Descrição de chapéu The New York Times China

Clubhouse é alvo de censores na China após usuários discutirem sobre política

Nova rede social foi bloqueada na segunda (8); governo vem acelerando controle digital sobre os cidadãos

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Amy Chang Chien Amy Qin
The New York Times

Um a um, os participantes do chat foram ao microfone digital, enquanto milhares de pessoas ouviam em silêncio.

Um homem chinês disse que não sabia se acreditava ou não nas numerosas informações sobre a existência de campos de concentração para muçulmanos no extremo oeste da província de Xinjiang.

Depois foi a vez de uma mulher uigur, que explicou calmamente que tem certeza de que os campos existem porque parentes dela estão entre as pessoas confinadas. Um homem de Taiwan interferiu para pedir por compreensão entre todas as partes, e outro homem, de Hong Kong, elogiou a mulher por sua coragem em se pronunciar.

Foi um momento raro de diálogo aberto com pessoas da China continental, que costumam ficar separadas do restante do mundo online pelo Great Firewall. Por um curto período, elas encontraram um fórum aberto no Clubhouse, para discutir assuntos contenciosos, livres das restrições que usualmente se aplicam à internet chinesa, estreitamente controlada.

Na noite de segunda-feira (9), o inevitável aconteceu: os censores chineses intervieram. Muitos dos usuários do app na China continental começaram a receber mensagens de erro ao tentar usar a plataforma. Alguns disseram que só conseguiam acesso ao app usando um VPN, uma forma de criar um “túnel” através da fronteira digital. Em poucas horas, mais de 1.000 usuários haviam se conectado para ouvir uma discussão sobre a proibição em uma sala de chat intitulada “bloqueados, o que fazer agora?” Buscas por “Clubhouse” na popular plataforma chinesa de mídia social Weibo estavam bloqueadas.

Para muitos usuários na China continental, foi um breve vislumbre de uma mídia social irrestrita. Sob a liderança do presidente Xi Jinping, o governo chinês vem acelerando seus esforços para exercer controle digital quase total sobre o que seus cidadãos leem e dizem online. Comentaristas pagos pelo governo e “trolls” nacionalistas frequentemente inundam a mídia social chinesa de propaganda e mensagens cáusticas que tornam difícil manter discussões abertas e públicas sobre tópicos que o governo classifique como delicados.

“Era só questão de tempo”, disse Alex Su, 30, editora em uma startup de tecnologia em Pequim, em entrevista por telefone.

Su disse que, no breve período em que ela usou o Clubhouse, ficou especialmente comovida com uma conversa na qual uigures relataram histórias pessoais sobre a discriminação que sofrem em Xinjiang.
“Esse é o tipo de informação a que realmente não temos acesso na China continental”, disse Su.

Não se sabe quantos usuários da China continental estavam registrados no Clubhouse. Antes de ser bloqueado, ele só estava disponível no sistema operacional da Apple, o que o coloca fora do alcance da vasta maioria dos usuários chineses, que empregam o Android. Os usuários tinham de se desconectar da loja chinesa da Apple para baixar o Clubhouse.

O app também só pode ser baixado por convite, o que gerou um pequeno mercado paralelo de códigos de para entrar na rede social, nos últimos dias. Antes do bloqueio do app, o preço corrente para um convite era de até 300 yuan (aproximadamente R$ 250).

Isso não impediu milhares de usuários chineses de acorrerem à plataforma, que fornece salas de chat em áudio que desaparecem quando as conversas acabam. Nos últimos dias, diversas salas de chat em chinês receberam sua lotação máxima de até 5.000 usuários. Algumas pessoas disseram estar se conectando da China continental, enquanto outras se identificaram como chineses que vivem fora do país. Muitos disseram ser de Hong Kong e de Taiwan.

Aparentemente, todos os tópicos que constam na lista de assuntos da censura chinesa eram discutidos. Em uma sala de chat, os participantes debateram que líderes chineses haviam sido responsáveis pela repressão às manifestações da praça Tiananmen em 1989. Em outra, usuários relembravam experiências de encontros com a polícia ou agentes de segurança chineses.

Em uma terceira, os participantes lamentavam em silêncio o primeiro aniversário da morte de Li Wenliang, o médico repreendido por seu alerta sobre o coronavírus em Wuhan, China. Ele morreu da doença, e sua morte fez com que o hashtag “liberdade de expressão” se espalhasse pela mídia social da China.

A súbita popularidade do app na China levou muita gente a imaginar por quanto tempo o governo permitiria que a festa continuasse. As companhias de mídia social que operam na China devem manter registros sobre a identidade de seus usuários, transmitir dados à polícia e respeitar normas severas de censura.

