Descrição de chapéu Vida Pós-Vírus

Artistas e produtores da periferia devem ter ainda mais força no pós-pandemia

Profissionais da cultura que vivem em bairros pobres viviam bom momento e agora buscam se reinventar

Gabriela Caseff Gabriela Brito Cleber Souza
São Paulo

Na favela do Solar Unhão, na periferia de Salvador, o cineasta Joselito Crispim teve que parar de filmar e lançou uma campanha para mobilizar comerciantes locais e assegurar renda mínima para os moradores mais vulneráveis do lugar. “Depois de garantir comida, pensaremos em como voltar a nos manifestar culturalmente”, diz.

No Recife, a criação de uma peça que alcança os espectadores por meio de vários aplicativos de celular salvou o grupo Magiluth da falência. A companhia investira todo o seu dinheiro na inauguração de um teatro em janeiro e teve que mudar seus planos com a pandemia do coronavírus. “Encontramos um lugar na precariedade para continuar fazendo nosso trabalho”, conta o ator e dramaturgo Giordano Castro.

Sem bilheteria, sem palco e sem plateia, artistas brasileiros da periferia descobriram novas maneiras de se conectar com o público durante a pandemia, usando a tecnologia para romper fronteiras sociais e territoriais enquanto buscam a sobrevivência.

Joselito Crispim entrega um pacote de mantimentos para uma mulher idosa. Ambos estão de pé, de lado, em frente a um carro estacionado na comunidade bahiana.
Com iniciativa do grupo cultural Bagunçaço, Joselito Crispim desenvolveu a campanha "A Favela Venceu" para ajudar a comunidade durante a pandemia - Angela Reck

A Lei Aldir Blanc, que destina recursos para manutenção de atividades culturais e estendeu aos artistas o auxílio emergencial garantido a trabalhadores atingidos pela crise, só foi regulamentada em agosto, dois meses após sua aprovação. Sem previsão para o fim da quarentena, eles logo perceberam que teriam que se reinventar.

Para grupos que atuam na periferia das grandes cidades, como o de Crispim, a retomada da produção cultural dependerá da situação social das comunidades depois que a pandemia ficar para trás. “Vamos sair disso juntos, com tecnologia, instinto de sobrevivência e diálogo”, diz o cineasta, fundador do projeto cultural Bagunçaço.

Para ver a peça criada pelo grupo Magiluth, “Tudo o Que Coube Numa VHS”, o espectador precisa fornecer o número do telefone e seguir as orientações dos atores, que se comunicam com ele por WhatsApp, email e vídeos na internet. A dramaturgia e a chegada de mensagens em tempo real prendem o público à tela do celular durante 30 minutos.

No lado direito da foto, homem está sentado em frente a um computador. Ele usa fones de ouvido e camiseta preta. Do lado esquerdo, há uma rede, uma janela e um quadro. No centro, há uma prateleira com canecas e plantas. Ele encena um espetáculo remotamente.
O ator Bruno Parmera, do grupo Magiluth de Recife, em ação na peça "Tudo O Que Coube Numa VHS" - Erivaldo Oliveiro

Com sessões organizadas pelo Sesc Avenida Paulista, o grupo já fez 2.245 apresentações desde maio, atingindo espectadores no Brasil e em outros 30 países. “De uma varanda na Boa Vista, um grupo de teatro pernambucano deu a volta ao mundo”, comenta Giordano.

Mas a transição não é fácil para ninguém. Danielle Pavam, coordenadora do projeto social Corpo Cidadão, em Belo Horizonte, conta que o processo de adaptação do seu trabalho como professora de dança foi frustrante. "Paramos a formação de bailarinos que estavam começando a dançar muito agora. Eles não podem treinar os saltos, porque em casa o chão é de cimento e só têm um metro quadrado para fazer os exercícios."

A maioria dos bailarinos não tem telefone celular nem acesso à internet para acompanhar as aulas. "Falam que todos estão no mesmo barco, mas não é assim. Tem gente de canoinha e outros de iate", diz Pavam.

