Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Google impõe restrição a discussões políticas entre funcionários

Nova política representa uma reviravolta significativa para a companhia

The Wall Street Journal

O Google emitiu novas diretrizes que limitam a discussão entre funcionários sobre política e outros temas não relacionados ao trabalho, em uma grande mudança para uma empresa que há muito se orgulha de um debate aberto e de uma cultura interna livre.

A companhia Alphabet, matriz da Google, disse em um memorando público na sexta-feira (23) que os funcionários não devem gastar tempo debatendo questões não relacionadas ao trabalho, e evitar xingamentos, entre outros comportamentos desencorajados.

O Google também disse que indicará funcionários para moderar os famosos quadros de mensagens internos da empresa, em vez de permitir que voluntários o façam —reconhecendo que as discussões saíram de controle.

"Isso se segue a um ano de crescente incivilidade em nossas plataformas internas, e ouvimos dizer que os funcionários querem regras mais claras sobre o que se pode dizer ou não", disse uma porta-voz do Google.

Nova política representa uma reviravolta significativa para a companhia - Charles Platiau/Reuters

A nova política representa uma reviravolta significativa para a companhia. O titã da tecnologia ajudou a abrir caminho no Vale do Silício para a ideia do local de trabalho como um campus universitário, onde os funcionários podiam se expressar livremente sobre assuntos importantes para eles.

Os quadros de mensagens internos da empresa hospedam milhares de grupos de discussão, sobre tópicos que vão de questões sociais a esportes, e os funcionários podem passar horas por dia discutindo neles.

Nos últimos anos, entretanto, o nível de discussão às vezes ergueu uma barreira entre funcionários com opiniões opostas, bem como entre a direção e uma força de trabalho cada vez mais ativista.

Milhares de funcionários do Google saíram no ano passado para protestar contra pagamentos a executivos acusados de assédio sexual, e alguns se opuseram à busca de contratos do governo pela empresa.

O diretor jurídico, Kent Walker, ameaçou demitir trabalhadores que espionam dentro da empresa para obter informações sobre temas polêmicos, como o relacionamento entre a computação em nuvem do Google com o Departamento de Defesa dos EUA, informou The Wall Street Journal no início deste mês.

Em seu memorando de sexta, a empresa reiterou que as informações confidenciais discutidas internamente devem ser mantidas em sigilo.

Dois ex-funcionários do Google, com opiniões políticas opostas, disseram que as mudanças em geral serão chocantes. Um deles, um engenheiro de software, disse que muitos funcionários foram atraídos para a empresa em parte por suas políticas, incluindo compromissos de "não fazer mal" e "levar todo o seu eu para o trabalho".

"Esse era o preço do ingresso. Eles estão mudando o acordo", disse o ex-funcionário. "É um afastamento radical da antiga cultura, da noite para o dia."

As novas diretrizes não proíbem discutir política no trabalho, mas exigem que os gerentes interfiram em conversas que se tornem perturbadoras.

 

"Embora o compartilhamento de informações e ideias com os colegas ajude a construir a comunidade, interromper a jornada de trabalho para ter um intenso debate sobre política ou a última notícia, não", dizem as diretrizes. "Nossa principal responsabilidade é fazer o trabalho para o qual cada um de nós foi contratado, e não gastar horas em discussões sobre assuntos que não são do trabalho."

O Google anunciou que lançará uma ferramenta no final deste ano para que os funcionários sinalizem conteúdo em discussões internas que não estejam alinhados com as novas diretrizes. Esses relatórios seriam analisados em particular pelos membros da nova equipe de moderação.

As diretrizes atualizadas são a mais recente tentativa do Google de recuar no discurso liberal da empresa.

No ano passado, alertou os funcionários de que disciplinará qualquer um que discrimine ou ataque colegas ou se envolva em discussões que "perturbem um ambiente de trabalho produtivo". Nessas diretrizes, o Google também aconselhou os funcionários a evitar xingamentos, inclusive fazer declarações gerais sobre grupos ou categorias de pessoas.

O Google, com sede em Mountain View, na Califórnia, possui mais de 100 mil funcionários em escritórios em todo o mundo e foi criticado por uma série de controvérsias relacionadas a questões políticas e sociais.

Em 2017, demitiu um funcionário que escreveu um memorando interno sugerindo que os homens são mais adequados que as mulheres para empregos em tecnologia. No ano passado, ex-funcionárias processaram o Google por supostamente discriminar mulheres, enquanto ex-funcionários processaram a empresa por alegações de discriminar homens brancos conservadores.

O ex-engenheiro do Google Kevin Cernekee disse ao Journal no início deste mês que acredita que foi demitido em grande parte porque expressou opiniões conservadoras nos quadros de mensagens internos da empresa.

O Google disse a Cernekee, em uma carta de rescisão, que ele foi dispensado por várias violações das políticas da empresa, incluindo o download inadequado de informações da empresa e o mau uso do sistema de software de acesso remoto. Uma porta-voz disse que a empresa aplica suas políticas sem considerar pontos de vista políticos.

A turbulência chamou a atenção de figuras políticas —incluindo o presidente Trump—, que acusaram o Google de favorecer os conservadores. Trump, no ano passado, reclamou no Twitter que os resultados de pesquisa no Google para as palavras "notícias de Trump" exibiam principalmente o que ele chamou de "mídia de esquerda".

As últimas alterações do Google, embora aparentemente feitas com boas intenções, poderão inibir o diálogo entre os funcionários da empresa, disse David C. Logan, professor sênior de gerenciamento de locais de trabalho na Universidade do Sul da Califórnia.

"Culturas de correção política ironicamente podem se tornar lugares inseguros para trabalhar", disse ele.

"As pessoas precisam discutir o que está acontecendo no mundo. É nas comunidades que se faz isso, e a comunidade onde as pessoas passam a maior parte do tempo acordadas é o escritório."

Outras empresas tecnológicas também têm se esforçado para impedir que o discurso interno dos funcionários fique fora de controle. O Facebook desmontou em 2016 um popular painel de discussão anônimo para funcionários que se tornou um fórum para debates políticos conservadores que às vezes degeneravam em comentários racistas ou sexistas.

As mudanças ocorrem no momento em que o ativismo dos funcionários é cada vez mais um problema no setor de tecnologia.

A Microsoft e a Salesforce tiveram que lidar no ano passado com a inquietação dos funcionários por seus laços com o governo. Os funcionários da Microsoft exigiram que a empresa encerrasse seu trabalho para a Polícia de Imigração e Alfândega, enquanto os funcionários da Salesforce pediram ao presidente-executivo Marc Benioff que reavaliasse o trabalho da empresa com a Agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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