Troca de .com por novo sufixo na web tem ritmo lento no país

Dos 1.200 nomes já em uso, como .club, .vip ou .space, apenas 11 são no Brasil

Fernanda Ezabella
Los Angeles

A internet vem passando pela maior expansão de endereços da sua história nos últimos cinco anos, ao ser inundada por 1.200 nomes diferentes para substituir o final quase sempre onipresente .com. No Brasil, no entanto, a novidade surte efeito bem lentamente. 

Os sufixos são chamados de domínios genéricos de primeiro nível (ou gTLDs, na sigla em inglês) e incluem marcas como a polêmica .amazon, abreviações populares como .top e .guru e até piadinhas como .fail (fracasso em inglês) e .wtf (abreviação de um palavrão em inglês).

“É um novo experimento na internet, e estamos começando a ver boas ideias aqui e ali, como .rest e .bar”, disse Rodrigo de la Parra, vice-presidente regional da Icann, a autoridade internacional que designa endereços na web. 

O executivo concorda que a adoção tem sido devagar pelo mundo, mas vê aumento no interesse. A entidade estuda lançar um novo programa para mais sufixos daqui a um ou dois anos. Antes, só existiam 22 possíveis (como .org e .net) e outras duas centenas para países, como .br. 

“Mesmo quando tínhamos apenas 22, só alguns domínios tiveram muito sucesso e outros não atraíram muita atenção. Cada gTLD vai seguir seu destino.”

No Brasil, a recepção é ainda mais lenta. Dos 1.200 domínios lançados gradualmente no mundo desde 2014, após o período de inscrição encerrado em 2012, apenas 11 são do Brasil e a maioria é para uso de empresas, ou seja, não está disponível para internautas registrarem endereços. 

Boa parte das firmas que compraram seus nomes como domínio final (como .vivo ou .natura) começou a usá-los de forma muito tímida, enquanto os brasileiros demonstram resistência em registrar endereços com finais tão diferenciados como .club, .vip ou .space.

Segundo a Sedo, plataforma internacional de comércio de domínios, dois terços das compras dos brasileiros em 2018 foram de endereços .com, seguidos de outros com códigos de países. 

“As novas gTLDs foram uma pequena porcentagem, mas isso pode mudar”, afirmou a diretora de marketing e relações públicas da Sedo, Carolyn Rodon.

“As novas gTLDS são populares entre pequenos negócios e startups, já que não têm grandes orçamentos para comprar as versões mais caras de seus domínios desejados.”

Qualquer um podia entrar no processo de 2012 para criar seu próprio domínio genérico de primeiro nível, contanto que desembolsasse US$ 180 mil de inscrição (R$ 340 mil na cotação da época) e pagasse US$ 25 mil de taxa anual. 

Também era necessário ter infraestrutura técnica para cuidar dos servidores do novo domínio e passar pelas avaliações da Icann.

As empresas que investiram na novidade citam como motivação a variedade infinita de endereços para seus produtos e uma maior segurança para cuidar dos sites de suas marcas, evitando que clientes caiam em endereços fraudulentos. Numa pesquisa informal do site Domain Incite sobre as dez marcas internacionais mais ativas com seus novos sufixos, o Bradesco aparece ao lado de .bnpparibas, .lamborghini e .bmw.

O banco é exceção no mercado brasileiro e vem aplicando o domínio em dezenas de sites desde 2015. Hoje, o portal banco.bradesco recebe 60% das visitas em comparação ao seu tradicional com.br. 

“Antes havia uma dificuldade quando pensávamos em nomes de produto ou campanha para conseguir registrar esses nomes de domínio e facilitar para o cliente achar online. Já estava tudo se esgotando”, diz a superintendente-executiva de canais digitais do banco, Rúbia Alarcon Steiner.

“Agora podemos usar qualquer coisa .bradesco.”

A distribuidora Ipiranga passou a usar em 2018, enquanto o Itaú inaugurou o seu só em maio. Preocupada com a possibilidade de estranhamento dos clientes com o novo sufixo, a Ipiranga investiu em comunicação com funcionários, clientes, fornecedores e consumidores finais. 

