Descrição de chapéu RFI

Louvre bate recorde com 10,2 milhões de visitantes em 2018

Público do maior museu do mundo caiu após os ataques terroristas em Paris, mas voltou a crescer

Visitantes de aglomeram para fotografar a "Mona Lisa"
Visitantes fotografam o quadro "Mona Lisa", de Leonardo da Vinci, no museu do Louvre em Paris - Charles Platiau - 3.dez.18/Reuters
Marcos Lúcio Fernandes
Paris

Os atentados de 2015 na França feriram mais do que o povo francês e atacaram também um dos maiores patrimônios do país: sua capacidade para atrair milhões de turistas de todas as partes do globo. O museu do Louvre, um dos mais frequentados e o maior do mundo, viu o número de visitantes cair após os ataques, mas começa 2019 com uma boa notícia. Em 2018, a instituição recebeu mais de 10,2 milhões de pessoas, ultrapassando seu recorde anterior de 9,9 milhões em 2012.

O aumento representa 25% comparado a 2017, que teve 8,1 milhões de visitantes. Os estrangeiros de diversos países são responsáveis por cerca de três quartos das entradas no Louvre, mas os franceses são a nacionalidade principal, com 2,5 milhões de frequentadores, ou seja, 25% do total.

Os dois últimos anos foram de puro investimento no Louvre, com aumento da capacidade de acolher visitantes. As reformas custaram € 60 milhões (R$ 257 milhões) e foram financiadas em grande parte pelo dinheiro do acordo com o Louvre de Abu Dhabi, inaugurado há mais de um ano. A introdução da venda de ingressos online também reduziu o tempo de espera, seduzindo ainda mais e aumentando o movimento.

 

Entre os franceses assíduos do museu, 565.000 são estudantes. Já entre os estrangeiros, os americanos seguem liderando com cerca de 1,5 milhão de turistas. No segundo lugar, estão os chineses, com quase 1 milhão e, em seguida, estão os europeus e os brasileiros. Para diversificar a faixa etária dos visitantes –50% deles têm menos de 30 anos–, o museu vai instaurar uma abertura noturna gratuita todos os primeiros sábados do mês. Essa nova atração vai substituir a gratuidade do domingo, que conquistou pouco os franceses e atraía mais os turistas.

"Venho de Denver, no Colorado. Estamos em Paris por alguns dias e [o Louvre] é um dos lugares que temos que visitar", disse à FranceInfo uma turista americana, entrevistada em frente à famosa Pirâmide do museu. "É um lugar icônico para as artes. Vim com meus filhos e acho que é uma oportunidade para eles se confrontarem a uma outra cultura. Seria um erro não visitar o Louvre", disse uma outra, do estado da Virginia.

De arte antiga a Beyoncé: Louvre acompanhou mudança no tratamento das obras

Para o diretor do Louvre, Jean-Luc Martinez, entrevistado pela RFI, o sucesso pode ser explicado por uma maior visitação dos franceses e dos grupos escolares, que havia diminuído após os atentados de 2015. Para acolher melhor os novos visitantes, o museu instalou novos armários, bilheterias e centros de recepção de grupos.

Com relação à mudança da gratuidade do sábado para o domingo, Martinez justifica a escolha argumentando que a ideia não é "acolher mais, mas acolher melhor". "As pessoas deixavam de vir por medo de fazer fila ou de não terem repertório para entender as obras do museu, que vão desde a Mesopotâmia à Renascença italiana, e também pelo preço. Os horários noturnos do sábado respondem a estes anseios", afirma.

Os visitantes poderão reservar lugares e horários específicos para o sábado à noite, evitando, assim, as enormes filas. Eles serão também recebidos por um funcionário do museu e terão direito a uma visita guiada pelas inúmeras salas do Louvre. "Nos domingos gratuitos, as pessoas de classe mais desfavorecidas vinham menos do que as mais favorecidas, o que é um paradoxo. Com os sábados, queremos diversificar o público."

Quanto ao recorde, Jean-Luc Martinez se diz orgulhoso do feito alcançado pela instituição francesa. "Fiz meus estudos nos anos 1980 e, naquela época, nenhum museu chegava a 5 milhões de visitantes. Para minha geração, é incrível que o Louvre tenha esse sucesso. Mas estamos falando de um museu excepcional, com um prédio singular, no coração de uma cidade também especial", diz. "A abertura do Louvre de Abu Dhabi também deu renome internacional ao museu. O clipe de Beyoncé e Jay-Z também é sintomático do interesse de um público que pensávamos distantes do museu, o que, visivelmente, não é o caso."

