Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Usuário cura vício em celular com segundo celular

Consumidor recorre a aparelhos mais simples que só permitem ligações e mensagem de texto para passar fim de semana

Sarah Krouse
Nova York | The Wall Street Journal

Dan Dolar, 47, estava pronto a pôr fim às distrações que seu smartphone causava. Para isso, comprou outro celular.

Morador de Manteca, Califórnia, o profissional de tecnologia da informação agora costuma carregar com ele seu novo “celular companheiro” Palm com tela de 3,8 polegadas, nos fins de semana, deixando em casa o Samsung Galaxy Note 9 que usa no dia a dia.

O novo aparelho ajuda quando ele está “vivendo a vida de pai”, disse Dolar, e reduz as potenciais distrações. “Sem o smartphone grande, não me sinto compelido a buscar aquele barato de dopamina.”

Os consumidores que estão fatigados com os smartphones estão renegociando seus relacionamentos com o aparelho. Número cada vez maior deles vem adotando uma nova safra de celulares minimalistas, com preços entre US$ 300 (R$ 1.150) e US$ 350 (R$ 1.340), como forma de reduzir sua dependência dos smartphones de topo de linha que os mantêm constantemente conectados.

Ilustração de homem mergulhando na tela de um celular
Consumidores adotam celular mais simples para escapar de vício - Bernardo França/Folhapress

Alguns se preocupam porque o uso de mídia social reduz suas conexões pessoais e também os torna menos atentos. Outros estão irritados com os escândalos de privacidade de dados em grandes empresas de internet e mídia social —ou simplesmente preferem a praticidade de carregar um celular menor.

“Com certeza isso é um problema de Primeiro Mundo, mas ele é muito mais conveniente”, disse Dolar sobre o Palm. O celular de US$ 350 usa o mesmo número de seu smartphone primário e pode operar os mesmos apps, mas em uma tela menor.

Depois do lançamento do modelo, em outubro, 68 mil unidades do novo Palm foram embarcadas no quarto trimestre de 2018, de acordo com a empresa de pesquisa Canalys. Isso representa apenas uma pequena fração dos 45,8 milhões de smartphones embarcados no período nos Estados Unidos, de acordo com o grupo de pesquisa Gartner.

Cecilia D’Urso, 22, usa um celular de 12 centímetros de comprimento fabricado pela suíça Punkt e equipado com uma tela pequena e escura. O modelo só permite telefonemas e mensagens de texto. 

Estudante de arte em Turim, Itália, ela começou a usar o modelo depois de ficar estressada com os alertas de mídia social e as notificações de chat em seu smartphone Huawei.

“A cada segundo da minha vida eu estava disponível e online em todas as plataformas”, disse D’Urso. Ela agora usa seu smartphone anterior apenas quando precisa publicar trabalhos no Instagram.

Quando o primeiro modelo da Punkt surgiu, em 2015, a idade média dos usuários do aparelho era entre 40 e 45 anos, segundo Petter Neby, fundador da empresa. A ideia média dos usuários de seu modelo mais recente, que custa US$ 349 e foi lançado no fim de 2018, é de entre 22 e 35 anos. 

Celular Palm, que vê as vendas aumentar
Celular Palm, que vê as vendas aumentar - Reprodução

Neby disse que isso se deve em parte ao fato de que os usuários jovens criados na era da mídia social estão começando a se afastar das redes sociais. A Punkt diz ter vendido dezenas de milhares de aparelhos desde o lançamento de seu primeiro modelo, em 2015.

O celular não tem navegador ou capacidade de baixar apps, mas pode se transformar em ponto de acesso wi-fi.

Os grandes fabricantes de smartphones continuam a promover aparelhos móveis cada vez mais poderosos, com grandes telas e número cada vez maior de câmeras. 

Na principal feira anual do setor de telefonia móvel, que aconteceu no mês passado em Barcelona, Huawei e Samsung mostraram smartphones com telas dobráveis e preços superiores a US$ 1.000 (R$ 3.830).

Existem sinais de que o apetite pelos mais recentes e sofisticados smartphones está caindo, agora que os aparelhos estão se tornando mais genéricos e outros equipamentos conectados, como relógios e alto-falantes inteligentes, duplicam algumas das funções que eram exclusivas dos celulares. Os embarques de smartphones vêm caindo em todo o mundo desde o fim de 2017.

Diante da irritação do público com os efeitos da tecnologia sobre os relacionamentos sociais e os jovens, empresas como o Facebook e a Apple lançaram diversos recursos e aplicativos que limitam o tempo de uso de smartphones. Usuários do Instagram podem programar o aparelho para alertá-los quando passam mais que um determinado tempo usando o celular.

Em outra tática, usuários recuaram aos velhos celulares com tela articulada (flip), vendidos entre US$ 30 (R$ 115) e US$ 50 (R$ 190) e que só permitem ligações de voz e mensagens de texto.

O casal de cineastas Jörg Tittel e Alex Helfrecht, que vive em Londres, decidiu deixar os celulares em casa quando foi passar um fim de semana em um spa, em um esforço para se afastar da eletrônica.

Tittel disse que eles conversaram muito. Helfrecht leu um romance inteiro em francês arcaico, traduzindo o texto ela mesma, em lugar de buscar traduções online.

Tittel usa um celular Punkt para uso pessoal e um iPhone, ocasionalmente, para o trabalho. “Estou curtindo o fato de não ser escravo da tecnologia.”

Os fabricantes de novos aparelhos continuam a enfrentar algumas dificuldades para definir a linha que separa simplicidade e funcionalidade.

O primeiro modelo da Light, fabricante de celulares sediada em Brooklyn, Nova York, foi lançado em janeiro de 2017, com capital obtido de uma campanha no site Kickstarter.

Criado por dois ex-empregados do Google com o objetivo de ser usado o mínimo possível, o aparelho, do tamanho de um cartão de crédito, só faz ligações de voz.

A Light anunciou ter vendido 15 mil aparelhos e diz ter 18 mil encomendas que ainda não atendeu porque está dedicando esforços a criar seu próximo modelo. 

O novo aparelho, que deve sair depois da metade do ano, custará US$ 300 e incluirá um aplicativo de transporte pessoal, a capacidade de baixar e executar música e GPS para obter orientação simples sobre percursos.

Kaiwei Tang, cofundador e presidente-executivo da Light, compara ter múltiplos celulares a ter diversas escolhas de roupas e sapatos para diferentes ocasiões. Ele não abandonou seu iPhone, que comprou há mais de cinco anos e continua a usar para o trabalho.

“Vou ser honesto: não é fácil”, disse, sobre sair de casa sem o smartphone.

The Wall Street Journal, traduzido do inglês por Paulo Migliacci

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