Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Snap detalhou táticas agressivas do Facebook no dossiê 'Projeto Voldemort'

Investigação antitruste oferece oportunidade para expressar queixas sobre táticas hostis do Facebook

Georgia Wells Deepa Seetharaman
San Francisco | The Wall Street Journal

Pela maior parte dos últimos dez anos, o Facebook foi o grande gorila do Vale do Silício, esmagando rivais, roubando suas melhores ideias ou os adquirindo diretamente, ao cimentar seu domínio sobre a mídia social.

Agora é hora da revanche.

Diversos atuais e antigos concorrentes do Facebook estão falando sobre as táticas agressivas da empresa aos investigadores da Comissão Federal do Comércio (FTC, na sigla em inglês), como parte de sua investigação antitruste mais ampla sobre as práticas de negócios do gigante da mídia social, de acordo com pessoas informadas sobre o assunto.

Um desses rivais é a Snap, cuja equipe judicial mantém há anos um dossiê sobre as maneiras pelas quais o Facebook tentou dificultar a ascensão do rival, de acordo com pessoas informadas sobre o assunto. O nome do dossiê: Projeto Voldemort.

Os arquivos do dossiê, cujo nome faz referência ao notório vilão dos livros infantis da série Harry Potter, narram as ações do Facebook que ameaçavam solapar os negócios da Snap, entre as quais desestimular pessoas vistas como influenciadores de mencionar a Snap em suas contas de Instagram, de acordo com pessoas familiarizadas com o projeto. Os executivos da concorrente também suspeitavam de que o Instagram estivesse impedindo que conteúdo da Snap aparecesse no app, disseram essas pessoas.

Nos últimos meses, a FTC fez contato com dezenas de executivos de tecnologia e desenvolvedores de apps, disseram pessoas informadas sobre esse esforço. Os investigadores da agência também estão conversando com executivos de startups que fecharam as portas depois de perder o acesso à plataforma do Facebook, além de fazer contato com pessoas que venderam suas empresas ao Facebook, disseram fontes informadas sobre essas conversações.

As discussões tiveram por foco as táticas de crescimento a qualquer custo que conduziram o Facebook de uma rede social para universitários, 15 anos atrás, uma coleção de serviços usados por mais de um quarto da população mundial, hoje.

As conversas demonstram que a FTC "está montando um quadro do que pode ser um padrão de comportamento que envolve bloquear a competição, nos negócios centrais do Facebook", disse Gene Kimmelman, assessor sênior da Public Knowledge, uma organização de defesa do consumidor que se concentra em questões de tecnologia. Kimmelman também foi funcionário da área antitruste do Departamento da Justiça no governo Obama. Conversar com rivais rivais é típico, em investigações antitruste, ele disse.

Dentro do Facebook, os principais líderes estão preocupados com a possibilidade de que rivais revelem autoridades federais informações desfavoráveis, e discutiram maneiras de melhorar os relacionamentos da empresa no Vale do Silício, de acordo com uma pessoa informada sobre as discussões.

A investigação da FTC é um dos diversos inquéritos antitruste sobre o Facebook e outros gigantes da tecnologia nos Estados Unidos e em todo o mundo.

No começo do mês, o Comitê Judiciário da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos solicitou comunicações entre executivos do Facebook sobre as decisões da empresa de comprar a rede de compartilhamento de fotos e vídeos Instagram, em 2012, e o app de mensagens WhatsApp, em 2014. Legisladores contataram diversos dos rivais dessas companhias como parte de sua investigação.

O comitê da Câmara não pode tomar medidas punitivas contra as companhias, mas a FTC pode.

Uma das áreas de interesse da FTC é a Onavo, uma startup israelense de serviços analíticos de internet móvel que o Facebook adquiriu em 2013. A Onavo oferecia um app grátis para celulares que se descrevia como uma forma de "manter você e seus dados seguros", por meio da criação de uma rede privada virtual.

Para tanto, a companhia redirecionava o tráfego da Onavo aos servidores do Facebook, o que permitia que ela registrasse tudo que acontecia em um banco de dados central.

Isso permitia que o Facebook rastreasse discretamente o que os usuários faziam em seus celulares, incluindo que apps eles usavam e por quanto tempo. Em 2017, dados da Onavo foram citados frequentemente em pacotes de pesquisa e estratégia internos da empresa, de acordo com ex-empregados e documentos internos do Facebook, e isso ajudou a definir a aquisição do WhatsApp pelo Facebook em 2014 por US$ 22 bilhões (atuais R$ 91,7 bilhões). O Facebook desativou o app Onavo este ano, em meio ao crescente escrutínio de suas práticas de coleta de dados.

A Snap foi fundada em 2011, quando o Facebook já era a companhia dominante de mídia social. A empresa rapidamente se tornou um sucesso na mídia social, depois que o app de mensagens Snapchat ganhou popularidade entre os jovens.

Em determinado momento, o Facebook –via Onavo– era capaz de ver dados sobre a Snap tão específicos quanto o número de mensagens enviadas por seus usuários ou o tempo que os usuários dedicavam a cada serviço do Snapchat, disseram ex-empregados da companhia.

