Descrição de chapéu Financial Times

O Facebook é o adolescente mais poderoso do mundo

Sob ataque em diversos países, rede social precisa ajustar suas regras e produtos constantemente para enfrentar tempestade de queixas que recebe

Gideon Rachman
Financial Times

A era do Instagram deu origem a uma nova classe —a dos "influenciadores", que persuadem seus seguidores a comprar certas coisas e pensar de certas maneiras. Mas o maior de todos os influenciadores é o Facebook —a companhia que controla o Instagram, WhatsApp e a rede social Facebook em si.

Com 2,7 bilhões de usuários —mais de um terço da população mundial—, o Facebook é uma imensa força política global, acusada de toda espécie de coisa, de determinar o resultado da eleição presidencial americana de 2016 a facilitar o genocídio em Mianmar.

O fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, no passado relutava em admitir o poder político da companhia —e inicialmente rejeitava como "loucura" a ideia de que as notícias falsas veiculadas no Facebook pudessem ter influenciado a eleição de 2016.

A atitude dele pode ter sido ingênua ou hipócrita, mas certamente não era sustentável. O Facebook se tornou alvo político —e assim ingressou na arena política, tentando apaziguar os legisladores, que temem seu poder.

Presidente do Facebook em audiência conjunta do Comitê de Comércio, Ciência e Transporte do Senado dos EUA e do Comitê Judiciário do Senado em Capitol Hill, em Washington - Jim Watson - 10.abr.18/AFP

Zuckerberg, 35, provou ser um engenheiro e homem de negócios brilhante. Mas agora terá de se provar um político brilhante. Caso fracasse, sua criação pode ser dividida —ou ele pode ver suas ambições progressivamente bloqueadas e os melhores produtos da companhia regulamentados a ponto de impossibilitar sua existência.

 

A maior ameaça ao Facebook talvez seja a de que os governos decidam tratar a empresa como provedor de conteúdo e não plataforma —tornando-a legalmente responsável por todas as mentiras e difamações veiculadas em seus serviços. A ampla sede do grupo em Menlo Park, Califórnia, ficaria soterrada sob um dilúvio de processos judiciais.

Mas a ação do governo também poderia representar a salvação da companhia. Aos 15 anos, o Facebook é o adolescente mais poderoso do mundo. Como muitos adolescentes, é possível que se beneficie caso os adultos estabeleçam certos limites —especialmente ao regular a maneira pela qual a empresa lida com política. A alternativa é que uma companhia com 40 mil empregados continue tentando moderar os debate políticos de 2,7 bilhões de pessoas.

Em seu mercado de origem, os Estados Unidos, o Facebook está sob ataque feroz pelos dois lados do espectro político. O presidente acusou o Facebook de ser "sempre anti-Trump", acusação ecoada por muitos republicanos proeminentes que afirmam que o algoritmo da empresa deprecia as notícias veiculadas por fontes de direita.

A decisão do Facebook de excluir de sua plataforma certos comentaristas direitistas, como o proponente de teorias de conspiração Alex Jones, também deflagrou acusações de parcialidade.

Enquanto isso, a esquerda acusa o Facebook de tolerância gritante a mentiras e manipulações políticas —e de preferir abocanhar lucros e atrair número cada vez maior de usuários a encarar suas responsabilidades políticas.

Elizabeth Warren, uma das principais candidatas à indicação presidencial democrata, colocou deliberadamente um anúncio enganoso no Facebook —afirmando que Zuckerberg havia declarado apoio à reeleição de Trump.

O Facebook não aceitou a provocação e se recusou a remover o anúncio. Na semana passada, Zuckerberg disse que "não creio que seja correto para uma empresa privada censurar políticos".

Esta semana, o chefe do Facebook estará de novo em Washington para depor ao Congresso sobre as ambições da empresa quanto à moeda digital libra, o que, no clima atual de oposição ao Facebook, será difícil de vender.

Essas controvérsias que ocorrem nos Estados Unidos são reproduzidas no mundo inteiro. No Reino Unido, muitas das pessoas que defendem que o país permaneça na União Europeia acreditam que anúncios veiculados no Facebook tenham desempenhado papel nefário na determinação do resultado do referendo do brexit em 2016, ao encaminhar a eleitores suspeitosos notícias falsas sobre a imigração.

Na Ásia, a empresa enfrenta acusações ainda mais sérias. Investigadores da ONU em Mianmar advertiram que o Facebook foi a mídia primordial para provocar o ódio e atrocidades em massa contra a minoria muçulmana rohingya —que viu centenas de milhares de seus integrantes forçados a fugir do país. Na Índia, multidões foram convocadas para linchamentos por meio do WhatsApp.

 

O Facebook precisa ajustar suas regras e produtos constantemente a fim de enfrentar a tempestade de queixas que recebe. Limitou o número de usuários aos quais mensagens de WhatsApp podem ser encaminhadas, em um esforço por impedir que a histeria ganhe circulação viral.

Usa recursos externos de verificação de fatos, auxiliados por inteligência artificial, para identificar notícias falsas —que são rotuladas como tal e recebem ranking inferior em suas buscas. Os proponentes do terrorismo e da retórica do ódio continuam a ser censurados. Bilhões de contas falsas foram apagadas.

Presidente do Facebook em discurso na Georgetown University; ele defende a liberdade de expressão no momento em que a empresa sofre escrutínio pela disseminação de notícias falsas na rede - Carlos Jasso - 17.out.19/Reuters

Mas a divisória entre a liberdade de expressão e a incitação à violência —e entre os políticos legítimos e os promotores do ódio— sempre será contestada. Para lidar com disputas sobre que conteúdo o Facebook deveria excluir de sua sua plataforma, a empresa está criando um conselho revisor independente —que ela compara grandiosamente à Suprema Corte dos Estados Unidos.

O esforço é interessante e sério. Mas certamente está além da capacidade de uma única companhia julgar de maneira nuançada os debates políticos em centenas de países e idiomas. Como resultado, crescente intervenção dos governos é inevitável.

A China —que não acredita em liberdade de expressão— simplesmente proibiu o Facebook. Mas existem medidas menos abrangentes que podem ser tomadas. O Facebook já respeita as leis alemãs sobre a negação do Holocausto, por exemplo, ao bloquear a circulação desse tipo de conteúdo para endereços de web localizados na Alemanha.

Nos Estados Unidos, se fala cada vez mais de forçar uma divisão da companhia. Mas embora possa haver argumentos econômicos em favor de cindi-la, não existiria justificação política para fazê-lo. A era da mídia social veio para ficar, com todas as suas complicações. Fechar o Facebook não mudaria esse fato.

Tradução de Paulo Migliacci

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