Descrição de chapéu Folha Turismo, 50

O escritor Cabrera Infante narrou em 1987 seus passeios diários por Londres

Leia texto do cubano, morto em 2005, publicado em Turismo, sobre suas andanças por Kensington

São Paulo

Em texto publicado na edição de 18 de junho de 1987, o escritor cubano Guillermo Cabrera Infante (1929-2005) narrou suas caminhadas diárias pelo bairro de Kensington, em Londres, onde morou por quase 40 anos, até sua morte, aos 75 anos, e onde também viveram outros escritores famosos. 

Desafeto de Fidel Castro, o escritor chegou a colaborar na primeira etapa da Revolução Cubana, em 1959. 
Sua consagração literária veio em 1964, quando ganhou o prêmio Biblioteca Breve por seu livro "Três Tristes Tigres". Em 1965 teve seu confronto definitivo com o regime de Fidel. Quando voltou a Cuba, foi detido pelo serviço de contra-inteligência do país, mas conseguiu fugir da ilha e chegou a Madri, na Espanha. Mas dificuldades econômicas e a recusa do regime franquista de regularizar sua situação o fizeram partir para Londres, onde se instalou definitivamente.

Em 1997, o cubano recebeu o prêmio Cervantes, concedido pelo governo espanhol.

Reportagem de Cabrera Infante no caderno de Turismo de 18 de junho de 1987
Reportagem de Cabrera Infante no caderno de Turismo de 18 de junho de 1987 - Gabriel Cabral/Folhapress

Leia o texto abaixo:

 

 A Londres de Cabrera Infante

GUILLERMO CABRERA INFANTE
EM LONDRES 

Um percurso de poucas ruas, ruelas e becos por um bairro de Londres, Kensington, e em seu extremo sul, ao encontro de Chelsea, é uma encruzilhada literária. South Kensington, onde vivo, foi apelidado, por causa dos árabes, de “Saudi” Kensington. Aqui estão todas as embaixadas árabes de cada emirado, e em minha casa viveu Emir Rodriguez Monegal, o crítico uruguaio. Por aqui estava também a embaixada líbia, e Gadafi é mais conhecido agora do que Cavafy. É preciso chegar à leitura per aspera, mas ainda restam os vestígios literários, a pegada de um verso. Os grandes de ontem, hoje não passam de uma placa azul sobre fundo branco, em porcelana inglesa. A cerâmica dura mais que a vida. Não faço mais do que sair de minha casa em Gloucester Road e dar o passeio nosso de cada dia, que os ingleses chamam “constitucional”, o passeio de cura (padre) que cura, e não preciso dar muitos passos para encontrar-me com a imortalidade inglesa. Para receber uma placa é preciso primeiro estar morto, e devem ter transcorrido pelo menos dez anos entre a morte e a posteridade azul. As placas estão espalhadas por toda a cidade de Londres, por toda a Inglaterra, pela sociedade Herança Inglesa. Nem é preciso ser inglês para ser imortal. T.S. Eliot, por exemplo, era americano de nascimento, embora se tenha feito inglês de chapéu, guarda-chuva e chá das quatro. Então vamos começar por Thomas Stearn Eliot.

Logo depois de cruzar a rua em direção ao “tube” ou metrô, surge a pequena igreja de Santo Estevão onde a lenda quer que Eliot tenha estado de corpo presente durante 24 horas, sem que ninguém em Londres, isto é, no mundo, o soubesse. Embora Eliot fosse “churchwarden” (sacristão) por 25 anos aqui. Não passa de uma lenda. Mas, quem sou eu para negar uma lenda? Eliot, sem dúvida, esteve ligado ao bairro de Kensington durante toda a sua vida. Seus famosos “Quatro Quartetos” iriam chamar-se “Os Quatro Quartetos de Kensington”, e a estação do metrô aparece nevoenta em seus versos. Eliot viveu durante anos em Kensington, e sua última morada, Kensington Court Gardens, foi declarada e condecorada em outubro passado com a última das placas. Esta diz: “T.S. Eliot, poeta (1888-1965), viveu e morreu aqui”. Todas as tardes, no meu passeio diário, vejo a estela literária.

Se subo para High Street Kensington e depois dou a volta por Young Street rumo a Kensington Square, encontro a estranha casa em que viveu William M. Thackeray e onde ele escreveu “Vanity Fair” ("Feira das Vaidades"). Um pouco acima, há uma pequena rua com seu nome. Foi nessa casa que Thackeray, homem enorme, convidou a miúda Charlotte Brontë para um serão literário. Brontë não dava lá grande valor a Thackeray, que, por sua vez, sentia curiosidade pela autora de “Jane Eyre”. Brontë declarou muitas vezes ser uma mulher muito tímida, mas nunca se abriu para dizer o quanto era chata. Thackeray, despejando fumaça pelas narinas e pelos poros, deixou a festa, aborrecido, e foi fumar lá em seu clube.

