Google faz parceria com banco e quer criar conta-corrente para usuários

Projeto deve ser lançado este ano; marcas das instituições financeiras, e não a do Google, terão posição central nas contas

Peter Rudgeair Liz Hoffman
The Wall Street Journal

O Google em breve começará a oferecer contas-correntes aos seus usuários, se tornando o mais recente peso pesado do Vale do Silício a ingressar no ramo de finanças.

O projeto, intitulado Cache, deve ser lançado este ano, com contas operadas pelo Citigroup e por uma cooperativa de crédito da Universidade Stanford, uma pequena instituição financeira cuja sede fica bem perto do Google.

As grandes companhias de tecnologia consideram os serviços financeiros como um caminho para se aproximar dos usuários e obter dados valiosos. A Apple lançou um cartão de crédito alguns meses atrás.

A Amazon está negociando com bancos para oferecer contas-correntes. O Facebook está trabalhando em uma moeda digital que espera desordenar os pagamentos mundiais.

As ambições deles podem representar um desafio para as companhias estabelecidas de serviços financeiros, que temem perder sua primazia e seus clientes. Também é provável que isso alimente reações em Washington, onde as autoridades regulatórias já estão investigando se as grandes empresas de tecnologia não exercem influência demais.

Escritório do Google em Londres, Reino Unido - Ben Stansall - 28.out.19/AFP

As ligações entre bancos e tecnologias foram problemáticas, em alguns casos. A Apple irritou seu parceiro no cartão de crédito, o Goldman Sachs Group, ao afirmar em sua publicidade que “o cartão foi concebido pela Apple, não por um banco”. Grandes empresas do setor financeiro abandonaram o projeto de criptomoeda do Facebook depois da reação regulatória adversa à ideia.

A abordagem do Google parece ter sido concebida para atrair aliados, e não criar inimigos, em ambos os campos. As marcas das instituições financeiras, e não a do Google, terão posição central nas contas, disse um executivo ao The Wall Street Journal. E o Google deixará os detalhes financeiros e fiscalizatórios aos cuidados dos bancos —atividades para as quais a companhia de qualquer forma não está licenciada.

“Nossa abordagem será formar parcerias profundas com os bancos e o sistema financeiro”, disse em entrevista o executivo do Google Caesar Sengupta. “O caminho pode ser ligeiramente mais longo assim, mas será mais sustentável”.

O Google tem ambições iniciais modestas. Contas-correntes são um produto genérico, e as pessoas não mudam de banco com frequência. Mas elas oferecem um tesouro de informações, incluindo quanto uma pessoa ganha, onde ela faz compras e que contas ela paga.

A companhia terá de convencer um público cada vez mais cauteloso quanto à forma pela qual empresas de tecnologia usam dados pessoais de que merece confiança ao receber dados financeiros. As autoridades regulatórias federais americanas estão examinando se as informações sobre usuários que o Google recebe de seu serviço de buscas, alto-falantes domésticos, serviço de email e outro apps lhe oferecem uma vantagem desleal.

Sengupta disse que o Google queria levar valor aos consumidores, bancos e comerciantes, com serviços que incluiriam programas de fidelidade, mas que a empresa não venderia os dados financeiros obtidos das contas-correntes dos usuários. A companhia afirmou que não usa dados do Google Play para fins publicitários e que não compartilha esses dados com anunciantes.

58% das pessoas pesquisadas recentemente pela consultoria McKinsey & Co. disseram que confiariam em produtos financeiros do Google. Foi um resultado melhor que o da Apple e Facebook mas pior que o da Amazon.

“Se pudermos ajudar mais gente a fazer mais coisas de modo digital online, isso será bom para a internet e bom para nós”, disse Sengupta.

Ele afirmou que o Google ainda não decidiu se as contas-correntes teriam tarifas. Os bancos ocasionalmente cobram tarifas de alguns clientes que detêm saldos mais baixos ou não usam seus cartões de débito com frequência.

Os grandes bancos já estão enfrentando competição de empresas iniciantes de tecnologia, especialmente entre os consumidores da geração millennial, que concentram suas atividades em seus celulares. Os serviços de transferência de dinheiro Venmo e Cash App estão lançando cartões de débito. A Chime Financial e a Revolut atingiram avaliações bilionárias com base em seus apps bancários para celulares.

O Google já flertou com serviços financeiros no passado. Em 2011, lançou o Google Wallet, que permitia que os usuários armazenassem digitalmente seus cartões de crédito e débito, para fazer compras. Em 2015, a empresa estudou maneiras de usar o email para pagamento de contas.

O Google lançou, e fechou rapidamente, um site no qual os usuários podiam comparar apólices de seguro e cartões de crédito. Mais recentemente, vem concentrando suas atenções na Índia, onde os pagamentos móveis estão crescendo rapidamente.

Os consumidores acessariam suas contas-correntes por meio do Google Pay, o serviço de pagamentos do Google. A Alphabet, controladora do Google, vem tentando promover o uso do app, lançado em 2015 para concorrer com produtos similares para pagamentos da Apple, Samsung Electronics e Facebook. Este último lançou esta semana um serviço de pagamentos que funciona em todos os seus apps.

O Google Play está a caminho de atingir 100 milhões de usuários em todo o mundo em 2020, ante 39 milhões em 2018, de acordo com estimativas da Juniper Research. O Apple Pay tinha cerca de 140 milhões de usuários no ano passado, de acordo com a Juniper.

Os bancos estão tentando determinar quando trabalhar com as empresas de tecnologia e quando competir contra elas. Tanto o Citigroup quanto a Stanford Credit Union, o outro parceiro do Google no projeto Cache, podem conquistar depósitos e estabelecer relacionamentos com poupadores mais jovens e mais informados sobre tecnologia, que um dia podem vir a precisar de uma hipoteca ou cartão de crédito.

O Citigroup é um dos maiores bancos dos Estados Unidos mas têm muito menos agências do que rivais como o JPMorgan Chase. Em lugar disso, depende de ofertas digitais para atrair depósitos, uma forma barata de capital que é crucial para a lucratividade dos bancos.

Anand Selva, que comanda o banco de varejo do Citigroup, disse que parcerias digitais permitiriam que o banco crescesse para além de sua rede física de agências. “Temos de estar onde os clientes estão”, ele disse.

Sengupta, que veio de Délhi para fazer pós-graduação em Stanford no final da década de 1990, disse que sua primeira conta bancária foi na cooperativa de crédito de Stanford, e que muitos empregados do Google ainda têm contas lá.

Sengupta disse que o Google estava aberto a incluir mais bancos em sua parceria no futuro.

Tradução de Paulo Migliacci

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