O que o visitante pode e o que não pode fazer na Coreia do Norte

Experiência única, turismo acontece com muita segurança e roteiros de flexibilidade zero no país de Kim Jong-un

Lago que preenche cratera de vulcão no monte Paektu (também chamado de Baekdu ou Paekdu), a 2.744 metros de altitude, na fronteira da Coreia do Norte com a China Uri Tours/Divulgação

Ana Estela de Sousa Pinto
pyongyang, hyangsan e kaesong 

​​​​​Montanhas alaranjadas no outono, pistas de esqui, templos budistas de mais de mil anos, hotéis em que se dorme sobre o chão aquecido, refeições como no tempo dos reis. A Coreia do Norte tem tudo isso, mas outros lugares também têm.

O que o turista só vai ver no país governado por Kim Jong-un é uma sociedade dominada pelo Estado, em que o coletivo se impõe ao individual de maneira evidente.

É uma experiência que começa já antes da viagem, cujo itinerário deve ser previamente aprovado, coordenado por uma companhia estatal e acompanhado por dois guias.

Os roteiros são oferecidos por agências em geral sediadas na China, de onde parte a maioria dos poucos voos para Pyongyang. Só duas companhias —Air Koryo e Air China— ligam a capital do país a quatro cidades: Pequim, Xangai e Shenyang (China) e Vladivostok (Rússia).

No voo da estatal Air Koryo, o turista recebe das comissárias o Pyongyang Times, jornal estatal em inglês, e a Korea Today, revista estatal, aperitivos para as narrativas dos guias.

As telinhas do avião mostram atrações musicais como a banda pop Moranbong, de garotas que, diz-se, foram escolhidas pelo próprio ditador Kim Jong-un.

Na chegada, agentes inspecionam aparelhos eletrônicos e impressos para se certificar de que não trazem informação imprópria.

Hierarquia e disciplina prevalecem há séculos em países asiáticos, mas na Coreia do Norte foram reforçadas ao limite pelo regime instaurado em 1948 e imunizadas contra mudanças globais por um

Estado que controla o que se diz, o que se ouve e aonde se vai.

Para os turistas, isso se traduz em alta segurança pública, por um lado, mas em pouca liberdade, por outro.

Não é possível andar a esmo pelas ruas nem deixar sozinho os hotéis. Os mais luxuosos, como o Yanggakdo e o Koryo, têm restaurante, bar, karaokê, pista de boliche e outros programas para compensar essa limitação.

Locais importantes para o governo são destinos turísticos obrigatórios. Entre eles estão a torre Juche, que permite boa vista da cidade no mirante a 150 metros de altura. 

Horizontes fotogênicos também aparecem no alto do Arco do Triunfo e no terraço do Palácio dos Estudantes.

Nos pontos turísticos, lojas de suvenir vendem bonequinhas, livros, CDs, bolsinhas de seda colorida e tartarugas e elefantes pequenos cobertos de conchinhas naturais.

O Palácio do Sol, mausoléu onde estão os corpos embalsamados de Kim Il-sung (1912-1994) e Kim Jong-il (1941-2011), é o local ideal para observar o culto norte-coreano a seus antigos líderes.

Chega-se ao palácio após rolar lentamente numa esteira de 500 metros, ao longo de um corredor tomado de fotos dos antigos ditadores.

Não se pode levar nenhum objeto, fotos são proibidas e uma escova elétrica limpa os sapatos na entrada. Guias orientam todos a deixar as mãos ao lado do corpo. 

No mausoléu, haverá dez ocasiões para reverências: uma para as estátuas dos dois líderes no monumental saguão de entrada, três em cada sala dos corpos embalsamados, e mais uma em três salas seguintes, com estátuas de Kim Il-sung, Kim Jong-il e de sua mãe, a “heroína anti-japonesa Kim Jong-suk”.

Reverências serão pedidas em outros locais, como no museu da Guerra Vitoriosa da Libertação da Pátria ou diante das estátuas gigantes da colina Mansu.

Retratos dos líderes e menções a eles são onipresentes, mas as peculiaridades do sistema não se resumem a eles. Visitas a escolas, fábricas e fazendas mostram na prática qual é o sonho do socialismo norte-coreano: um país em que o Estado tudo provê. Nas escolas e academias, escolhidas a dedo, crianças muito talentosas fazem apresentações artísticas ou esportivas.

Apesar da rigidez ideológica, o turismo estrangeiro é bem-vindo na Coreia do Norte, que lançou site para promover o país e construiu shoppings e supermercados para aproveitar o “pecado capitalista do consumismo”.

