Descrição de chapéu Obituário Mario Altino Ferreira (1954 - 2020)

Mario Altino reatou laços no final da vida

Da UTI, o aposentado se comunicava com as famílias em São Paulo e em Recife

Gabriela Caseff
São Paulo

Os vídeos gravados por Mario Altino Ferreira no hospital da Moóca, em São Paulo, chegavam diariamente a celulares na Vila Formosa, a poucos quilômetros dali, e a Recife, a 2.600 km. A tecnologia possibilitou a troca de afetos em seus últimos momentos de vida.

As destinatárias mais assíduas eram Claudete da Silva, 53, sua esposa e companheira nos últimos 30 anos, e a filha Aline Cristina Ferreira, 29.

Foi com elas que o Mario dividiu jantares regados a uísque e risadas na garagem de casa, onde também passava os finais de semana embelezando o carro. “Quando criança, depois do jantar, meu pai nos levava de carro para ver a decoração de Natal pelo bairro”, conta Aline. Empinar pipa e caçar formigas no quintal de casa são outras duas memórias que ela carrega de sua infância com o pai, sempre tímido e reservado.

Homem de cabelos brancos e blusa verde
O leiturista aposentado morreu devido a complicações da Covid-19 - Arquivo pessoal

Certo dia, uma moça apareceu à porta. “É aqui que mora o Mario Altino?” Era uma das filhas de seu primeiro casamento. O laço foi perdido quando as duas meninas mudaram para Recife com a mãe. Apenas uma carta foi trocada em décadas. Naquele dia, Mario se descobriu avô. Passaram-se mais 15 anos até que o próximo encontro acontecesse no mesmo endereço, desta vez com a troca de contatos entre as famílias.

Pouco afeito a viagens, Mario preferia o aconchego de casa ou os campeonatos de bilhar com os amigos. Durante 40 anos, foi leiturista e percorreu cidades da Grande São Paulo aferindo o consumo de gás e de luz. No último ano, conseguiu a aposentadoria.

Mario completou 66 anos em 21 de maio. Dez dias depois deu entrada no hospital, teve febre e precisou de hemodiálise.

Na tentativa de aproximar as famílias e as distâncias, seu genro, médico, gravava vídeos com ele. No celular, Mario ainda guardava a montagem fotográfica que Claudete havia lhe presenteado: um retrato das três filhas juntas.

O quadro se agravou e a tomografia acusou o pulmão comprometido e a suspeita – dias depois confirmada – de Covid-19. Ele morreu no dia 13 de junho, deixando a mulher, três filhas, quatro netos e a mãe, Olga, de 85 anos.

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