Descrição de chapéu The New York Times Destinos

Próxima de Veneza, Treviso conserva ares de Itália autêntica

Lugar oferece calmaria, passeios por edifícios medievais e muito prosecco

Treviso (Itália) | The New York Times

Quem estiver na região de Veneza e quiser respirar um ar autêntico italiano pode ir a Treviso. Treviso? 
Quem, em seu perfeito juízo, abandonaria Veneza, lar de um labirinto de tesouros arquitetônicos, artísticos e históricos, por Treviso, geralmente esquecida, mais conhecida pelo radicchio vermelho, pelos casacos coloridos da marca Benetton (fundada na cidade) e pela Fonte dos Peitos, estátua de uma mulher com os seios de fora.

De certa maneira, a escassez da cidade é sua salvação, assim como a abundância de Veneza é sua ruína.
Veneza tornou-se indiscutivelmente a capital europeia do “overtourism” (turismo excessivo). O neologismo se refere às hordas de turistas que devastam os bairros e a essência de algumas das cidades mais apreciadas da Europa. Barcelona (Espanha), Amsterdã (Holanda) e Dubrovnik (Croácia) estão na mesma situação.

Treviso é um lugar para se reabastecer de cultura e das maneiras modernas de uma cidade italiana que, de fato, fala italiano.

Canais, com trutas nadando, também correm na cidade. E há moinhos de água, antigamente usados para fazer pão para a Marinha da República de Veneza. Eles ainda rodam, embora agora sejam apenas para exibição. 

Na confluência dos rios citados em “Paradiso”, última parte da “Divina Comédia”, de Dante Alighieri —“onde Cagnano se encontra com Sile”, diz o trecho—, corredores e ciclistas partem em passeios.

Depois que os fiéis fazem suas orações na igreja de São Francisco, onde o filho de Dante está enterrado em frente à filha do poeta Francisco Petrarca, os locais partem para a hora sagrada dos coquetéis, quando spritzes e proseccos são venerados.

O prosecco é produzido nas colinas circundantes, salpicadas de vilas. Na ilha do Mercado do Peixe, localizada entre dois canais, centenas de moradores saboreiam uma enorme variedade da bebida. Garrafas emergem de camas de gelo, como a captura fresca de um pescador. 

Virando a esquina, pessoas elegantes se reúnem em torno das mesas no exterior da Osteria al Corder, em frente à loja de porcelana Morandin. 

Já a turma boêmia prefere a Osteria Muscoli, onde idosos passam as manhãs, e acalma o espírito com sanduíches de carne de porco salgada.

Quase todo mundo parece atraído pela Cantinetta Venegazzù. O bar de vinhos localizado sob o hotel Il Focolare, onde John Grisham escreveu “O Corretor”—um thriller esquecido, como a própria Treviso—, atrai à noite uma multidão. 

Logo em frente fica o restaurante onde, de acordo com a lenda, nasceu o tiramisù, e onde se fala em abrir um museu dedicado à sobremesa.

“É melhor que alguém toque sua mulher do que seu tiramisù”, dizem os locais.

Ainda no quesito comida, a massa tradicional da cidade é a bigoli in salsa, um espaguete grosso banhado em molho de cebola e anchova. O restaurante Toni del Spin é conhecido por sua versão.

Numa caminhada, a reportagem cruza com o prefeito da cidade, Maio Conte, que se dirigia ao restaurante Odeon alla Colonna, onde homens de negócios almoçam camarão com amêndoas e macarrão feito com café.

Apesar da calmaria, Conte gostaria que mais pessoas visitassem a cidade.

“Queremos que as pessoas venham até aqui porque escolheram Treviso, não porque há gente demais em Veneza”, afirmou.

Há investimentos para isso. Um novo ônibus expresso faz em 15 minutos o trajeto até o aeroporto da cidade, um polo para companhias aéreas de baixo custo frequentemente usado para servir Veneza. 

A cidade está trabalhando para eventualmente tornar o ônibus parte de um pacote que incluiria entradas para os museus de Treviso e uma passagem de trem para Veneza. Segundo Conte, o objetivo é usar ofertas culturais para atrair visitantes que queiram passar duas noites por lá.

“É uma opção que fizemos”, disse Conte, “para elevar o nível dos visitantes.”

A cidade não é a única preocupada com o “nível dos visitantes”. Em tempos de TripAdvisor, quando cada restaurante, quarto de hotel e paisagem são classificados, muitos lugares também começaram a avaliar os turistas —quanto tempo permanecem e quanto gastam. Um estudo recente descobriu que um turista que viaja de ônibus gasta apenas US$ 5,40 (R$ 21,40) por dia em sua cidade de destino.

Mas alguns locais estão se tornando cada vez mais sensíveis a quanto os turistas melhoram a imagem que eles próprios desejam projetar e o quanto danificam essa mesma imagem ou a cidade e os seus monumentos.

Faz sentido, mas é arriscado. Em uma época de populismo em alta, desaprovar a democratização em massa do turismo pode parecer elitista. 

Cerca de 1,4 bilhão de pessoas, o dobro de 20 anos atrás, passaram a noite em algum lugar fora de casa no ano passado. E os números continuam subindo. Mais de 100 milhões de turistas hoje partem da China, número que deverá quadruplicar nas duas próximas décadas. 

