Acampe em dunas, durma com zebras e acorde ao som de hipopótamos na Namíbia

País africano oferece hotéis com estrutura para camping perto das principais atrações

Rio passa por cânions na Namíbia

Fish River Canyon, no sul da Namíbia, conhecido como o segundo maior cânion do mundo, atrás apenas do Grand Canyon, nos Estados Unidos Lukas Bischoff/Adobe Stock

Namíbia

A Namíbia é o lugar perfeito para acampar, principalmente se você nunca montou uma barraca na vida —como era o meu caso e o das pessoas que me acompanharam nessa viagem de 21 dias.

O país é seguro e tem uma oferta farta de hotelaria com estrutura para acampamento. É possível armar sua própria tenda no quintal de resorts de luxo, com acesso à piscina e café da manhã de hotel.

Além de reduzir o custo do passeio —uma noite em acampamento chega a custar R$ 40 por pessoa, enquanto o quarto no mesmo local pode ultrapassar R$ 500 por pessoa—, a opção pela barraca desobriga o viajante de fazer reservas com antecedência.

Assim foi a minha viagem. O único planejamento que fiz foi uma pesquisa sobre os pontos turísticos do país. Levei uma mala com barraca, lanternas, colchão de ar e mantas, e deixei para definir o roteiro in loco, a cada manhã. 

Ao chegar à capital, Windhoek, alugamos um carro. Acampar é tão comum no país que locadoras oferecem caminhonetes com barracas acopladas. O modelo, porém, custa mais que o dobro de um carro simples. Optamos pelo mais barato e usamos nossa tenda.

Partimos pela manhã de Windhoek, onde ficamos em hotel, e dirigimos 500 quilômetros rumo ao sul do país. Na segunda noite da viagem, ainda receosos de acampar, a escolha foi um hotel na cidade de Keetmanshoop. 

Perdemos a chance de passar a noite perto de uma floresta de Aloe Dichotoma. Também chamadas de quiver tree ou kokerboom, essas plantas são um tipo de suculenta do tamanho de uma árvore, com caules que parecem ser recobertos por papel amassado. 

Aproveite para observá-las nesse ponto da viagem, porque são plantas características do sul da Namíbia

Na manhã seguinte, dirigimos para o Fish River Canyon, conhecido como o segundo maior cânion do mundo, atrás apenas do Grand Canyon, nos Estados Unidos. 

Todos os pontos turísticos têm locais para acampar por perto, mas é preciso chegar ao alojamento antes do pôr do sol, porque, se não houver vagas, ainda há tempo de procurar outra opção sem ter que dirigir à noite. 

Conseguimos uma vaga no acampamento de Hobas, localizado no portão de entrada para o cânion. 
Passamos a tarde visitando os mirantes do cânion e esperamos o pôr do sol, que muda as cores do abismo. Resultado: a barraca teve de ser montada no escuro, porque as luzes do acampamento eram fracas. 

A primeira noite é desajeitada, mas, com o tempo, a montagem da tenda vira uma diversão de poucos minutos. A única chatice é inflar o colchão todas as noites —portanto, procure levar uma bomba de ar eficiente.

Na primeira noite, você também vai se surpreender com a queda de temperatura. Durante o dia, os termômetros ultrapassam os 30ºC; de madrugada, caem para cerca de 15ºC.

Os novatos podem torcer o nariz para os banheiros compartilhados dos campings, mas não há pisos encharcados (o clima seco favorece), e os chuveiros têm água quente. 

Os pernilongos, outro pesadelo para quem não gosta de dormir ao ar livre, são espécie rara. Diferentemente dos antílopes, zebras, babuínos e chacais que o visitante pode ver por perto enquanto monta sua barraca —não se preocupe, eles mantêm distância. Nas regiões onde há predadores, como leões e leopardos, há cercas reforçadas. 

Mas há que ser realista: a vida de quem acampa tem seus perrengues. Por isso, tome cuidado com bichos peçonhentos, como cobras e escorpiões. Nunca deixe a barraca aberta e veja por onde anda.

A próxima parada é Kolmanskop, uma cidade-fantasma fundada no início do século 20 por alemães, que tiveram controle do país do fim do século 19 até a Primeira Guerra Mundial. 

Na metade do século passado, o local foi abandonado, e suas construções, tomadas pela areia. Alguns imóveis foram restaurados; outros, foram invadidos por dunas. 

Como as visitas turísticas a Kolmanskop só acontecem pela manhã, precisamos dormir por lá. Ainda estávamos no começo da viagem e não havíamos absorvido o espírito do acampamento. Escolhemos um hotel na cidade portuária de Luderitz. 

O ponto seguinte é o mais aguardado: o Namib-Naukluft National Park, que abrange parte do deserto do Namibe. Lá fica uma das maiores dunas do mundo, a Big Daddy. 

Alaranjadas, as montanhas de areia contrastam com o céu. É lá que estão os pântanos secos Sossusvlei e Deadvlei, com superfícies brancas de argila rodeadas de areia. 

Quem faz questão de ver o sol nascer na duna 45 e se pôr na duna Elim precisa ficar hospedado dentro do parque porque os portões estão fechados nesses horários. 

