Cruzeiro de charme no rio Negro é imersão na cultura da Amazônia

Roteiro da expedição Katerre por áreas preservadas mostra a abundância e os desafios da floresta

Árvores à beira do rio e refletidas na água

Paisagem na região do alto rio Negro, no Amazonas Heloísa Helvécia/Folhapress

Heloisa Helvécia
Novo Airão (AM)

​"Katerre”, na língua ianomâmi, corresponde ao nosso “tudo bem, tudo bom, beleza” e é o nome da expedição que leva grupos pequenos ao remoto Alto Amazonas, na região do rio Negro.

São cinco dias de navegação para explorar o Parque Nacional do Jaú, se é que dá para dizer explorar, no caso dessa reserva que é a quarta maior do país sob proteção total e a terceira floresta tropical úmida intacta do mundo.

Também superlativo e protegido, o arquipélago fluvial de Anavilhanas, um emaranhado verde e azul com 420 ilhas, está incluído no roteiro.

Tudo bem, para quem valoriza um mergulho fundo no maior estoque de água doce do globo —inclui cascatas desertas, passeios noturnos por igapós, caminhadas em mata primária, abraço gratiluz em árvore de 70 metros, socialização com boto-cor-de-rosa.

Tudo bom, para quem pode pagar por um turismo artesanal, com causa, que garante o ar-condicionado na cabine e o vinho no jantar ao mesmo tempo que expõe o viajante à realidade das comunidades isoladas, à necessidade e à precariedade da preservação na Amazônia e a projetos socioambientais sustentados pelo negócio das viagens.

Beleza. Mas ficar confinado num barco com gente desconhecida? E qual a graça de estar num éden inacessível e não ostentar nas redes sociais, já que, como avisa o material para o turista, não há conexão de internet, “tampouco se consegue o sinal de telefonia móvel das operadoras durante a navegação”?

Alguém ainda pergunta sobre o aumento dos ataques piratas nos rios da Amazônia. E sobre repelentes, claro.

O surto de dúvidas ansiosas acontece em cima do rio Negro, na cidadezinha de Novo Airão, a 195 km de Manaus, em um bar-restaurante flutuante de onde saem os microcruzeiros de charme da Katerre. 

Ali, onde o grupo aguarda a embarcação sob 38 graus, acontece o primeiro banho numa água que parece glicerina, o que afasta toda paranoia, ainda mais acompanhado de dadinhos de tapioca crocantes e drinques à mão.

Lembra frescura de resort, mas em vez de piscina de borda infinita há um oceano doce, preto e ao mesmo tempo transparente, tratado quimicamente só pela natureza: a água tem esse aspecto em razão do pH, resultante dos ácidos que se formam na decomposição de húmus no solo.

Graças à acidez, mosquitos são tão escassos quanto humanos na região. Quase não tem gente, que dirá pirata.

 

O Flor do Luar é um restaurante com píer nos moldes dos flutuantes locais, que atraem turistas e moradores com comida, bebida e banho de rio. Mas, lá, o tambaqui, o baião de dois, a farofa de tucupi bem como o cardápio regional inteiro recebem o acento da chef paulista Debora Shornik.

O nome homenageia a ilustradora botânica inglesa Margaret Mee (1908-1988) e a última expedição que ela fez à Amazônia, no ano de sua morte, para desenhar a rara flor da lua (Selenicereus wittii), espécie de cacto que só floresce à noite, uma vez por ano, e é endêmica em Anavilhanas.

Quem explica é o empresário paulista Ruy Tone, líder da expedição, sócio da Katerre e de um monte de empreendimentos no Amazonas que vão do restaurante Caxiri e da pousada Casa do Teatro, em Manaus, ao Flor do Luar e ao hotel de selva Mirante do Gavião, em Novo Airão.

Alguns dadinhos, caipirinhas e baiões de dois depois surge, duplicado no espelho do rio, o Jacaré-Açu, a maior espécie do bicho. Aqui, felizmente, é só o barco que será nossa casa nos próximos dias.

Construído de madeira no estilo convencional da região, tem uma carranca do predador na proa, 64 pés, três andares e pode levar até 16 pessoas.

No andar de cima é o solário: melhor lugar para observar aves, jacarés, botos, ariranhas e as festas diárias de sol indo e sol chegando.

No convés principal ficam a cozinha integrada à sala de refeições de onde espirram pratos da culinária caseira amazonense feitos por umas moças tímidas. Ficam ali também a área de serviço da tripulação e quatro cabines com beliches.