 

fila de pessoas
Visitantes aguardam em fila para entrar no Louvre, em Paris, num dia de verão - Miguel Medina - 2.jul.15/AFP

Em 2018, os cantores Beyoncé e Jay-Z publicaram no YouTube o clipe de "Apesh**t", inteiramente gravado dentro do museu do Louvre, causando um alvoroço no meio artístico e entre os fãs dos artistas. A performance levantou o debate sobre a ausência de corpos negros na arte (ou entre os visitantes das galerias) e quebrou as fronteiras entre o popular e o erudito.

"Não diria que o clipe tenha sido essencial para a reputação do Louvre, mas é um exemplo da qualidade do museu. Ou seja, [é impressionante] que uma artista desse porte tenha se beneficiado da aura do museu e projetado seu próprio olhar sobre as coleções. É muito interessante como o clipe foi feito, é uma forma de reivindicação afro-americana. Esse diálogo, esse uso das obras do Louvre, é muito enriquecedor", declara Martinez.

"Os museus foram feitos para criar o diálogo entre os artistas, o público e as coleções. O clipe de Beyoncé e Jay-Z mostra um interesse de cultura contemporânea em um museu de arte antiga", diz o diretor do museu. O sucesso da iniciativa musical, em todo caso, foi mútuo. No site do Louvre, é possível inclusive ter acesso à lista completa das obras que aparecem no vídeo dos cantores americanos - que termina, é claro, com "Retrato de uma mulher negra", de Marie-Guillemine Benoist.

​Martinez afirma que o sucesso do Louvre também é testemunha da revolução que está ocorrendo no ramo do acesso à cultura. "Essa mudança germinou durante todo o século 20, desde o começo dos anos 1930, e explodiu no começo do século 21. Hoje, os museus são feitos para o público. Esse não era o caso nos séculos 18 e 19. Os museus na Europa foram criados para os artistas e para renovar a arte contemporânea. O público, nessa época, ficava esquecido", explica.

"Isso significa que, hoje, não mostramos mais as obras da mesma maneira e a programação das exposições, também, se transformou consideravelmente. O público nos permite tomar riscos. Por exemplo, em 2019, faremos uma exposição sobre obras antigas da fronteira entre a Turquia e a Síria, ou seja, uma área onde o patrimônio está em perigo", ressalta Martinez. "O museu serve, portanto, como sinal de alerta e de sensibilização do público à questão contemporânea, com obras desconhecidas."

Da Vinci: italianos contestam grande retrospectiva do pintor em 2019

Uma outra exposição prevista para o Louvre em 2019, a retrospectiva que comemora os 500 anos da morte de Leonardo da Vinci, também foi destacada por Jean-Luc Martinez, mas está no seio de uma polêmica com a Itália.

O empréstimo das obras para a grande exposição do fim do ano, assinado com a Itália em 2017, prevê a transferência de praticamente todos os quadros do artista até Paris. Em contrapartida, o Louvre se engajou a ceder temporariamente obras de Raphaël para uma exposição em Roma em 2020. Mas a subsecretária do ministério da Cultura da Itália, Lucia Borgonzoni, do partido de extrema direita A Liga, criticou o acordo dizendo que "os franceses não podem ter tudo".

A declaração, que ataca, na realidade, uma prática comum entre museus (e que definitivamente não é a primeira e nem será a última) levantou uma onda nacionalista no país. Alguns até exigiram o retorno da Mona Lisa à Itália.

"Esse debate é um pouco ridículo, na medida em que Leonardo da Vinci foi expulso da Itália por sua homossexualidade", analisa Stéphane Bern, responsável pela organização das celebrações sobre o pintor. "Ele foi acolhido pelo rei da França, que era mais aberto em termos de costumes, e lhe deu permissão de vir com suas obras, que nos pertencem porque foram compradas pela França. Trata-se de um ato de propriedade", conclui. O Louvre detém um terço das obras do artista, que nasceu em 1452 na Toscana e morreu em 1519 na França.

Com informações de Clément Billardello

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