Descrição de chapéu The New York Times

Público já pode visitar área de árvores gigantes em parque reformado nos EUA

As obras retiraram o asfalto próximo das sequoias milenares para preservar suas raízes

pessoa com braços abertos em buraco em árvore
Visitante posa para foto em sequoia no Mariposa Grove, no Parque Nacional Yosemite, na Califórnia (EUA) - Max Whittaker/The New York Times
Parque Nacional Yosemite (Califórnia) | The New York Times

John Muir, naturalista para quem o lar ideal era dormir ao ar livre em um leito de folhas de pinheiro na Sierra Nevada, definiu as sequoias gigantes como "as mais nobres das árvores de Deus".

Por três anos, alguns dos exemplares mais notáveis dessas gigantescas maravilhas ficaram interditados aos visitantes do Parque Nacional Yosemite.

Depois de uma restauração que custou US$ 40 milhões (R$ 150,2 milhões) —o maior projeto de restauração da história do parque—, a coleção de cerca de 500 sequoias gigantes maduras conhecida como Mariposa Grove foi reaberta na semana passada.

Aquilo que Muir descreveu como "uma obra-prima" florestal está de novo em exposição.

A restauração cuidou de um problema que o parque vinha enfrentando há anos. No período mais movimentado do verão, mais de sete mil carros por dia podem chegar ao parque, que fica a cerca de quatro horas de distância de San Francisco.

O congestionamento que eles criam em meio às deslumbrantes quedas de água que enfeitam as íngremes encostas de granito do vale criado por geleiras em Yosemite resulta em uma espécie de naturalismo motorizado, que frustra muita gente.

Em Mariposa Grove, que fica a cerca de 45 minutos de carro do piso do vale de Yosemite, o trânsito traz gases de escapamento e barulho de motores ao lar de algumas das coisas vivas mais velhas do planeta.

O pessoal do parque temia que o asfalto que recobria os sistemas de raízes das árvores pudesse danificá-las.

A estimativa de idade para uma das árvores de Mariposa Grove, conhecida como Grizzly Giant, uma imensa sequoia retorcida e nodosa, é de 1.800 anos ("ou alguns séculos a mais ou a menos", de acordo com o Serviço Nacional de Parques americano).

No começo da semana passada, via-se um cervo desfrutando calmamente da sombra do tronco, cuja circunferência é de quase 30 metros, um terço do tamanho de um campo de futebol.

Bancada em parte com uma doação de US$ 20 milhões (R$ 75,1 milhões) da Yosemite Conservancy, uma organização filantrópica privada, a restauração envolveu a remoção de cerca de 3.500 metros quadrados de asfalto de perto das árvores, o que as tornava acessíveis para carros e trenzinhos do parque, e sua substituição por trilhas de caminhada de terra batida, firmada por resina.

Os visitantes agora são encorajados a tomar um ônibus gratuito em um novo estacionamento a 10 minutos de distância (ainda que continue a haver uma área de estacionamento para deficientes em Mariposa Grove). Os trenzinhos movidos a diesel, barulhentos e poluentes, que conduziam os visitantes em visitas às árvores foram tirados de serviço.

"Não estamos tentando limitar a liberdade das pessoas", disse Scott Gediman, porta-voz do parque. "Vá de carro, mas o deixe estacionado, e caminhe".

A espessura da casca das sequoias pode ser de mais de 30 centímetros, e seu conteúdo de tanino é alto, para repelir insetos. Especialistas veem as sequoias gigantes como árvores especialmente resistentes.

Cerca de 130 milhões de árvores de outras espécies morreram na Califórnia nos 10 últimos anos, enfraquecidas por uma seca de cinco anos, mas nenhuma sequoia gigante madura pereceu, de acordo com Sue Beatty, ecologista especialista em restauração que ajudou a dirigir o projeto. Mesmo assim, Beatty e outros especialistas dizem ter visto alguns sinais de desgaste nas sequoias.

As sequoias gigantes, diferentemente de suas primas no ramo arbóreo, as sequoias vermelhas, não apresentam uma raiz central. Em lugar disso, elas desenvolvem uma rede rasa de raízes com cerca de um metro de profundidade, que se estende por até 60 metros em torno do tronco, disse Beatty. O asfalto e os pés dos visitantes caminhando sobre as raízes estavam tornando as árvores mais vulneráveis."

O projeto girava completamente em torno das árvores", ela disse. "Queríamos melhorar sua capacidade de sobrevivência, em um período em que o clima está mudando".

Nas principais áreas para visitantes, as árvores foram protegidas por cercas de pinho, ainda que os visitantes possam se aproximar mais delas em algumas porções da área. Galerias de escoamento feitas de cimento foram removidas, e os riachos e terras úmidas restaurados.

Frank Dean, que trabalhou no parque e hoje preside a Yosemite Conservancy, descreve a restauração da área como parte de uma evolução da maneira pela qual os americanos abordam o oeste: de conquista e descoberta para preservação.

Os primeiros visitantes a Mariposa Grove escavaram uma passagem pelo tronco de uma árvore gigante, hoje conhecida como California Tunnel Tree. Os visitantes atuais continuam a poder passar por dentro do tronco."Hoje existe uma maior compreensão de o quanto elas são especiais —e frágeis", disse Dean sobre a flora e fauna do parque. "A sociedade evolui. Agora queremos pesar menos sobre a terra".

O parque de Yosemite recebe cerca de cinco milhões de visitantes ao ano. O parque está tentando encontrar um ponto de equilíbrio entre sua missão de atrair visitantes e a necessidade de não terminar avassalado por eles, diz Gediman.

"A ideia toda de construir um estacionamento ao lado de cada atração —isso é algo que não faremos mais", ele afirmou.

Yosemite não abandonará de vez os estacionamentos: há 300 vagas para carros ao lado do terminal de partida do ônibus que leva visitantes a Mariposa Grove. Mas eles agora são construídos bem mais longe das atrações mais deslumbrantes do parque.

John Muir, cujos escritos ajudaram a alertar os americanos e o mundo quanto à beleza de Yosemite e a importância de preservá-la, provavelmente ficaria incomodado com as multidões que visitam o parque hoje. Mas reconheceria suas árvores favoritas, que ele descreveu como imortais e que praticamente não mudaram de aparência desde que ele as viu, 150 anos atrás."

Essas árvores colossais são tão maravilhosas em termos de proporções e beleza fina quanto em estatura —uma coleção de coníferas que supera tudo aquilo que já foi descoberto nas florestas do muno", ele escreveu. "O que temos aqui é o verdadeiro paraíso daqueles que amam as árvores". 

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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