No convés superior há uma sala, outros quatro camarotes e a cabine de comando —e é lá que dorme Raimundo Mendes, 47 anos, nascido no rio Jaú e criado em Novo Airão, um comandante que diz amar seu ofício de carregar “gente de todo lugar”, mas que nunca quis sair de seu estado.

Fim do sinal no celular, início do detox digital e da navegação pelo “black mirror’’: o Negro é um espelho mesmo, não importa hora e lugar, sempre garante o clichê fotográfico das paisagens dobradas.

A viagem já começa com uma força da natureza chamada Josué, o guia, tocando terror na sua apresentação cheia de dados sobre o “inferno verde”. Perigos, anacondas, formigas assassinas e uma certa Ilha da Caveira para onde vamos e da qual você não vai achar, depois registro na internet, em mapa nenhum.

Neto de índia da etnia tukana e de japonês, Josué é PhD em sobrevivência na selva, deu treinamentos militares et cetera. Sua introdução ao mundo amazônico poderia ser um workshop sobre autoconfiança.

“Sou passado e escovado em casca de alho”, afirma, e quem ignora essa expressão nortista descobre mais tarde que significa alguém esperto, ladino, protegido contra o mal. Qualquer coisa, agarre na mão de Josué.

Depois do primeiro jantar a bordo, você pode escolher entre dormir no barco ou pegar uma rede na cabine e ir dormir na selva, para ter a real experiência cabocla.

Apenas as mulheres da turma optam pela alternativa dois. O subgrupo deixa o Jacaré-Açu de voadeira até o Mirante do Madadá, que é um bangalô na floresta com um banheiro e ganchos para redes. Até chegar a ele é preciso encarar, no breu, uma subida com degraus tão distantes um do outro que parecem feitos para gigantes.

No mirante, a primeira coisa que a lanterna de Josué ilumina é uma tarântula. Beleza.

A trilha curta, mas íngreme, os sons dos bichos e o balanço da rede induzem ao sono até o nascer do sol na mata. Você acorda ao relento, constata que não tomou picada de carapanã (mosquito, em amazonês) e que está de frente para uma prainha deserta e bem diagramada, na região mais preservada da Amazônia.

 

De volta ao barco, é bom caprichar no café da manhã feito à mão, incluindo pão de queijo de tapioca, bolos, sucos, biscoitos caseiros e o supervitaminado tucumã —em geleia, em suco ou ele em si, é o fruto pau para toda obra. O que te espera agora é um trekking de mais de três horas até as grutas do Madadá.

 

No caminho, Josué e seu facão dão um espetáculo que não parece muito roteirizado como costuma ocorrer. A mata primária é mutante, cenário que exige improviso.

Nesse dia o show inclui provocar formigas venenosas e explicar, tim-tim por tim-tim, como os índios preparam luvas com folhas recheadas dessas assassinas para que os garotos enfiem suas mãos e as deixem lá por horas. É uma prova de coragem e espécie de imunização que marca a passagem da puberdade para a fase adulta. O ritual é vivo hoje em muitas tribos.

Quando você acha que não consegue mais dar um passo naquele mato úmido e no calor de 37 graus, você chega às grutas do Madadá.

É um azar (ou uma sorte) que a logística complexa prive tanta gente de conhecer esses dois conjuntos de rochas, formados há mais de 700 milhões de anos por blocos de arenito de vários tons. Também diversa em cores, do verde ao vinho, a vegetação de selva equatorial decora, com as teias de aranha, os salões de pedra.

Para descansar da andança, o programa seguinte é provar mais uma das praias que se formam no Negro, já que o mês é outubro, período de vazante, com muitos bancos de areia. O nível da água varia em até dez metros de altura entre a seca e a enchente —que vai de fevereiro a julho. Agora, a paisagem é outra.

Ainda mais inesperada é a cidade-fantasma de Airão Velho, na confluência do Negro com o rio Jaú. São umas ruínas que incluem paredes de casarões coloniais, mas também uma escola de ocupação mais recente, tudo abandonado, atacado por mato, raízes e cipós de todos os lados.

Há vestígios do primeiro povoado português ali, erguido por missionários em 1694, e sobras do que foi o centro mais importante da região durante o ciclo da borracha.

E se ainda sobra algo para olhar é graças a um senhor fofo e franzino nascido há 65 anos, diz, em Fukuoka, no Japão: Shigero Nakayama, único morador de Airão Velho, guardião das memórias do lugar. 

Ele decidiu, em 2001, viver sozinho naquele filme de terror e cuidar do patrimônio.

