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Festival em Tiradentes celebra a cozinha mineira

Evento do projeto Fartura reúne culinária de raiz e reinvenções de clássicos até dia 1º de setembro

Pessoas andando em rua

Público no Largo das Forras, em Tiradentes, durante o Festival Cultura e Gastronomia Lucas Chagas e Bruna Brandão/Divulgação

Biti Averbach
Tiradentes (MG)

​Iniciado no sábado (24), o Festival Cultura e Gastronomia Tiradentes, parte do projeto Fartura, recebeu cerca de 25 mil pessoas no primeiro final de semana.

O evento, que acontece até 1º de setembro em Tiradentes, Minas Gerais, reúne estandes de chefs, degustações, aulas interativas, preparação de pratos ao vivo e palestras. Veja a programação completa em farturabrasil.com.br.

Em sua 22ª edição, o festival tem como missão chamar atenção para a procedência e a qualidade dos ingredientes. 

"Nosso objetivo é aumentar a cultura gastronômica. Para isso, precisamos despertar a curiosidade sobre o que está por trás do prato: os ingredientes e as histórias dos produtores", diz Rodrigo Ferraz, diretor do evento.

Ao conhecer a procedência da comida, as pessoas passam a adotar melhores práticas alimentares e a valorizar os pequenos produtores, de acordo com ele. "Isso tende a aumentar a autoestima e a renda de quem produz. Assim, os benefícios se distribuem por toda a sociedade."

Com estande na praça da Rodoviária, a chef Mariana Gontijo, do armazém e restaurante Roça Grande, em Belo Horizonte, é uma defensora da cultura alimentar caipira. Ela utiliza alimentos que já foram corriqueiros na culinária do interior, mas acabaram esquecidos, como umbigo de banana (estrutura em formato de coração ligada ao cacho). 

Para o evento, levou pastéis de angu com três opções de recheio: carne de lata, taioba e requeijão de raspa; carne moída com umbigo de banana e requeijão de raspa; e abobrinha com queijo de Araxá. 

Gontijo explica no evento como os ingredientes eram usados no passado. "Nós, cozinheiros, temos o dever de preservar a riqueza cultural da alimentação caipira, suas técnicas e seus ingredientes." 

Quem gosta da comida mineira de raiz não irá se decepcionar. Há pratos como feijão-tropeiro de Vicente Teixeira, do Estalagem do Sabor, e arroz de rabada da Biroska, que será preparado ao vivo por Luiza Lacerda, no sábado (31). 

Há ainda versões reinventadas de pratos da culinária regional, caso do prato "um porquinho de cada", composto por lombinho, costelinha e panceta desfiados, com molho barbecue de goiaba caseiro. Ele pode ser experimentado no estande do restaurante Ora Pro Nóbis, de João Lombardi. 

Pela primeira vez, estão no festival de gastronomia de Tiradentes dois restaurantes que apostam em comida vegetariana, Cultivo e Plano B. 

Lucas Pereira, chef do Cultivo, capricha nos sabores e nas texturas para surpreender. "Algumas pessoas têm preconceito com a culinária vegetariana, mas é uma alimentação inclusiva, que pode ser muito saborosa", afirma. 

Seu escondidinho de batata-baroa e inhame tem jaca e espinafre gratinados com queijo catauá. O prato mais pedido é o hambúrguer de feijão e funghi, que vem com crosta de queijo catauá, geleia de pimentão trufada, tomate e alface. Para veganos, há queijo feito de mandioca. 

No Plano B, de Mariana Cavalcanti, o cardápio é enxuto. Ela oferece tostones de origem caribenha (cestinhas preparadas com banana-da-terra verde frita), com recheios de carne, peixe ou ragu de jaca, temperado com alcaparras, geleia de tomate e cebolinha.

"As pessoas estão muito curiosas com a jaca. Nós explicamos que o sabor é algo entre o palmito e a alcachofra, com textura de um franguinho desfiado. Muita gente topa experimentar e gosta", conta.