Além do tour padrão pela capital, agências organizam roteiros temáticos, como de montanhismo, caiaque, maratona, surfe ou voltados a fãs de aviação ou de trens.

Itinerários de bicicleta encontram no regime norte-coreano um ambiente propício: como ninguém viaja de uma cidade a outra sem autorização, pedala-se durante quilômetros em estradas vazias.

Recentemente, algumas empresas começaram a organizar “viagens de trabalho”, nas quais turistas participam de atividades como o plantio de arroz ou a colheita de frutas.

Algumas oferecem também oportunidades para voluntariado e cursos de idioma de três semanas em universidades como a Kim Hyong Jik, em Pyongyang.

Seja qual for o roteiro escolhido, é bom ter em mente que não há flexibilidade. Mesmo em lugares de contemplação, como templos budistas incrustados nas montanhas, há um roteiro a seguir, com tempo mais ou menos contado.

É o caso, por exemplo, do templo Pohyon, fundado em 1024 no monte Hyangsan (a 150 km da capital) e ainda residência de monges budistas. 

Suas construções de madeira, cercadas de uma paisagem impressionante, têm belas pinturas —e o silêncio do local ganharia muito sem o discurso decorado pela guia. 

Um dos prédios abriga também escrituras budistas impressas com tipos de madeira no século 13 —antes de Gutenberg, como gostam de dizer os norte-coreanos.

No templo é possível comprar frutas do local: caquis, jujubas (tâmaras coreanas) e uma pequena fruta verde bisavó do kiwi, chamada de darae. A lojinha vende também artesanato de madeira e objetos budistas, como pulseiras e colares de contas.

Em Hyangsan fica a Exposição da Amizade Internacional, um museu de presentes recebidos de estrangeiros pelos ditadores norte-coreanos, que acaba sendo incluída nos roteiros oficiais por ser parte da propaganda do regime. A melhor parte do passeio é tomar um café no terraço, de onde se veem as montanhas.

No hotel Hyangsan, há churrasco coreano (preparado na mesa) ou trutas escolhidas na hora, de um aquário ao ar livre. A culinária da região é conhecida por usar ervas medicinais, e há boas sopas com produtos da montanha, como folhas, brotos de samambaia e cogumelos.

Na região fica também a caverna Ryongmun, com salas de até 3.600 metros quadrados. As trilhas de caminhada passam pelos vales de Manphok, onde há 10 mil cachoeiras cartografadas, e Sangwon, onde ficam vários mosteiros e santuários.

O turista que tiver interesses mais específicos, que exijam mais tempo e vagar, pode se prevenir contratando tours customizados, que já levem isso em conta.

No quesito natureza, uma das principais atrações é o monte Paektu, mais alta montanha da Coreia do Norte (2.744 metros), na fronteira com a China. A cratera do vulcão foi criada na erupção de 946, uma das mais violentas dos últimos 5.000 anos. 

Sem atividade desde 1903, a cratera abriga hoje o lago Chon (paraíso), com quase 10 km quadrados. De outubro a junho, sua superfície congela.

O monte é considerado sagrado pelos norte-coreanos, por ser o local de onde Kim Il-sung teria saído para liderar a luta contra os japoneses, que colonizavam a península coreana desde 1910.

Na região fica o “campo secreto de Paektusan”, onde, segundo os norte-coreanos, nasceu Kim Jong-il, pai de Kim Jong-un (registros soviéticos afirmam que, na verdade, ele nasceu na vila de Vyatskoye, na então URSS).

No centro-oeste do país fica o monte Myohyang, que oferece uma das paisagens mais bonitas no outono. 
Nas florestas da região vivem 120 espécies de pássaros e mais de 40 mamíferos.

Cidade na fronteira tem bairro que é patrimônio histórico

Na fronteira com a Coreia do Sul está Kaesong, mais presente no noticiário por abrigar a zona desmilitarizada de Pamunjong, onde foi assinado o armistício da guerra da Coreia, em 1953.

Ali ocorreram também, em 2018, as reuniões entre os governos sul e norte-coreano.

No disputado ponto turístico, a visita é acompanhada por militares, e inclui entrar num dos pavilhões que ficam exatamente sobre a fronteira.

O mais interessante de Kaesong, porém, é o bairro histórico e o museu Koryo. A cidade foi a capital do reino Goryô (918-1392), o primeiro Estado unificado coreano, e suas muralhas, tumbas e palácios são considerados patrimônio histórico pela Unesco.

