Moeda do Facebook enfrenta novo obstáculo com oposição de países ricos

JP Morgan também diz não acreditar no sucesso da criptomoeda de Zuckerberg

Washington | Reuters

Os planos do Facebook para lançar a criptomoeda libra enfrentam novos obstáculos depois de escrutínio de governos da União Europeia e da debandada de marcas importantes do consórcio, como Visa e Mastercard na semana passada.

Nesta semana, países ricos e o banco JPMorgan Chase deram sinais de que o atual cenário regulatório deverá ser um entrave para a rede social emplacar sua moeda.

O G7 (grupo das sete economias mais ricas do mundo) disse na quinta-feira (17) que as chamadas stablecoins não devem ser lançadas até que os profundos riscos internacionais sejam resolvidos.

Ilustração da Libra, moeda digital lançada pelo Facebook
Ilustração da Libra, moeda digital lançada pelo Facebook - Dado Ruvic - 05.out.2019/Reuters

 Stablecoins são criptomoedas apoiadas por ativos como depósitos em dinheiro, títulos do governo de curto prazo ou ouro, o que lhes dá menos flutuação do que moedas como o bitcoin. Deste grupo, a libra é a mais conhecida.

Quando lançadas em larga escala, as stablecoins podem ameaçar o sistema monetário e a estabilidade financeira do mundo, disse um grupo de trabalho do G7 em um relatório destinado a ministros de finanças reunidos em Washington para reuniões do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do Banco Mundial.

A tecnologia emergente, que atualmente não é regulamentada, como outras criptomoedas, também pode dificultar os esforços internacionais para combater a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo, além de criar problemas de segurança cibernética, tributação e privacidade, segundo o relatório.

"O G7 acredita que nenhum projeto global de stablecoin deve entrar em operação até que os desafios e riscos legais, regulatórios e de supervisão" sejam abordados, disse o grupo de trabalho, presidido pelo membro do conselho do Banco Central Europeu Benoit Coeure.

"Espera-se que as entidades do setor privado que elaboram acordos sobre stablecoins abordem uma ampla gama de desafios e riscos legais, regulatórios e de supervisão", acrescentou o relatório.

Em resposta, a Associação Libra que apoia a criptomoeda disse que está comprometida em trabalhar com reguladores.

A libra foi projetada para respeitar a soberania nacional sobre a política monetária, bem como as regras contra a lavagem de dinheiro e outros esforços para impedir finanças ilícitas, afirmou a entidade em comunicado.

Em meio a um rigoroso controle regulatório, as 21 empresas que apoiam a libra se comprometeram na segunda-feira a avançar com o projeto, ignorando a deserção de um quarto de seus membros originais, incluindo as gigantes de pagamentos Visa e Mastercard.

Depois da mensagem do G7, foi a vez do G20 se pronunciar sobre o tema. Nesta sexta-feira (18), o grupo decidiu que as stablecoins globais dão origem a um conjunto riscos graves de políticas públicas e regulações, segundo comunicado do grupo que reúne as maiores economias do mundo.

O G20, atualmente presidido pelo Japão, também pediu ao FMI que examine as implicações macroeconômicas, incluindo questões de soberania monetária em seus países membros, a partir da possível disseminação de stablecoins globais, segundo o comunicado.

Reforçando o discurso, Olaf Scholz, ministro das Finanças da Alemanha, redobrou suas críticas nesta sexta aos planos acerca da libra, e disse que a criação de uma nova moeda mundial deve ser evitada.

A jornalistas nas reuniões do FMI e do Banco Mundial em Washington, Scholz citou preocupação crescente com as stablecoins e com os possíveis riscos internacionais que elas representam.

Scholz disse, porém, que mudanças no setor financeiro são necessárias, para tornar pagamentos internacionais mais rápidos e mais baratos. Isso sem comprometer a autonomia dos Estados, avaliou o ministro.

Ele disse ainda estar cético em relação aos planos do Facebook.

"Vamos monitorar cuidadosamente a situação com todos os meios à nossa disposição. Não sou a favor da criação bem-sucedida de uma moeda mundial, porque essa é a responsabilidade dos estados democráticos."

Quem também não faz apostas na moeda de Zuckerberg é o presidente-executivo do banco JPMorgan Chase, Jamie Dimon.

O projeto da libra é "uma ideia interessante que nunca acontecerá", disse Dimon, nesta sexta.

Na semana passada, o consórcio da libra perdeu Visa, Mastercard, eBay, Stripe e Mercado Pago. As empresas abandonaram o plano na sexta (11), sete dias depois de o Paypal deixar o grupo.

Com pressão de bancos e sem o apoio de empresas financeiras tradicionais, que temem desgaste no cenário de incerteza regulatória, o mercado intensificou os questionamentos sobre a iniciativa.

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