Na praça há também uma placa ao filósofo Stuart Mill, campeão do individualismo e famoso por seu ensaio “Sobre a Liberdade”. Mill é interessante hoje em dia porque sua maior influência foi, não seu eminente pai, mas sua fugaz mulher. Do outro lado da praça há outra mulher emitente, mrs. Patrick Campbell, sempre conhecida por seu nome de casada, como se quisesse dizer: “Embora atriz de renome, não tenho nome”. Para ela Bernard Shaw escreveu, em “Pigmaleão”, um personagem de poucas luzes. Mrs. Campbell era exatamente o contrário, e sua língua era mais temida fora da cena do que atuando. Foi ela quem disse, quando soube que Oscar Wilde tinha sido preso por ser pederasta: “Para mim desde que não façam isto na rua e assustem os cavalos, tudo bem”. Essa frase merece a placa.

No fim da Thackeray Street espera-nos a placa de Eliot num edifício de belo tijolinho vermelho; mas voltando a Kensington High Street encontra-se Kensington Gardens, o parque que é separado do Hyde Park por um lago artificial chamado “Serpentina”. Foi nesse reservatório que se suicidou a esposa do poeta Shelley que não escreveu “Frankenstein”. Chamava-se Harriet Westbrook, e seu passaporte para a fama foi ter-se afogado na menor quantidade de água possível nestas ilhas. Junto a este reservatório, deste lado de Kensington, há uma estátua de Peter Pan que é uma obra-prima da escultura “art nouveau”. Por Kensington Gardens passeava todas as manhãs o miúdo James Barrie, autor de “Peter Pan”, a história do menino que se negou a crescer. Foi um jóquei montado na égua Posteridade, como disse Lester Piggot.

Subindo por Church Street, é possível encontrar a casa em que nasceu Gilbert K. Chesterton, que os ingleses descobriram através de Borges. Chesterton teve seu primeiro monumento em Sitges, revelado mais do que descoberto por Juan Cueto e Fernando Savater numa noite em que estavam em companhia de Johnny Walker. Um americano feito inglês, e um dos escritores mais comoventes do Sino Sur, foi William Henry Hudson, que tem uma casa no norte de Kensington. Sua placa, erigida pelos Amigos de Hudson na Sociedade de Quilmes, é um baixo relevo que mostra a casa em que nasceu no Pampa. A Inglaterra e os argentinos sempre foram muito amigos. Numa das últimas cartas que me escreveu Victoria Ocampo, declarava invejar meus passeios por Londres. Quando lhe falei da casa de Chesterton, que eu havia descoberto por acaso numa subida com minhas filhas e Miriam Gómez, dizia: “Não sei o que mais invejo, se sua família ou sua Londres”. Nossa Londres, disse-lhe eu, citando Ezra Pound.

Cada vez que Miriam Gómez e eu vamos comprar café num pequeno bar grego, que vende café do Brasil e da Colômbia e o azul das montanhas da Jamaica, que vale seu peso em prata, vamos a Kensington Church Walk, um pequeno beco sem saída, não sendo de estranhar que Pound o escolhesse como sua rua de Londres. Ali, no primeiro andar, Pound vivia em extrema pobreza. Seu único luxo era tomar um banho por semana com água quente, que trazia da cozinha. Talvez por isso um de seus poemas se intitule “A Banheira”. Viveu ali até seu encontro com a posteridade matrimonial: casou-se com Dorothy Shakespeare. Típico de sua vida, onde a desgraça o obrigou a desempenhar o papel de perdedor, não há uma placa para lembrar que Pound, tão desvalorizado, viveu ali. Agora, o cheiro de café fresco conduz o viajante que busca as pegadas do senhor Libra.

Ao voltar a Gloucester Road, é preciso esclarecer que esta curta rua tem três nomes, o que não é comum em Londres. Chama-se Gloucester Road no centro, Cranley Gardens ao sul e Palace Gate ao norte, quando encontra Kensington Gardens. Em Palace Gate, num palacete suntuoso, viveu o pintor John Millais. Agora existe uma placa que consigna este fato, mas a placa não diz que Millais foi um pintor de fortuna pública e privada. Foi ele que se casou com Effie Gray, uma das grandes belezas vitorianas (aparece em muitos dos seus quadros) e protagonista de um escândalo maior. Effie Gray fora casada com o escritor de estética John Ruskin. Na noite de lua-de-mel, Ruskin teve a grande surpresa de sua vida. Não porque sua mulher não fosse uma beleza ideal, como convém à mulher de um esteta, mas porque Ruskin descobriu muito tarde que as mulheres, embora fossem esculturais, não eram como as estátuas. Effie, perfeita de carnes, tinha púbis! E no púbis tinha pelos púbicos. Ruskin se assustou tanto com esta revelação tardia que se esqueceu de consumar o matrimônio. Numa complicada história de amores vitorianos, Ruskin apresentou Effie a seu xará pintor, e este não tardou a se enamorar. Para anular o casamento foi necessário estraçalhar a reputação do pobre Ruskin, que desde então passou a fazer parte dos vitorianos derrotados.