Nakayama recebe os visitantes com um facão na mão, uma evidência de que é caboclo, não é mais japonês, apesar do sotaque forte. Na sua casa de madeira, um quartinho foi transformado em um museu singular. De cara, você vê uma pin-up peituda montada em uma fera, num pôster velho pregado na parede.

O clima é de borracharia, o tema é o ciclo da borracha.

Uma pintura naïf mostra como a vila era no tempo de glória. E há objetos importados desenterrados de escombros, telhas portuguesas, coisas que atestam o luxo em que viviam os “coronéis do barranco” (seringalistas).

O acervo inclui utensílios de cerâmica feitos por indígenas, do tempo da aldeia que havia ali antes da colonização. A região toda tem marcas desses antigos moradores, como petróglifos (gravuras rupestres), visitados pela expedição.

Sempre que recebe pesquisadores, estudantes, turistas e jornalistas, Nakayama conta como Airão Velho faliu depois da Segunda Guerra, quando o comércio da borracha secou de vez. Os moradores abandonaram o lugar, a maioria foi transferida para a atual cidade de Novo Airão, daí o nome. A última família saiu nos anos 1980. Mas, segundo a lenda, a população foi expulsa por formigas de fogo gigantescas.

“Airão Velho é conhecida mundialmente hoje só por causa de mim, tudo saiu da minha cabeça”, diz Nakayama, e mostra o xerox plastificado da reportagem publicada três anos atrás no jornal The New York Times, com outros recortes sobre o “eremita da Amazônia”. “Não é só Manaus, o interior tem muita riqueza’’, ele avisa aos navegantes.

Que naquele momento aproveitam as molduras da cidade morta para fazer selfies, enquanto o homem segue no papel de guia. Aponta restos das ruas de pedra, lápides comidas por selva, a andiroba de sua farmácia particular, o urucum e o buriti.

Chega de história. O barco zarpa com destino à base flutuante do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), na entrada do Parque Nacional do Jaú, onde cada um que passa é identificado, assina um livro, ganha um papel com carimbo.

Já são dias sem internet, os passageiros querem dar um salve ao pessoal de casa. A esperança é que o órgão federal libere o sinal e o grupo possa se comunicar um minutinho. Mas não libera, não.

O consolo é a navegação pelo espelho do Jaú, no início do parque que desde 2000 tem o status de patrimônio natural da humanidade.

A área protegida pega quatro municípios de dois estados (Amazonas e Roraima), tem 2,4 milhões de hectares, um perímetro de 1.213 quilômetros e, diz a estatística oficial, um jacaré por quilômetro. Detalhe: é fiscalizado por um exército de três funcionários do ICMBio. Há mais três para Anavilhanas e outros três para a reserva do rio Unini.

O Jaú é o centro de um sistema aquático composto por mais dois rios grandes: o Unini, ao norte, e o Carabinani, de leito rochoso, ao sul.

A gente deixa o barcão e segue de barquinho até a cachoeira do Carabinani, para uma hidroterapia em jatos cor de âmbar que despencam das pedras. Ninguém mais parece se lembrar de que continua incomunicável.

À noite, o passeio de canoa para observar jacarés vale pela experiência de imersão na escuridão da água e da floresta. Ecoturistas curtem esse negócio de focagem noturna de animais, mas algum mais fundamentalista vai se sentir desconfortável ao ver o guia enfiar a lanterna na cara do filhote, pegá-lo nas mãos (o que vimos estava sem uma patinha) e desfiar uma aula completa de zoologia, para aflição da criatura aprisionada.

A aventura amazônica precisa incluir o homem, então a expedição visita uma das 14 comunidades que restaram no Parque Nacional do Jaú. A reserva foi criada em 1980, na ditadura militar, em um ato que desprezou a situação de famílias que ali viviam e que foram sendo expulsas com a pressão das proibições.

A tensão entre a cultura tradicional dos moradores —caçar, pescar, queimar e derrubar para viver— e a necessidade de preservar a floresta está lá até agora.

Na comunidade Cachoeira do Jaú, com 45 pessoas, o grupo forasteiro conhece a casa de farinha em que adultos e crianças, sentados em círculo, descascam mandioca.

Pamela, 6, trabalha com um facão maior que a mão dela. Tudo bem, porque facão está para criança ribeirinha como celular para criança urbana.

Lá não tem celular nem orelhão, mas tem banheiros, uma conquista recente: a expedição Katerre construiu fossas sépticas na escola, em parceria com a secretaria da Educação de Novo Airão. 