Das 11 novas gTLDs brasileiras, duas seguem inativas e podem ficar disponíveis ainda neste ano para internautas do mundo todo: .bom e .final. Os sufixos foram comprados pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), uma entidade sem fins lucrativos responsável pelo registro de domínios .br, que completou 30 anos em 2019.

“Não fizemos nada com eles até hoje porque o mercado ainda não está muito aquecido”, disse o presidente-executivo da NIC.br, Demi Getschko. “O jogo dos domínios genéricos pode passar a ser importante, e nós precisamos de recursos para sustentar nossas iniciativas na internet brasileira. Então temos essas duas cartas na manga.”

Pelas regras da inscrição, ficavam proibidos nomes de países, mas eram permitidos nomes de regiões ou cidades se houvesse aprovação das autoridades locais. A Prefeitura do Rio de Janeiro foi a única a registrar um domínio geográfico na América Latina e vem usando .rio há alguns anos.

Os nomes de locais estavam reunidos numa lista, grafados na língua original. Assim, ficou de fora o sufixo .amazon, abocanhado pela gigante online após briga de sete anos com países sul-americanos que eram contra o uso comercial. 

Nas próximas semanas, a Icann vai abrir um período de 30 dias para comentários públicos em seu site, uma formalidade para qualquer nova gTLD antes de ser incorporada à raiz da internet.

Caso parecido aconteceu com a marca de roupas Patagonia, que retirou sua inscrição (e recebeu os US$ 180 mil de volta) ao receber reclamações da Argentina e do Chile. E também com a extensão .bar, cujos registrantes tiveram que pedir autorização (com sucesso) para o prefeito da cidade Bar, na costa de Montenegro.

Para nomes comerciais, o vice-presidente da Icann afirma que disputas entre duas ou mais organizações que não conseguem chegar a um acordo de compartilhamento costumam ser resolvidas em leilão. Foi o caso de .app, arrematado pelo Google por US$ 25 milhões.

Parra conta que a América Latina e Caribe ganharam apenas 24 gTLDs, incluindo as brasileiras, e acredita que isso vá mudar no futuro. “As empresas vão poder ver a experiência das outras, se foi sucesso ou não, o que fazer diferente.”

Ele afirma que .amazonas e .amazonia são possibilidades, mas apenas se todos os países envolvidos chegarem a um consenso.


A briga pelo .Amazon

Janeiro a maio 2012 
Icann recebe cerca de 1.930 inscrições para novos domínios genéricos de primeiro nível. Custo: US$ 180 mil, mais taxa anual de US$ 25 mil 

Google entra com pedido para 101 domínios, enquanto Amazon pediu 76, e Microsoft, 11. A empresa com mais nomes foi a Donut, com 307 inscrições

2013 
Icann rejeita inscrição da Amazon para .amazon após conselho do Comitê Consultivo Governamental (CCG). Amazon abre reclamação no Processo de Revisão Independente (PRV) e ganha alguns anos depois

Oito países da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), incluindo Brasil, contestam por acreditar que o nome “amazon” deveria estar na lista de nomes geográficos protegidos (a lista traz grafia original, portanto não inclui nome em inglês do rio Amazonas) 

2018 
Icann faz intermédio de negociações entre Amazon e OTCA. A gigante online chega a oferecer US$ 5 milhões em Kindles e serviços em troca do aval do grupo pela extensão. Em vão

2019 
Conselho da Icann aceita nova proposta da Amazon e decide levar processamento do domínio adiante. A empresa se compromete a dar nove nomes de domínios com final .amazon à OTCA e bloquear até 1.500 palavras que representam a região amazônica

Registros na internet

352 milhões
é o total de registros de nomes de domínio, sendo que:  

157 milhões têm domínios de país, como .br

155 milhões têm .com ou .net

23 milhões têm as novas 1.206 terminações


As mais populares são

.top 3,3 milhões

.xyz 2,3 milhões

.loan 1,5 milhão

.club 1,5 milhão

.site  1,3 milhão

408 

terminações novas  são usadas no Brasil, em 93 mil registros


.online é a mais popular com 18 mil registros de domínios. Outras curiosas são .ninja, .rocks e .pet, mas cada uma tem menos de 500 registros

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