A maioria dos grandes sites ocidentais de notícias e apps de mídia social, como o Twitter, Facebook, e Instagram, estão bloqueados totalmente na China, e é cada vez mais difícil acessar VPNs no lado continental. As plataformas nacionais de mídia social que são permitidas no país, como WeChat e Weibo, são estreitamente regulamentadas e vigiadas pelos censores.

“O Clubhouse é exatamente o que os censores chineses não desejam ver na comunicação online –uma discussão ampla e aberta na qual as pessoas podem falar sem restrições”, disse Xiao Qiang, fundador do China Digital Times, um site que acompanha os controles de internet chineses. “Também é um lembrete de que, se existe oportunidade, muitos chineses sentem uma necessidade desesperada de conversar uns com os outros e de ouvir pontos de vista diferentes”.

O Clubhouse não respondeu de imediato a um pedido de comentário.

Criado no ano passado por profissionais de capital para empreendimentos do Vale do Silício, o Clubhouse não demorou a decolar, e em dezembro já tinha 600 mil usuários registrados. O app foi concebido como um espaço virtual exclusivo para que pessoas convivam, e sua base de usuários inclui celebridades, DJs e políticos.

Foi só quando Elon Musk, um bilionário da tecnologia que tem muitos seguidores chineses, participou de uma conversa no app, no mês passado, que o interesse disparou, na China. Algumas pessoas nos círculos chineses de tecnologia já tinham prometido lançar plataformas de conversação semelhantes.

Os assuntos de conversa em chinês não eram todos políticos. Como acontece com os chats em inglês, também havia discussões animadas sobre namoros, procura de empregos e música. Diversos codificadores de software chineses criaram uma sala para manterem conversas sobre assuntos nerds.

Mas algumas das salas de chat em chinês mais populares eram centradas nos assuntos mais contenciosos. Em uma delas, o foco era o relacionamento entre a China continental e Taiwan, e um moderador convidava as pessoas dos dois lados a se alternarem em suas falas.

Algumas pessoas taiwanesas falaram sobre como, mesmo depois de terem trabalhado na China continental, elas continuavam a não entender plenamente a cultura. Isso criava uma grande lacuna entre os dois lados, disseram, especialmente quanto a questões políticas.

Diversos usuários da China continental falaram sobre terem sido ensinados desde pequenos, na escola, a acreditar que Taiwan, uma ilha autogovernada que a China reivindica como parte de seu território, era parte indivisível de seu país.

Em algumas ocasiões, essas conversas se deterioravam, como quando um homem identificado como taiwanês começou a falar e amaldiçoou os chineses continentais, antes de sair rapidamente da sala. Mas em geral, os usuários afirmam que o uso de moderadores pelo serviço de chat e a conversa em tempo real promoviam uma civilidade e intimidade que outras plataformas de mídia social, como o Twitter e seu equivalente chinês, o Weibo, não oferecem.

Logo da rede social Clubhouse ao lado da bandeira chinesa - Florence Lo/Reuters

“Comparados a alguns chineses que conheci, os que usam o app não me davam a sensação de que estavam tirando vantagem de mim”, disse Erin Chang, 29, especialista em recursos humanos em Taiwan, em uma entrevista. “Senti que eles mostravam empatia básica como seres humanos”.

Com a disparada da popularidade do Clubhouse na China, as críticas também cresceram. A mídia estatal sinalizou seu desprazer.

“Nunca existe liberdade de expressão quando o assunto é a China, na mídia social estrangeira, onde opiniões unilaterais podem suprimir com facilidade as vozes que negam as mentiras”, afirmou o tabloide nacionalista Global News, que tem o apoio das autoridades, em um editorial sobre o Clubhouse publicado em inglês na segunda.

Outros definiram o app, e seus usuários de elite, como uma câmara de eco de opiniões –um argumento admitido por muitos participantes durante as conversas.

“Muitos de nossos compatriotas na China continental não usarão o app, no fim”, escreveu Ren Yi, um blogueiro chinês educado em Harvard que usa o pseudônimo “Chairman Rabbit”, no Weibo, sábado (6). “Com o crescimento concentrado e explosivo de usuários de alto nível chineses no exterior, no futuro o conteúdo e as tendências serão ainda mais excludentes”.

Mas para Vinira Abdgheni, a mulher uigur que falou sobre o confinamento de seus parentes em campos de concentração, o app estava muito longe de ser unilateral. Ela disse que era um alívio ter a oportunidade de confrontar concidadãos chineses que ainda possam abrigar dúvidas sobre os abusos cometidos em sua região natal, Xinjiang.

“Tentei tantos canais para expressar minhas frustrações”, disse Abdgheni em entrevista por telefone de Tóquio, onde ela mora agora. “Por isso pensei que o melhor era falar enquanto tivesse a oportunidade de fazê-lo, porque não quero ser uma pessoa que vive em silêncio”.

Tradução de Paulo Migliacci

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