Região de Carmelo, na costa oeste do Uruguai, atrai pelos bons vinhos

Local tem vinícolas abertas para degustação, ruínas de estâncias jesuítas e passeio pelo rio da Prata

Roberto de Oliveira
Carmelo (Uruguai)

Em meio ao cenário monótono dos pampas que domina as quase três horas de estrada entre a capital uruguaia, Montevidéu, e a cidade de Carmelo, eis que surge a recompensa: uma sucessão de plátanos de até 15 metros de altura a compor um túnel verde. 

Chegamos à “Toscana latino-americana”. Assim chamado em alusão à famosa região vinícola da Itália, esse trecho de enogastroturismo da costa oeste uruguaia, nos arredores de Carmelo, ganhou fama graças à qualidade dos vinhos produzidos no microclima gerado pela união dos rios Uruguai e Paraná.

 

Ao deixar o corredor ecológico para trás, avistamos Carmelo. Para acessá-la, passamos sobre uma ponte giratória que cruza o córrego Las Vacas, a única na América do Sul na qual o içamento é ainda realizado por tração humana.

Logo se percebe uma atmosfera nostálgica, tanto nas ruas de paralelepípedo quanto nas estradinhas de terra, tomadas por vinhas. Moradores passeiam a cavalo. Motocas e carros da metade do século passado transitam pela zona urbana com cara de rural.

A pequenina Carmelo, hoje com cerca de 20 mil habitantes, foi fundada em 1816 pelo herói nacional José Artigas (1764-1850). A missão de povoamento, porém, coube a imigrantes, sobretudo italianos e espanhóis, que iniciaram a produção de vinho. 

Localizada no departamento de Colonia, atrai muitos brasileiros graças a suas vinícolas. Seis delas abrem as portas a interessados na degustação e àqueles que querem acompanhar o processo de produção de vinhos.

A mais encantadora delas é a bodega Narbona Wine Lodge, que, fundada em 1909, conserva sua arquitetura original. 

As degustações são harmonizadas geralmente com queijos —custam de US$ 18 (R$ 73) a US$ 40 (R$ 162).

Famosa por vinhos de alta qualidade (das variedades tannat, pinot noir, petit verdot, viognier e syrah), a Narbona é uma das primeiras vinícolas do Uruguai. Seu concorrido restaurante é aberto ao público. No fundo, um armazém vende geleias, queijos e doce de leite, um dos melhores do país, tudo produzido na propriedade.

Na estrada dos Peregrinos, a 1,5 km do centro, a bodega Cordano – Almacén de la Capilla é tocada pela quinta geração da família de italianos que chegou ao Uruguai em 1870. Convém maneirar na bebida, pois, dali, vale a pena subir a colina em direção à igreja de São Roque, de 1869.

A Cordano é uma vinícola pequena e tradicional. Utiliza o antigo armazém para oferecer produtos locais. É frequentada por forasteiros e moradores das vizinhanças.

Ao lado dela fica a Campotinto, que une pousada, restaurante e produção própria. 

Premiada internacionalmente, a Família Irurtia, de 1913, produz cerca de 20 variedades de uva. É conhecida sobretudo pelo tipo tannat.

Para quem procura um clima mais acolhedor, tipo fazenda da titia, a pedida é a bucólica Bodega Zubizarreta. Sem opção de hospedagem, essa vinícola, criada em 1957, elabora vinhos artesanais com características jovens e frutadas. 

É conduzida pela terceira geração de um imigrante basco. A degustação ocorre na lateral de um casarão arborizado, num bate-papo descontraído com a simpática herdeira. 

Dez minutos de carro e lá estão as ruínas da estância jesuítica de Belén, mais conhecida como Calera de Las Huérfanas —os jesuítas se estabeleceram às margens dos rios Uruguai e Paraná, onde construíram 32 assentamentos durante os séculos 17 e 18.

O encontro dos dois rios é sinalizado pelo Marco Zero do rio da Prata no balneário de Punta Gorda, distante 20 minutos de carro de Carmelo.

É possível fazer o passeio de barco. A rota mais interessante parte da marina de Porto Camacho com a missão de apreciar o pôr do sol.

Engana-se quem pensa que Carmelo é um lugar para se descobrir numa viagem bate e volta. Está mais para “slow travel”. Como uma boa taça de vinho, ela se revela, devagarinho, cada vez melhor.

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