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Bienal promove caça a obras de arte em deserto na Califórnia

Evento espalha esculturas e outras peças por Coachella, no sul do estado norte-americano

Fernanda Ezabella
Palm Springs (Califórnia)

Num sábado ensolarado de fevereiro, a enfermeira americana Terri Dauber acordou seu filho de 10 anos com uma promessa: “Hoje é dia de caça ao tesouro”, disse. Com uma câmera pendurada no pescoço e um mapa em mãos, a mãe levou o pequeno para uma expedição de mais de um dia.

A dupla foi atrás das 18 obras de arte espalhadas pelo deserto do Vale de Coachella, no sul da Califórnia, que fazem parte da segunda edição da bienal Desert X, em cartaz até 21 de abril. A localização de todas as peças está disponível em desertx.org.

“Começamos pelo nosso bairro”, disse Dauber, moradora de Desert Hot Springs, cidade repleta de spas. “Amanhã desceremos de carro até Salton Sea (na realidade, trata-se de um lago, o maior da Califórnia). Nem lembro a última vez que passei por lá.”

Para locais e visitantes, a exposição ao ar livre é uma chance de explorar a região. Com menos de 400 mil habitantes, o Vale de Coachella é composto por meia dúzia de cidades, como Palm Springs e Indio, onde acontece em abril o festival de música Coachella.

Boa parte de suas ruas e avenidas parece terminar ao pé de uma montanha, formando uma paisagem única. Há ainda o deserto de vegetação rasteira, estradas decoradas por fileiras de palmeiras e um inesperado verde das plantações de uvas, tâmaras e pimentas.

Alguns artistas da Desert X escolheram locais emblemáticos para instalar as suas obras. Kathleen Ryan plantou a sua “Árvore Fantasma” em um trecho da falha geológica de San Andreas. Feita de plástico, vidro e ferro, a escultura de seis metros de altura parece uma miragem e balança com o vento, emitindo um barulho metálico.

Nancy Baker leva os visitantes para perto das monumentais turbinas eólicas que pipocam nas colinas do vale. Para ver o trabalho dela, é preciso instalar um aplicativo no celular que mistura realidade com desenhos virtuais.

Já a obra da mineira Cinthia Marcelle propõe de fato uma viagem pela região. Ela ocupa cinco lojas desativadas em cinco cidades do vale. Pela vitrine, o visitante vê uma TV que exibe imagens da vitrine de outra loja, com o aviso de “mudamos” e o endereço da próxima parada.

Assim, Marcelle leva o público até a turística e rica Palm Springs e também pela cidade de Coachella, bem mais simples, de população majoritariamente latina e apinhada de restaurantes e murais mexicanos. A última televisão mostra cenas de Tijuana, México, numa proposta artística de passagem imaginária pelo tempo e espaço.

A estrela do vale é sem dúvida o Salton Sea, hoje praticamente um lago fantasma, que inspirou alguns artistas da bienal, como a dançarina argentina Cecilia Bengolea.

Ela fará uma performance, ainda sem data, perto da escultura que instalou na beira da água. A peça retrata mulheres dançando em meio a animais híbridos como tubarões-cavalo e aranhas-coruja.

A estranheza da obra casa com a história do lago, de 900 quilômetros quadrados, criado por acidente em 1905, quando desviaram água do rio Colorado para irrigar plantações locais. 

Décadas depois, nos anos 1950, o local viveu seu auge com a chegada de resorts, abandonados mais tarde com a decadência do lago. A alta salinidade, a seca e a poluição mataram, ao longo dos anos, centenas de peixes que viviam no Salton Sea.

Hoje, esses animais sumiram de vez, e resta uma boa quantidade de pássaros, num cenário meio alienígena: as margens são tomadas por uma espuma de tons esverdeados, com areia por todos os lados. Moradores do vale lutam com autoridades para que o lago seja salvo, já que ele encolhe rapidamente.

A obra do colombiano Iván Argote oferece uma boa vista do local. Num terreno abandonado, ele construiu cinco escadas de cimento que levam a pequenas plataformas de madeira, de onde é possível admirar a paisagem.

“É um lugar para pensar, lembrar dos imigrantes que habitam o vale ou da situação ecológica do lago”, disse Argote. “Espero que a comunidade aproveite as plataformas”, acrescentou.

Certas obras têm menos impacto que o lugar que habitam, como uma escultura  instalada numa das propriedades mais glamourosas de Palm Springs, a Sunnylands, conhecida por seus muros cor-de-rosa, localizada entre as ruas Frank Sinatra e Bob Hope.

O espaço, que conta com campo de golfe e diversos lagos, já recebeu oito presidentes americanos e é palco de encontros diplomáticos. São disputados os ingressos (US$ 48 ou R$ 148) para visitar a casa luxuosa, que abriga um acervo de réplicas de obras de arte. A visita aos jardins —e à peça do Desert X— é gratuita.

O rosa de Sunnylands inspirou o coletivo dinamarquês Superflex, que criou quatro imensos blocos da mesma cor e os instalou na entrada do parque desértico Ralph Adams, cheio de trilhas e espaços para piqueniques. 

Nas tardes de sábado, é exibido no local, ao ar livre, um vídeo que mostra uma estrutura idêntica cercada por peixes no meio do oceano.

“Peixes amam corais cor-de-rosa, e vejo que a cor é muito popular aqui em Palm Springs”, afirmou Rasmus Nielsen, do Superflex, lembrando que há milhões de anos o vale era tomado pelo mar.

De fato, dizem que o nome Coachella vem de “conchilla” (concha, em espanhol), dado pelos colonizadores espanhóis ao acharem fósseis de vida marinha na região.

“Com os níveis dos mares subindo, as criaturas marinhas vão tomar nossos espaços”, afirmou Nielsen. “E quando os peixes voltarem para cá, vão adorar Palm Springs.”

PACOTES

R$ 3.360
5 noites, no Submarino Viagens
Em Los Angeles, sem regime de alimentação. Valor por pessoa. Inclui passagens aéreas a partir de São Paulo com uma bagagem despachada e uma de mão

US$ 1.299 (R$ 5.001)
6 noites, na BWT 
Entre Los Angeles e São Francisco, sem regime de alimentação. Inclui sete dias de locação de veículo e seguro-viagem. Preço por pessoa. Sem passagens aéreas

R$ 5.780 
3 noites, no Submarino Viagens 
Em Palm Springs, sem regime de alimentação. Preço por pessoa. Inclui passagens aéreas a partir de São Paulo com uma bagagem despachada e uma de mão

R$ 8.705 
3 noites, na CVC 
Em La Quinta (cidade no vale de Coachella), com café da manhã. Inclui aéreo a partir de Los Angeles e locação de automóvel, mas não passagens a partir do Brasil. Valor por pessoa

US$ 3.004 (R$ 11.565) 
3 noites, no Kimpton Hotels 
Em Pal m Springs, sem regime de alimentação. Inclui empréstimo de bicicleta, café, chocolate quente e chá como cortesia pelas manhãs e taça de vinho como cortesia à tarde. Preço por pessoa. Sem aéreo
 

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