O acampamento da reserva, porém, é muito grande e tem banheiros antigos e distantes das barracas. A opção é acampar uma noite dentro da área de conservação, no Sesriem Camp, e a outra fora, no Sossus Oasis Camp Site, cujos banheiros de muros baixos e sem teto dão a experiência de um banho no deserto. 

Antes de ir ao Etosha, maior reserva de safári para observar animais na Namíbia, vale visitar o litoral de dunas, conhecido como Costa do Esqueleto, e alguma das tribos himba, povo nômade e polígamo, cujas mulheres se defumam em vez de tomar banho e adornam os cabelos com uma goma vermelha. 

Conhecemos uma tribo próxima ao iGowati Lodge, onde dormimos, no povoado de Khorihas, mas há outras mais ao norte em Opuwo e Kamanjab. Quando chegar ao alojamento, contrate um guia. Os himbas não falam inglês. 

No mesmo dia, seguimos para o Etosha, mas nos hospedamos do lado de fora. A poucos metros do Anderson Gate, o portão principal do parque, a infraestrutura para acampamento oferecida pelo hotel Taleni nos pareceu espaçosa, com banheiros particulares por barraca. 

Os acampamentos e resorts pelos quais passamos ofereciam churrasqueiras individuais, mas optamos por usar os restaurantes dos hotéis para os cafés da manhã (R$ 50 por pessoa) e os jantares (R$ 100). 

Ficamos três noites no acampamento: a primeira, ouvindo passos de zebras a poucos metros da barraca; a segunda, debaixo de uma tempestade de vento, por poucas horas; e, na terceira, foi preciso matar um escorpião. 

Deixamos a savana do Etosha para trás e percorremos quase 700 quilômetros em busca de mais safári, na reserva Mahango, no nordeste do país, que lembra o Pantanal.

Aos poucos, o verde começa a dominar a paisagem, e a densidade demográfica sobe. Após viajar por mais de duas semanas sem encontrar quase ninguém —a Namíbia tem cerca de três habitantes por quilômetro quadrado—, ver bastante gente é surpreendente.

Nas proximidades de Divundu, a cidade mais próxima de Mahango, começam a reaparecer placas de acampamento. Escolhemos o Nunda River Lodge e montamos a barraca às margens do rio Kavango, onde passamos duas noites ao som de hipopótamos. 

O hotel oferece passeios de barco para ver crocodilos e, todas as noites, após o jantar servido com vista para o rio, os funcionários cantam músicas tradicionais da região. 

Na estrada de volta para Windhoek, já no fim da viagem, sobrou tempo para uma trilha pesada até o topo do Waterberg Plateau, que fica na altura da cidade de Otjiwarongo. É agradável montar a barraca sobre a areia do deserto Kalahari, no acampamento do parque do Waterberg, e ter a vista da montanha colorida pelo sol ao amanhecer.

A parte mais interessante desse passeio, porém, são os javalis. Enquanto entrávamos na piscina do parque, uma dezena deles apareceu para brincar na borda. Eles ficam a menos de um metro de distância dos turistas, sem interagir, como se fôssemos da mesma espécie.

O que é preciso saber antes de acampar na Namíbia

Veículo - Alugue um carro no aeroporto de Windhoek. As empresas cobram seguro para pneus e vidros
Atendentes das locadoras recomendam carros 4x4, é possível, porém, fazer o trajeto em veículos pequenos (vai chacoalhar, mas é bem mais barato). Nos trechos onde é necessário 4x4, você pode contratar um guia.

Estradas - As rodovias na Namíbia são péssimas, de cascalho, pedra e areia. Há poucos trechos asfaltados. Não dirija à noite, há risco de acidentes com animais na pista. Abasteça sempre que passar por um posto. Você vai percorrer longos trechos desérticos sem ver nenhum outro carro além do seu
Os frentistas esperam caixinha dos turistas. Como o país não tem infraestrutura de transporte público, é comum ver pessoas pedindo carona nas estradas. Segundo moradores locais, a prática não é segura.

Pré-requisitos - Saber trocar pneu; ter em mãos a PID (Permissão Internacional para Dirigir), emitida pelo Detran, o documento é exigido nas estradas; pedir na locadora de veículos um mapa de papel, que aponte os postos de gasolina, para caso de o GPS falhar; comprar um chip local para o celular, à venda no aeroporto; ter sempre muita água e comida no carro, os restaurantes do acampamentos fecham cedo

Pacotes de viagem

 R$ 3.020 
6 noites, na Namíbia, no Submarino Viagens 
Em Windhoek, sem regime de alimentação ou extras, mas com aéreo partir de São Paulo. Preço por pessoa

R$ 9.895 
7 noites, na Namíbia, na Pisa Trekking  
Entre Windhoek, Etosha, Twyfelfontein, Swakopmund e Sossusvlei, com café, 5 jantares, 1 almoço, safáris e passeios. Por pessoa. Sem aéreo

R$ 16.500 
10 noites, na Namíbia, na CVC  
Entre Otjiwarongo, Etosha, Daamaraland, Swakopmund, Sesriem e Mariental, com café, passeios, guia e traslados. Por pessoa. Sem aéreo

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