Uber quer atingir valor de mercado de US$ 91,5 bilhões em sua abertura de capital

Empresa pode arrecadar até US$ 9 bilhões com venda inicial de suas ações, no maior IPO do ano

Nicole Bullock, Tim Bradshaw e Shannon Bond
Londres | Financial Times

A Uber quer atingir capitalização de mercado de até US$ 91,5 bilhões (R$ 360 bilhões) em sua abertura de capital, abaixo do valor que seus bancos esperavam mas ainda assim a colocando em posição para fazer a maior oferta pública inicial de ações no Vale do Silício desde a abertura de capital do Facebook.

O grupo de serviços de carros está oferecendo ações aos investidores em uma faixa de flutuação dos US$ 44 aos US$ 50, em um momento no qual um rebanho de empresas de tecnologia com alta valorização, que inclui Zoom, Slack e Pinterest, corre para chegar ao mercado.

Na ponta mais alta da avaliação revelada na sexta-feira, a Uber arrecadaria até US$ 9 bilhões com a oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês), e investidores existentes como o Softbank, Benchmark e os cofundadores Travis Kalanick e Garett Camp também poderiam vender até US$ 1,4 bilhão em ações.

A avaliação inicial, revelada em documentos atualizados encaminhados às autoridades financeiras, estima o valor da empresa em entre US$ 80,5 bilhões e US$ 91,5 bilhões, com base no total de ações e opções concedidos, e supera o da mais recente rodada de capitalização privada da companhia, mas fica abaixo da faixa de US$ 48 a US$ 55 por ação indicada a alguns investidores no mês passado, que teria resultado em capitalização de mercado total da ordem de US$ 100 bilhões.

A avaliação conservadora adotada pela Uber pode crescer depois de reuniões com investidores, no prazo que resta para o IPO, marcado para o mês que vem, mas acompanha a estreia pouco inspiradora da rival Lyft no mercado de ações. As ações da Lyft estão sendo negociadas mais de 20% abaixo de seu preço de oferta inicial.

Além da oferta pública, a Uber venderá também cerca de US$ 500 milhões em ações ao PayPal em uma transação privada, por preço igual ao do IPO, anunciou a empresa na documentação apresentada sexta-feira.

O PayPal cuida do processamento dos pagamentos da Uber nos Estados Unidos e em diversos outros países. Como parte do acordo de investimento, as companhias anunciaram um acordo comercial expandido e de alcance mundial, e a intenção de estudar futuras colaborações, que incluiriam o desenvolvimento de um serviço digital de pagamentos pela Uber, de acordo com a documentação.

O Bank of America se uniu ao Morgan Stanley e Goldman Sachs como organizadores do IPO.

O preço inicial anunciado na sexta-feira dá início a uma campanha de marketing envolvendo os executivos da companhia e de seus bancos. Mesmo com a redução anunciada, a Uber ainda estaria arrecadando o segundo maior montante para uma empresa de tecnologia sediada nos Estados Unidos, abaixo apenas do Facebook, que arrecadou US$ 16 bilhões com seu IPO em 2012, de acordo com a Dealogic.

O Vision Fund, do Softbank, que investiu US$ 7,7 bilhões na Uber em janeiro de 2018 e se tornou o maior acionista da empresa, colocou à venda ações que valeriam US$ 272,5 milhões, sob a cotação mais alta anunciada.

Isso deixaria em mãos da companhia japonesa de investimento em tecnologia uma fatia da Uber que pode valer até US$ 10,8 bilhões, com a abertura de capital.

Depois de vender ações em valor de US$ 1,4 bilhão em uma transação privada no ano passado, Kalanick, que comandou a Uber de 2010 até ser derrubado em 2017 por conta de uma série de controvérsias, pode vender até US$ 186,8 milhões de ações a mais no IPO. Depois disso, sua fatia restante da Uber continuaria a valer até US$ 5,7 bilhões, pelo valor mais alto proposto.

Dois dos maiores acionistas da Uber, o grupo Alphabet, que controla o Google, e o fundo de investimento público da Arábia Saudita, não venderão ações na abertura de capital.

Os documentos da Uber sobre a oferta revelaram que a empresa vem gastando muito dinheiro para manter sua fatia de mercado. A empresa queimou US$ 2,1 bilhões em reservas de caixa em 2018, depois de gastar US$ 4,5 bilhões em 2016.

O ritmo do crescimento na receita do setor de serviços de carros se desacelerou nos últimos meses, devido a pressões de concorrência que resultam em tarifas subsidiadas e recompensas maiores para os motoristas.

Os documentos apresentados na sexta-feira revelam que o crescimento na receita da Uber ante 2018 se desacelerou para entre 18% e 20% no primeiro trimestre de 2019, para entre US$ 3 bilhões e US$ 3,1 bilhões, em valores não auditados. Um ano atrás, o crescimento no período foi de 70%.

O prejuízo da empresa foi de pelo menos US$ 1 bilhão nos três primeiros meses de 2019. O número de usuários ativos da plataforma no mês - o termo que a Uber emprega para classificar os usuários de seus serviços de transporte ou do serviço de entregas de comida Uber Eats - subiu em 33% ante o total do período em 2018, para 93 milhões.

Questões sobre as margens de lucro dos serviços online de carros pesaram sobre as ações da Lyft. Lançadas ao preço de US$ 72 no final de março, as ações da Lyft fecharam cotadas a US$ 56,34 na quinta-feira, com queda de 2,6% no dia.

A Uber foi avaliada em US$ 48,77 por ação, ou US$ 76 bilhões, em uma rodada privada de capitalização em agosto, e obteve mais de US$ 24 bilhões em capital acionário e emitindo títulos de dívida para investidores privados, de sua fundação em 2009 para cá, de acordo com a Crunchbase.

Dara Khosrowshahi, o presidente-executivo da empresa, no posto desde 2017, e outros quatro executivos importantes detêm opções sobre quase quatro milhões de ações, como incentivo para resolver os problemas da Uber e conduzi-la rapidamente ao IPO.

Mas esses benefícios só compensarão caso o valor de mercado da Uber se mantenha acima de US$ 120 bilhões por pelo menos três meses. Os líderes da empresa têm prazo até 2023 para atingir essa meta de desempenho.

Tradução de Paulo Migliacci
 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.