Na sala de aula há alunos misturados do segundo ao nono ano. “Levo os cadernos dos pequenos, passo tarefinha, chego aqui, dou atenção para os da frente, enquanto copiam aqui, dou atenção para os outros. É suado”, diz a professora Márcia Oliveira.

Os moradores de Cachoeira são parceiros na proteção ambiental. Sibá, o líder, diz que caçava e matava. Calhou de trabalhar como ajudante em trabalhos de campo do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), aí mudou a cabeça.

Hoje, ajuda no monitoramento de aves, mamíferos, borboletas e principalmente de quelônios: tartaruga-da-amazônia, tracajá, irapuca e iaçá. O projeto envolve intervenção humana para proteção dos ovos até a eclosão e, depois, a soltura dos filhotes na água, numa tentativa de aumentar a população das espécies, que diminui ano a ano.

 

Gavião pega ovo de tartaruga, piranha pega filhote, mas a ameaça maior aos bichos de casco é o homem mesmo. “Nossos filhos estão com fome, mas tem caboclo comendo o que estamos protegendo, tem gente fazendo zoeira de voadeira e assustando tartaruguinha na ponta da praia.”

A praia em questão é uma ilha fluvial em frente à casa de Sibá, onde ele planta os ovos e monitora os filhotes, lugar conhecido como praia do Sibá.

O líder critica a atuação do ICMBio: “Queria ser o chefe do parque do Jaú, ia dar tanta chulapa em cabra sem vergonha que rouba. Porque quem está no ar-condicionado não sabe da realidade que se passa aqui, fecha os olhos para o tráfico de quelônio. Não botam pressão, então continuam levando”, ele diz.

Muito longe, na sede do instituto do ICMBio, em Novo Airão, a chefe do parque, Mariana Leitão, uma bióloga carioca de 40 anos, vai explicar depois que não pode dar chulapa nos moradores de comunidades que infringem a lei nem confrontar o comércio local, sob o risco de ficar sem ambiente na cidade em que mora.

“Temos nossa vida aqui, se bater de frente com comércio local você não compra mais nada na cidade, o cara da esquina onde você compra, sabe? A gente não tem como lidar com essa coisa complexa.”

Há dois anos, foi feita uma fiscalização integrada com a Polícia Federal, pegaram uma canoa cheia de bichos de casco no rio Jaú, eram moradores de uma comunidade mais isolada. Reincidentes, ficaram dois meses no presídio de Manaus.

“A farinha tem preço muito baixo, tráfico é um dinheiro mais fácil”, diz Mariana. 

Embora exista só uma entrada oficial para o parque, na foz do rio Jaú, onde está a base do instituto, há furos. Pelos igarapés tem entra e sai de gente, o tráfico de tartaruga passa escondido direto pelo rio Carabinani, que é desabitado, sobe, vai para o alto, pesca lá dentro, arrasta as canoas.

“Isso é consolidado. Comerciantes em Novo Airão pagam essas pessoas, dão combustível, rancho, alimentação. Muitos já foram pegos, dormem na cadeia, no outro dia estão soltos. A gente apreende motor, apreende canoa, no outro dia esses comerciantes compram outro motor e outra canoa”, diz a chefe do parque.

 

A expedição está quase no fim. O grupo se despede da tripulação do Jacaré-Açu como quem deixa a família.

Após o desembarque, é hora de conhecer, em Novo Airão, a Fundação Almerinda Malaquias, fundada por um suíço há 20 anos, que dá educação ambiental a 150 crianças e capacitação profissional para jovens por meio do design em madeira e da técnica de marchetaria. 

As peças são feitas com madeiras locais certificadas, restos descartados pelos estaleiros da cidade. Uma loja própria vende os objetos que saem das oficinas.

A organização tem 32 hectares de floresta primária, a seis quilômetros do centro de Novo Airão, onde está sendo implantado, com apoio do governo japonês e da associação suíça Ailleurs Aussi, um laboratório de pesquisa ambiental.

“Temos dois eixos: geração de renda para 40 famílias, com captação de recursos e criação de canais de venda;e educação de crianças e jovens, com aulas de ecoturismo e horta orgânica, para disseminar o conhecimento da floresta, a importância de mantê-la de pé”, diz Ruy Tone, presidente da fundação, que

tem entre mantenedoras tanto a Katerre como o hotel Mirante do Gavião. 

“Nosso trabalho é retardar ao máximo o processo de degradação da Amazônia, que avança. Nossa luta é uma longa derrota”, afirma Tone.

A jornalista viajou a convite da Expedição Katerre

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