Como forma de justiça sexual, Effie não foi mais convidada para participar de reuniões sociais, embora John Millais, com sua fortuna, lhe tenha construído esse hotel onde hoje se aloja a Embaixada de Gana; Somente a placa recorda esse triângulo estético, ético.

Cromwell Road é a ruidosa rua equívoca que intersecciona a Gloucester Road quando esta é mais plácida, depois da igreja que Eliot frequentava na hora da missa; Não há dúvida de que é um erro teológico dizer que Eliot se converteu ao catolicismo, quando sua conversão foi à Igreja anglicana. Num extremo da Cromwell Road,  no número 53, viveu Alfred Hitchcock desde seu casamento com Alma Reville até que foi embora para Hollywood para fazer “Rebeca”. O apartamento estava no último andar, mas para chegar a Hitch não era necessário subir 39 degraus mas 93, uma típica inversão hitchcockiana. No outro extremo da rua, ali onde Cromwell Road se chama Brompton Square. Na praça viveu, durante alguns meses, outro artista católico, Stephane Mallarmé. O que uniu Hitchcock e Mallarmé por um breve momento no espaço (embora não no tempo) foi o oratório de Brompton, uma das poucas igrejas católicas de Londres. Hitchcock casou-se com sua Alma até que a morte os separasse, ao passo que Mallarmé, aos 21 anos cometeu o erro de sua vida ao se casar Marie Gherard. Mallarmé, que viera a Londres com o curioso propósito de estudar inglês para ler Edgar Allan Poe, acabou estudando Swinburne, que ele chamava “Cher Maitre”. O inglês é para o francês um idioma que induz a erro.

Continuando Gloucester Road, para além de Cranley Gardens e através de Old Church Street e cruzando o famoso King’s Road, estão as margens do Tâmisa, e ao lado delas corre Cheyne Walk, uma das mais ricas e famosas ruas do mundo. Em Cheyne Walk fica o pátio de uma das casas em que viveu Henrique 8º, antes de tirar o cardeal Wolsey do palácio de Hampton Court para mandá-lo decapitar com machado de fio duplo. Wolsey morreu, a caminho do patíbulo, descalço. No pátio ainda há uma amoreira plantada pela rainha Elizabeth enquanto seu pai compunha canções de moda e fazia listas de esposas de reposição. Em Cheyne Road está também a casa de Carlyle, detestável escritor, notável apenas porque sua empregada tomou o manuscrito de “A História da Revolução Francesa” para acender um fogo renitente; a mucama transformada numa “tricoteuse” inglesa. Não longe de onde viveu Henrique 8º, agonizou seu decapitado conselheiro Thomas Morus. Uma estátua negra, com o rosto e as mãos de ouro, marca o lugar. Morus se parece estranhamente com Lawrence Olivier no mouro de Veneza. não longe de onde Morus escreveu sua “Utopia” e saiu para a Torre, de camisa sem colarinho para esperar o machado, está a ponte Alberto sobre o Tâmisa, uma das obras-primas da engenharia vitoriana, cuja utilidade se emparelha com sua beleza. Numa das casas, cuja origem é anterior é anterior ao grande incêndio de Londres, há um letreiro que diz, sobre um saguão vetusto: “Esta passagem é somente para uso dos vizinhos e de seus cavalos”.

No número 14 de Cheyne Walk viveu e morreu Mariam Evans, mais conhecida como George Eliot, romancista vitoriana emancipada. No número 34 de Tite Street há uma placa que nunca existiu em vida de seu dono: “Oscar Wilde, engenho e dramaturgo, viveu aqui”. A famosa casa, toda decorada de branco por Oscar, não se pode dizer que agora esteja muito suntuosa. Wilde se mudou daqui para o hotel Cadogan, na Sloane Street, onde foi preso. Depois o condenaram a dois anos de cadeia por sodomia. Na realidade, foi uma condenação à morte. Bram Stoker viveu no número 4 de Durham Place. Em busca de sua casa, deparei com uma dona de casa. “A senhora sabe onde viveu Bram Stoker?” “Quem é esse sujeito?” “O homem que escreveu ‘Drácula’”. “Este é um bairro decente”, foi a única resposta que me deu a senhora interrogada sobre um dos autores mais populares da Inglaterra. Sem Stoker não teria existido nem Hammer Films nem Bela Lugosi nem “Nosferatu”.

Ainda é dia e parece que lá fora faz um bom tempo. Miriam Gómez e eu nos dispomos a dar o nosso passeio ao passado. Querem vir? Mas não, está chovendo: chove em toda Londres. Será preciso deixar isto para amanhã.

[Este texto foi publicado originalmente no diário espanhol “El País”]

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