Também é difícil mostrar pelo computador algo que teria que ser ensinado com as mãos. "A tela não transmite o sentimento da nossa arte, tenho dificuldade de sentir a respiração na hora do exercício”, explica. “Dança não é só técnica."

Apesar das dificuldades, ela aposta que a pandemia trará transformações positivas para a dança. "Professores continuarão as aulas presenciais, mas vão transmiti-las online simultaneamente, já que vimos que à distância também pode funcionar."

O ator Eduardo Moreira, fundador do grupo de teatro Galpão em Belo Horizonte, diz que jamais imaginou transformar em filme a peça "Quer Ver Escuta", que tinha estreia prevista para março. Depois de três semanas de ensaios virtuais, ele e o elenco adaptaram a obra gravando as cenas no aplicativo Zoom. O resultado é um filme-ensaio de 50 minutos, "Éramos em Bando", que será disponibilizado gratuitamente na internet.

"Essa experiência nos leva para os primórdios do cinema enquanto precariedade técnica," diz Moreira. Ele não acredita que o formato irá transformar o processo criativo teatral de forma permanente. "A tela do computador é uma atmosfera asfixiante”, afirma. “Ensaiar nesse espaço é um fenômeno quase cerebral, cansativo, porque a comunicação é gaguejante."

Uma reprodução da tela do aplicativo Zoom. Dois atores aparecem mostrando seus olhos.
Filme-ensaio do Grupo Galpão, de Belo Horizonte. "Éramos em bando", estreia em setembro de 2020 - André Baumecker

Mas há quem aposte no diálogo da periferia com o centro como uma saída para a retomada das atividades culturais.

“A gente estava vivendo a nossa primavera periférica quando surgiu o vírus”, diz o poeta mineiro Sérgio Vaz, um dos fundadores do Sarau da Cooperifa, que reúne artistas para noites de declamação de poesia na zona sul de São Paulo e atrai visitantes de toda a cidade.

Vaz acredita que as manifestações culturais da periferia ganharão força no pós-pandemia, como reflexo da resistência dos últimos anos. “Quando a pandemia acabar, teremos que recomeçar esse diálogo”, afirma. “A molecada está mais veloz e estamos aprendendo para, quando reabrirem as portas, sairmos com sangue nos olhos para recuperar o que perdemos durante este período.”

Para o secretário municipal de Cultura de São Paulo, Hugo Possolo, o diálogo entre as várias correntes de linguagem no pós-pandemia pode recuperar não só o trabalho dos artistas como a autoestima dos moradores da cidade, a exemplo de outras experiências recentes.

No ano passado, o projeto Novos Modernistas, uma iniciativa da secretaria, levou para o Theatro Municipal o rapper Emicida e o espetáculo circense "ProtAGÔnistas – O Movimento Negro no Picadeiro".

“A presença de um artista do rap no palco e um público majoritariamente negro deram sentido de pertencimento ao espaço do teatro, reconhecido pela música erudita, a ópera e a dança”, disse Possolo, em entrevista concedida em julho.

Para o secretário de Cultura, as obras de artistas periféricos têm dado potência a temas como o combate ao racismo, o feminismo e os movimentos LGBT. “Os modernistas de 1922 eram pessoas ligadas à elite”, diz. “Hoje temos que dar voz aos artistas que estão circulando na periferia e que trazem temáticas contundentes e impactantes, que dão impulso para a sociedade.”

Para a dramaturga Dione Carlos, que forma jovens na Fábrica de Cultura da Brasilândia e na Escola Livre de Teatro, em São Paulo, há uma nova geração de artistas que começa a ser ouvida e rejeita conceitos que considera ultrapassados.

“Onde estavam os negros em 1922? O que seria o modernismo negro hoje? São perguntas para ampliar a nossa percepção do que é arte”, diz.

Com o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922 previsto para daqui a dois anos, a dramaturga aposta no diálogo com esses novos modernistas. "Por muito tempo as pessoas saíam do centro para levar algo para a periferia, mas as soluções também vêm das bordas", diz ela. "A gente precisa olhar para quem sempre esteve à margem porque estamos todos à margem agora."

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