Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Líder em celular nos anos 1990, Nokia agora busca desbancar Huawei em 5G

Finlandesa quer aproveitar campanha dos EUA contra rival para crescer e também avançar na China

Stu Woo
Pequim | The Wall Street Journal

Estados Unidos e China estão travando uma guerra pela supremacia tecnológica. A Nokia, pioneira dos celulares, quer trabalhar dos dois lados.

A empresa finlandesa, depois de quase desaparecer, se transformou em grande fabricante internacional de equipamentos de telecomunicação —torres de telefonia móvel, comutadores telefônicos, roteadores de internet e novos componentes para os sistemas 5G de redes sem fios de próxima geração— e agora ocupa o segundo lugar no ranking mundial dessa categoria, atrás da Huawei, da China.

Rajeev Suri, presidente-executivo da Nokia, que aposta também no mercado chinês
Rajeev Suri, presidente-executivo da Nokia, que aposta também no mercado chinês - Yves Herman - 25.fev.18/Reuters

Nos Estados Unidos, o governo praticamente proibiu as vendas de produtos Huawei, por medo de que os equipamentos da empresa possam ser usados pelas autoridades chinesas para espionagem ou para prejudicar as comunicações do país. O governo Trump pressiona aliados como Reino Unido, Alemanha e Japão a fazer o mesmo.

Isso é parte do argumento de vendas da Nokia, agora que o mundo se prepara para atualizar suas redes e adotar o padrão 5G, uma tecnologia de altíssima velocidade que pode permitir o uso de carros autônomos e de fábricas controladas pela internet. 

A equipe de vendas da empresa entrou em contato com diversas operadoras de telecomunicações em países nos quais os EUA aumentaram o volume de sua retórica antichinesa e está divulgando seus produtos como alternativa.

Sem sistemas 5G seguros, “segredos comerciais essenciais poderão ficar expostos nessas redes: inovações aeronáuticas, fórmulas farmacêuticas, projetos de carros elétricos”, disse Rajeev Suri, presidente-executivo da Nokia, em palestra em fevereiro.

Ao mesmo tempo em que ajuda os EUA a travar sua campanha contra a Huawei, a Nokia busca espaço na China. Operando principalmente por meio de joint venture com uma estatal chinesa, a Nokia emprega 17 mil pessoas na região da Grande China, que inclui Taiwan e Hong Kong. Isso é três vezes o seu total de empregados na Finlândia. 

“Queremos ser amigos da China”, disse Suri. Segundo ele, o objetivo é ser o principal fornecedor estrangeiro de equipamentos à China. No ano passado, os negócios da Nokia na região chinesa responderam por cerca de 10% de suas vendas.

Para ganhar dos dois lados, na briga entre EUA e China, a Nokia segue a estratégia usada pela Finlândia na Guerra Fria. A nação era aliada dos países europeus, mas sempre tentava acomodar a União Soviética.

A estratégia parece estar funcionando. Em julho, a Nokia assinou contrato em valor de até US$ 1,1 bilhão para fornecer equipamentos e serviços à China Mobile, a maior operadora mundial de telefonia móvel, por número de assinantes. Três semanas depois, conquistou contrato de US$ 3,5 bilhões para vender equipamentos 5G à T-Mobile nos EUA.

A Nokia ainda tem um grande atraso a recuperar em relação à Huawei, que começou a se expandir fora de seu país de origem duas décadas atrás. A chinesa encontrou espaço no mercado internacional ao conquistar clientes em países em desenvolvimento com seus produtos baratos e confiáveis.

A Huawei conquistou muito mais clientes em todo o Ocidente, desde então. As operadoras de telefonia dizem que a companhia costuma oferecer inovações de hardware antes da Nokia e que seus preços são competitivos. 

“Sabemos estar em desvantagem em um ou dois produtos”, disse Suri, “mas em termos gerais somos competitivos.”

A transição da Nokia da produção de celulares para a de equipamento de telecomunicações se encaixa bem ao seu histórico de reinvenção. A empresa foi criada em 1865 como produtora de celulose. Seu nome era uma referência ao rio finlandês Nokianvirta, onde ela tinha uma fábrica. 

Em um século, a companhia se diversificou para produtos de borracha e eletrônicos, fabricando botas, pneus, máscaras contra gás e computadores.

Na década de 1980, a Nokia foi pioneira na fabricação de celulares e equipamentos para telefonia móvel. Seus modelos populares —entre os quais o Nokia 3310, que era quase onipresente— mantiveram a fatia de mercado da empresa no ramo dos celulares acima dos 30% durante a década de 2000. Em 2008, a Nokia detinha quase 40% do mercado.

Os smartphones mudaram tudo, abrindo uma era dominada pelo iPhone, da Apple, e por aparelhos equipados com o sistema Google Android. A Nokia chegou tarde à festa, com aparelhos que os usuários tinham dificuldade de operar.

A empresa vendeu suas operações de telefones à Microsoft, em 2013, por US$ 7 bilhões. Àquela altura, sua fatia de mercado havia caído a 14%. Ela reteve a divisão de equipamentos de telecomunicação e a expandiu ao adquirir a rival francesa Alcatel-Lucent em 2015, por US$ 17 bilhões.

A aquisição fez da Nokia uma grande fornecedora de roteadores e outros sistemas de infraestrutura para empresas de acesso à internet e TV a cabo, o que a levou a ultrapassar a rival regional Ericsson e se tornar a segunda do setor, atrás apenas da Huawei.


Traduzido do inglês por Paulo Migliacci


Huawei lidera em equipamentos de telecomunicações

Participação de mercado, em %

Huawei
28,6%

Nokia
17%

Ericsson
13,4%

Dados de 2018; fonte: Dell'Oro Group

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