Festival apresenta variedades de queijo além do Canastra

Ícone da culinária mineira, o queijo evoluiu muito nos últimos anos. Hoje, cada peça tem características únicas, dependendo da região e das técnicas usadas na sua produção. 

Eduardo Girão, jornalista gastronômico especializado em queijos, que organizou uma degustação na loja Ouro Canastra Q'jaria, no sábado (24) explica por que Minas tem uma posição de liderança no segmento queijeiro. 

"O primeiro motivo é a tradição, fazemos há muito tempo. O segundo é a qualidade, pela qual somos reconhecidos nacionalmente. E o terceiro é a diversidade, pois fazemos muitos tipos de queijo."

O mais popular é o artesanal mineiro, feito de leite cru. É fabricado no estado inteiro, mas só é reconhecido em sete microrregiões, sendo a Canastra a mais famosa. As outras são Araxá, Campo das Vertentes (onde está Tiradentes), Cerrado, Serra do Salitre, Serro e Triângulo Mineiro. 

A fama tem causado confusão entre os consumidores. "As pessoas começaram a usar o nome Canastra como se fosse um tipo de queijo, quando na verdade é uma região", diz Girão. 

"Originalmente, ele era consumido branco, fresco ou amarelado, em versão meia cura. Quando a casca mofava, os produtores lavavam, ralavam para fazer pão de queijo ou até mesmo jogavam para alimentar os porcos", diz.

Mas o cenário mudou à medida em que os fabricantes perceberam que os queijos maturados tinham grande valor agregado. 

Altitude e clima, entre outros fatores, ajudam a determinar as características do produto e definem o terroir, a exemplo de queijos franceses.

Aos poucos, os novos queijos minas artesanais produzidos no Brasil têm seduzido a crítica. No concurso Mondial du Fromage deste ano, realizado na França, o Brasil conquistou 56 medalhas. Um feito e tanto, quando se observa que, até 2015, o país havia ganho uma única medalha. 

No festival em Tiradentes, os queijos aparecem de várias maneiras. Como coadjuvantes, em pratos como o ravi-ora, ravióli artesanal de lombo, com ora-pro-nóbis e molho de queijo curado da região, obra da chef Fabiana Porto, da Taberna dos Inconfidentes. Ou como protagonistas, em degustações.

Da terceira geração de uma família de produtores, Hugo Almeida, da loja Ouro Canastra Q'jaria, convidou Eduardo Girão para formular a harmonização de sete queijos com quatro cervejas, no jardim da loja Marcas Mineiras.

"Há cinco ou seis anos, seria impensável realizar um evento como esse. Os consumidores só consideravam bons os queijos importados. E os produtores jogavam fora qualquer queijo que apresentasse mofo", diz Almeida. 

Mais inusitada, a degustação realizada por Girão em parceria com a consultora e pesquisadora de chocolates Juliana Ustra propôs, no Espaço Degustação Senac, a experiência de provar chocolates e queijos ao mesmo tempo. 

"Quando estávamos fazendo a pesquisa para este evento, provamos cinco queijos com 30 chocolates diferentes, em uma tarde. E entendemos que juntos, esses dois alimentos trazem um terceiro sabor", conta Ustra. 

Durante o festival, os queijos minas artesanais também podem ser encontrados no estande Produtores Origem Minas, na praça das Forras. Lá, Alírio Campos, produtor rural da região do Serro, cuja família se dedica à produção queijeira há 150 anos, coloca à venda o queijo Ferreira Campos, com mofo desenvolvido naturalmente. 

No mesmo local, é possível encontrar outras marcas de queijo do Serro, como Dinastia Pimenta, Cachoeira, Santana, Ventura e Maria Nunes, no estande da Associação de Produtores de Queijos do Serro, por cerca de R$ 60 a peça (de 700 a 800 gramas). 

Há também outros produtos típicos como cachaça, café especial e doces. 

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