Chef Claude Troisgros desbrava semiárido nordestino em documentário na TV

Em programa do GNT, cozinheiro faz sua primeira buchada de bode

São Paulo

Quando a gente viaja de moto, fica assim. Se desliga de tudo, relaxa. Mas, ao mesmo tempo, pensa o tempo todo, fica horas sozinho: a cabeça pensando dentro do capacete.

É assim que se sente um dos mais importantes chefs de cozinha do Brasil, Claude Troisgros, quando todo ano larga os compromissos da vida de cozinheiro e de chef-celebridade da TV para se embrenhar dias a fio em alguma paragem erma do Brasil ou da América Latina.

Uma de suas últimas escapadas foi registrada no documentário “Claude —Além da Cozinha”, que estreia na próxima quinta (31) no canal pago GNT, o mesmo onde há anos apresenta diferentes programas de culinária, como o “Que Marravilha!”.

O destino, desta vez, foi o Nordeste: uma viagem de três semanas ao longo de 2.147 quilômetros, pelo quente interior de Alagoas, Pernambuco, Bahia e Sergipe. E sempre na moto (salvo uma rápida incursão a cavalo).

O que se descobre na tela é um Claude Troisgros que possivelmente passou despercebido do público ao longo de suas mais de três décadas de Brasil. O que temos não é o chef dedicado, pesquisador criativo e anfitrião de primeira que encantou o público carioca, e depois do Brasil todo, com seus restaurantes, dos quais a joia da coroa é o Olympe (cuja cozinha é hoje tocada pelo filho Thomaz).

Aqui o personagem é um turista aplicado e aventureiro, que, aos 62 anos, ainda adora esportes radicais e jamais se separa de sua moto, seu meio de transporte urbano, mas também companheira inseparável de suas viagens exploratórias.

Nela, parte para conhecer o rio São Francisco, “um velho sonho”. O trajeto começa e acaba em duas capitais do litoral, de Maceió (Alagoas) a Aracaju (Sergipe). 

Não são distantes uma da outra, mas o percurso despreza o litoral, descrevendo uma trajetória sinuosa pelo semiárido nordestino, visitando minúsculos povoados entre o agreste e o sertão.

Enfrentando estradas de terra —com direito a derrapagens e até a uma queda flagrada pelas câmeras—, Claude encontra ao acaso os personagens pelo caminho, a maioria dos quais nunca ouviu falar dele (“você é de Maceió?” e “por que fala desse jeito?” são algumas das perguntas a que responde).

Então ele se apresenta como um cozinheiro do Rio de Janeiro. E, na pele do turista aplicado, revela-se também, claro, um curioso cozinheiro acidental, quando a ocasião permite. 

Gosta de provar o que encontra pela frente e, para cozinhar, se mete em cozinhas simples por onde passa. Seja para fazer sua primeira buchada de bode, comer seu primeiro pitu ou destruir desastradamente o que seria um ceviche de palma (cacto muito usado ali para alimentar o gado, principalmente na seca, mas também consumido pelos moradores).

Mexer com ingredientes nacionais, mesmo pouco utilizados na gastronomia pelos próprios brasileiros, é a praia de Claude Troisgros.

Depois de três anos de Brasil, onde chegou em 1979 para trabalhar em hotel no Rio, ele abriu sua primeira casa na capital carioca, o Roanne, de onde liderou um movimento de renovação da gastronomia brasileira justamente ao incorporar produtos aparentemente banais (mandioquinha, maracujá, jabuticaba) em seus pratos de inspiração francesa.

Mas isso é outra história. Que ele também conta ao longo do filme, entrecortando memórias com seus momentos —verdadeiro motivo da viagem— de exploração da caatinga brasileira. 

Momentos que revelam seu deslumbramento com paisagens como os cânions do Parque Nacional do Catimbau (em Buíque, Pernambuco), ou, depois de muita secura, quando reencontra o mar na foz do São Francisco em Pontal do Peba, Alagoas.

É o litoral brasileiro que encantou o explorador do sertão ao conhecer o Rio de Janeiro e ali o prendeu até hoje, a principal praia desse extrovertido franco-carioca.

 

Claude - Além da Cozinha

Direção: Ricardo Pompeu. Estreia dia 31 de janeiro, às 23h30, no GNT

Erramos: o texto foi alterado

A versão anterior deste texto informava que o Parque Nacional de Catimbau se localiza na Bahia, mas o correto é Pernambuco. A informação foi corrigida. 

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