O Facebook não tinha acesso ao conteúdo das mensagens ou imagens. A visibilidade sobre o uso da Snap foi consideravelmente reduzida quando a companhia começou a usar dados criptografados.

Uma porta-voz do Facebook disse que o app era semelhante aos de outras ferramentas de pesquisa do setor.

Outro foco da investigação é determinar se Mark Zuckerberg, presidente-executivo e do conselho do Facebook, adquiriu ou tentou adquirir startups que ele temia pudessem se tornar concorrentes mais tarde, de acordo com pessoas familiarizadas com a investigação. Em alguns casos, quando ofertas do Facebook foram rejeitadas, o gigante da mídia social copiou recursos oferecidos pelas empresas que havia tentado adquirir.

Por exemplo, quando Zuckerberg se reunia com fundadores de startups, como Evan Spiegel, presidente-executivo da Snap , e Dennis Crowley, cofundador da Foursquare, ele lhes apresentava dois cenários: ou eles aceitavam o preço que ele estava oferecendo por suas empresas ou teriam de enfrentar esforços do Facebook para copiar seus produtos, o que dificultaria suas operações, disseram pessoas informadas sobre o assunto. Nos dois casos, depois que as empresas rejeitaram as propostas, o Facebook logo lançou serviços que imitavam produtos do Snap e Foursquare.

O Foursquare em 2014 começou uma transição de app para consumidores a fornecedor de tecnologia e dados baseados em localização, para clientes empresariais.

O Facebook lançou uma série de produtos parecidos com os recursos mais populares da Snap, a exemplo de histórias, filtros e "stickers". O crescimento da Snap se desacelerou em determinados momentos, em parte devido à concorrência do Instagram, e agora a companhia tem cerca de 200 milhões de usuários ao dia, menos de 15% do total do Facebook.

Depois de um período complicado em 2018 devido em parte a uma mudança de design que não deu certo, a Snap voltou a ampliar seu número de usuários e suas ações se recuperaram. Também vem conseguindo atrair mais usuários jovens na faixa etária dos 13 aos 34 anos nos Estados Unidos do que o Facebook e o Instagram.

A porta-voz do Facebook disse que os consumidores ganham mais escolhas quando duas empresas oferecem serviços e recursos semelhantes.

"Isso é a concorrência em ação, e um dos marcos históricos do setor de tecnologia", ela disse. "As empresas desenvolvem e alteram constantemente ideias e conceitos no mercado - melhorando-os ou conduzindo-os em direções diferentes. Isso é bom para os consumidores".

Externamente, a Snap muitas vezes lidou com essa tensão recorrendo ao humor. Depois de lançar filtros vinculados a regiões específicas, em 2014, ela criou um que só aparecia para usuários da Snap na sede do Facebook.O filtro mostrava uma imagem do fantasminha que serve de logotipo à Snap rindo e apontando para o usuário, presumivelmente um empregado do Facebook.

Uma causa séria de frustração para os executivos da Snap era a convicção de que o Facebook estava impedindo que o conteúdo mais popular da Snap entrasse nos "trending topics" do Instagram, o que eles veem como abuso do poder de monopólio. Quando usuários subiam para o Instagram vídeos e fotos registrados usando as lentes mais populares da Snap —como pessoas vomitando arco-íris ou usando orelhas de coelho—, eles também incluíam o hashtag #snapchat e o nome da lente.

Nos documentos do Projeto Voldemort, de acordo com pessoas informadas sobre ele, executivos da Snap mencionam sua convicção de que o Instagram bloqueava buscas desses termos relacionados à Snap, e não o incluía em sua página de recomendação, que os usuários empregam para descobrir conteúdo novo.

Representantes do Instagram também começaram a pressionar influenciadores ameaçando-os de cancelar o status de "conta verificada", que identifica suas contas como legítimas e populares, de acordo com uma pessoa informada sobre as discussões.

Perder a marca azul que identifica a conta como verificada pode reduzir a capacidade de um influenciador de garantir contratos remunerados, em valores que variam de centenas a milhões de dólares a depender da popularidade do influenciador.

Em 2016, o Instagram acrescentou uma regra que impedia usuários de criar links para seus perfis no Snapchat.

As táticas do Facebook há muito causam preocupação no Vale do Silício, disse Paul Keable, vice-presidente de estratégia do Ashley Madison. O site de encontros, que atende a pessoas casadas em busca de encontros extraconjugais, está proibido de anunciar no Facebook, que agora opera um serviço de encontros.

"O Facebook criou um cenário no qual pode determinar quem sai ganhando com base nos caprichos da empresa", disse Keable. "E ao mesmo tempo oferece produtos concorrentes".

Keable diz que espera poder trabalhar com o Facebook para melhorar o relacionamento entre as empresa e os serviços de encontros. Ele disse que não esteve em contato com as autoridades regulatórias mas que prestará informações se solicitado.
 
Tradução de Paulo Migliacci

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.