um campo de batalha nos esforços americanos para impedir que a chinesa domine a nova geração de tecnologia de telefonia móvel, o 5G.

“Índia e Japão são mercados imensos que, se optarem pela Huawei, poderiam causar impacto sobre a infraestrutura mundial de telecomunicações”, disse Andy Keiser, ex-assessor do comitê de inteligência da Câmara do Deputados dos Estados Unidos.

O argumento que representantes dos EUA vêm defendendo na Índia, como em outros países, é o de que, dado o governo autoritário na China, a Huawei não teria escolha a não ser cumprir as exigências do Partido Comunista que governa o país, o que faria da empresa uma potencial ferramenta para espionagem.

Richard Yu, diretor-executivo de Negócios da Huawei, anuncia celular de tela dobrável da Huawei no MWC, em Barcelona
Richard Yu, diretor-executivo de Negócios da Huawei, anuncia celular de tela dobrável da Huawei no MWC, em Barcelona - Xinhua

O esforço de lobby americano sofreu um novo revés, quando representantes do governo alemão declararam que estão inclinados a permitir que a Huawei participe da construção da infraestrutura da internet de alta velocidade em seu país.

Uma recente investigação pela agência alemã de segurança cibernética demonstrou que a Huawei não poderia usar seus equipamentos para extrair dados de redes clandestinamente.

A Huawei nega constantemente que esteja por trás de qualquer forma de espionagem empresarial e desafiou os Estados Unidos a oferecer provas públicas de que seus equipamentos foram usados como armas ou instrumentos de vigilância. 

O governo americano “está empreendendo uma campanha geopolítica bem coordenada contra a Huawei”, disse Eric Xu, um dos três homens que se revezam na presidência do conselho da empresa.

Nas Filipinas, aliado dos EUA na Ásia, legisladores invocaram preocupações de segurança para inserir uma cláusula no orçamento anual que bloquearia um projeto de vigilância em vídeo com equipamentos da Huawei, que custaria US$ 400 milhões. 

A Índia não tomou medidas semelhantes para reprimir a companhia chinesa. O país tem 1,3 bilhão de habitantes, e centenas de milhões de consumidores ganharam acesso à internet graças a smartphones de baixo preço conectados a redes de telefonia móvel 2G, 3G ou 4G.

O primeiro estágio habilitava comunicações de voz em aparelhos móveis; o 3G permitiu que os apps para celulares florescessem; e o 4G trouxe conexões muito mais rápidas. 

Mas as redes 5G podem se provar mais revolucionárias, controlando carros autônomos, permitindo realidade virtual em tempo real e possibilitando conexões entre aparelhos como monitores cardíacos e a internet.

As companhias indianas de telecomunicações nos últimos anos reduziram os preços de seus planos de dados em até 90%, oferecendo conexões 4G por menos de US$ 2 mensais, em alguns planos.

As operadoras de telefonia móvel, apesar de terem receita média por usuário entre as mais baixas do planeta, devem investir um total estimado em US$ 100 bilhões, nos próximos cinco a sete anos, para desenvolver estrutura 5G.

Spencer Kuren, analista da New Street Research, empresa de pesquisa em Nova York, disse que os investimentos indianos em telecomunicações devem ficar mais próximos de US$ 30 bilhões nesse período.

Ainda assim, os desembolsos que estão por acontecer significam que as empresas de telecomunicações precisam economizar cada rupia que puderem, já que os leilões para frequências 5G devem acontecer neste ano. A expectativa é que as primeiras redes comecem a operar em 2020.

O esforço concentrado da Huawei para liderar o desenvolvimento das redes 5G era muito visível em um hotel de cinco estrelas na cidade costeira de Chennai, no sul da Índia, em março de 2018.

A chinesa enviou 40 representantes para uma reunião do comitê de padronização das redes 5G no país. A representação da Huawei era maior que a de qualquer rival exceto a Samsung. 

Ela deixou para trás a Qualcomm, que enviou 30 pessoas, e despachou duas vezes mais pessoal ao evento que as rivais Ericsson e Nokia.

A Índia continua a encarar a China com cautela, mas as empresas do ultracompetitivo setor indiano de telecomunicações precisam das ofertas atraentes da Huawei e acreditam que as preocupações de segurança dos americanos sejam exageradas.

Um importante funcionário do governo disse que a Índia deseja agir rápido para colher as recompensa do 5G e que o país escolherá fornecedores “em nossos termos, e não sob pressão” americana.

Os fornecedores de equipamentos precisam ser aprovados formalmente pelo governo para participar de testes das operadoras de telefonia. A Huawei está à espera de aprovação para participar desses testes na Índia.

A pessoa disse que representantes dos EUA vêm pressionando autoridades do país a se engajar com empresas americanas como a Qualcomm, grande concorrente da Huawei.

“A Índia, ao longo dos anos, se aproximou muito dos EUA, mas não diria que somos anti-China”, disse G.K. Pillai, ex-secretário do Interior indiano.

Na Índia, onde centenas de milhões de pessoas continuam a não contar com acesso à rede, pesos pesados americanos como Amazon e Walmart investem bilhões de dólares, apostando no futuro do país.

Traduzido do inglês por Paulo Migliacci

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