O bairro tem bem conservadas casas tradicionais brancas com fachadas decoradas com desenhos geométricos vermelhos e cinzentos, chamadas de hanok. 

No hotel Minsok, também conhecido como Folk Hotel, há quartos de piso aquecido onde se dorme à maneira antiga, sobre uma esteira no solo, e os restaurantes servem refeições históricas de 9, 11 ou 13 pequenos pratos com verduras, carnes, brotos e bolinhos de melado e castanhas.

São características de Kaesong tigelas e pauzinhos de metal de cor próxima do bronze, que eram usados pelos nobres no reino Goryô.

Outra especialidade local é o ginseng, considerado o de melhor qualidade do país. As lojas para turistas vendem chás, cremes, pílulas, farinhas e outras formulações contendo a raiz medicinal.

 

Guardado por duas árvores milenares, uma zelkova e uma gingko biloba, o museu Koryo expõe peças de cerâmica, vestuário, ferramentas e desenhos num complexo de 18 prédios que serviam como academia para oficiais durante o período feudal.

Atualmente, o principal investimento turístico do regime norte-coreano fica na costa leste. A região que engloba a cidade de Wonsan e o monte Kumgang foi designada zona turística internacional, e o aeroporto de Kalma, que dá acesso a ela, foi reformado recentemente.

O projeto inclui a construção em Wonsan de shopping-centers, aquários, piscinas, dolfinário (com shows de golfinhos) e campo de golfe.

O Kumgang é uma cadeia de montanhas com mais de 12 mil picos agudos, o mais alto deles com 1.639 metros, e despenhadeiros profundos, representados em várias pinturas norte-coreanas.

No monte fica o resort de esqui Masikryong, com dez percursos, rinques de patinação no gelo, playgrounds na neve, pistas de patinação para crianças, pistas de trenó e trilhas para ciclismo e equitação. Apesar da estrutura, ainda é pouco frequentado, segundo as agências de turismo.

O mar Kumgang, nos distritos de Samilpho, Chonksokjong e Haegumgang, se destaca por formações rochosas que se erguem no meio de águas limpas.

O forte da região são os frutos do mar, incluindo caranguejos gigantes. Macarrão gelado, um dos pratos típicos do país, aqui é feito de batata. Raiz de uma flor muito consumida como acompanhamento, o doraji do monte Kumgang é tido como especial.

Outra formação rochosa muito bonita é a de Chongsokjong. As pedras de basalto, esculpidas por vento, chuva e as ondas do mar, formam altas colunas cilíndricas. Segundo o departamento de turismo norte-coreano, a vista noturna é especialmente fantástica.

O que ver e o que comer

Pyongyang  - Cidade modelo, com lojas, restaurantes e shows para turistas e alguma visão da vida como elaéna capital do país. Pratos típicos: sopa de tainha, macarrão, panquecas de feijão verde e onban (arroz com frango)

Monte Paektu - Cratera vulcânica inativa abriga o lago Chon (paraíso). Prato: carneiro com batatas

Monte Myohyang - Belos cenários, rotas de caminhada e templos. Pratos: sopas com produtos das montanhas e trutas

Kaesong - Antiga capital do reino, com casas tradicionais, boa comida e zona desmilitarizada. Pratos: galinha com ginseng e banquetes típicos do reino Goryô, com 9, 11 ou 13 pratos

Monte Kumgang e costa leste - Lindas vistas, pistas de esqui, raras formações rochosas e praias limpas Pratos: macarrão de batata, raiz de doraj, frutos do mar

As atrações em cada estação do ano

No inverno - Bom para esquiar no monte Kumgang; em Pyongyang há shows de fogos no Réveillon e no ano novo lunar, sob 20º negativos. Em 16 de fevereiro há a mostra de kimjongilia, espécie de orquídea que homenageia Kim Jong-il

Na primavera - É a época do principal feriado norte-coreano, o nascimento de Kim Il-sung, em 15 de abril, comemorado com bailes públicos. Em abril acontece a maratona de Pyongyang. No 1º de maio há campeonatos de jogos folclóricos

No verão - O forte são as praias da costa leste, o monte Paektu (com temperaturas mais amenas) e, em Pyongyang, as festas do Dia da Vitória (27 de julho) e do Dia da Liberação (15 de agosto)

No outono - As cores das folhas no monte Myohyang deixam o cenário lindo; 9 de setembro é o dia da fundação do país, comemorado com paradas em Pyongyang. É a estação da colheita, em que os alimentos ficam mais saborosos

 

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