Em Trieste, outra cidade do norte da Itália que espera se tornar uma base para os turistas de Veneza, foi lançado recentemente um navio de cruzeiro projetado para o mercado chinês, com uma decoração inspirada nas ruas, nos canais e nas praças venezianas.

Para muitas cidades, porém, o turismo tornou-se uma coisa boa. Como alguns lugares lotados adotaram uma espécie de abordagem “sem camisa, sem sapatos, sem serviço” para o turismo de massa —ou seja, fazem um filtro nos visitantes—, sobra mais espaço para os destinos concorrentes, que tentam capitalizar os problemas. 

Em 2017, Oslo, capital da Noruega, lançou a campanha publicitária “Great Escape Oslo”, em que um casal da Nova Zelândia reclama nas redes sociais sobre as multidões em Paris.

“Realmente queremos resgatar vocês e levá-los para Oslo”, diz uma autoridade da cidade aos dois. O casal vai e adora. “Se alguém contatar você pelo Instagram dizendo para ir à cidade deles, vá em frente”, diz o satisfeito turista.

Na Itália também há um esforço para desviar os visitantes das armadilhas para turistas no próprio país. 

“Convido os operadores turísticos a promover os lugares distante das rotas mais frequentadas”, disse Marco Centinaio, ex-operador turístico que hoje é o ministro da Agricultura, Alimentação e Política Florestal e do Turismo da Itália, e membro do partido governante, Liga, anti-imigração. “Descubra as cidades menores e menos conhecidas.”

Mas os turistas cada vez mais buscam novos destinos por conta própria. E eles frequentemente retornam várias vezes a esses lugares.

Há muitas razões para voltar a Treviso. Entre elas está a coleção Salce, um novo museu nacional com uma seleção rotativa de cerca de 25 mil cartazes publicitários originais. Ela contém peças de Armando Testa sobre o vermute Punt e Mes, ao lado de anúncios da Pirelli e da Barilla dos anos da expansão italiana.

A cidade ainda conserva torres medievais e casas do século 15 com janelas góticas e fachadas com afrescos florais. 

O palácio Ca’ dei Carraresi, um espaço de exposições, exibia no primeiro semestre uma mostra sobre gueixas e samurais, com afrescos italianos do século 15 como pano de fundo, incluindo o desenho de uma mulher apunhalando o próprio coração.

Dificilmente alguém em Treviso argumentaria que essas coisas podem competir com os tesouros de Veneza. De fato, nada pode. 

Mas Veneza, infelizmente, é cada vez menos capaz de competir com cidades italianas menores quando se trata de oferecer uma sensação de verdadeira vida italiana.

Na última noite de estadia, a reportagem jantou no restaurante Med, no bairro da universidade. No cardápio, tortellis tão bons quanto os de Veneza. Nas mesas ao redor, ouvia-se o vêneto, o dialeto local. No chão, visto através de um piso de vidro, um canal corria em direção a Veneza.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 


PACOTES

R$ 382 
3 noites em Treviso, na Top Brasil Turismo (topbrasiltur.com.br
Hospedagem em quarto duplo, sem regime de alimentação. Não inclui passeios. Sem passagem aérea

R$ 3.015 
6 noites em Veneza, na CVC (cvc.com.br)
Hospedagem em quarto duplo, sem café da manhã. Sem passeios. Inclui passagem aérea a partir de São Paulo

R$ 3.016 
4 noites em Veneza, na Azul Viagens (azulviagens.com.br
Saída em 9 de novembro. Hospedagem em quarto duplo, com café da manhã. Inclui passeio ao Hard Rock Cafe. Sem extras. Com passagem aérea a partir do aeroporto de Guarulhos

€ 686 (R$ 3.045) 
3 noites em Florença e Veneza, na RCA Turismo (rcaturismo.com.br
Duas noites em Florença e uma em Veneza. Hospedagem em quarto duplo, com café da manhã. Inclui passeios pelas cidades e traslados. Sem passagem aérea

€ 729 (R$ 3.236) 
6 noites em Roma, Veneza e Florença, na Schultz (schultz.com.br
Duas noites em cada cidade. Hospedagem em quarto duplo, com café da manhã. Inclui passeios com guia e traslados. Sem passagem aérea

US$ 1.200 (R$ 4.764) 
4 noites em Veneza,na Tereza Ferrari (terezaferrariviagens.com.br
Hospedagem em quarto duplo, com café da manhã. Inclui passeio de gôndola, traslados e seguro-viagem. Sem passagem aérea

R$ 13,3 mil
9 noites em Roma, Florença, Veneza e Milão, na Abreu (abreutur.com.br)
Três noites em Roma, duas em Florença, duas em Veneza e duas em Milão. Hospedagem em quarto duplo, com café. Inclui passeios com guias, entradas para museus e passeio de barco em Veneza. Com traslados. Sem passagem aérea

€ 3.920 (R$ 17,4 mil)
8 noites em Veneza, Florença, Siena, Montalcino e Milão, na Interpoint (interpoint.com.br
Três noites em Florença, duas em Veneza, uma em Siena, uma em Montalcino e uma em Milão. Hospedagem em quarto duplo, com café da manhã. Inclui passeios, passagem de trem para o trecho de Veneza a Florença e locação de carro. Sem aéreo

US$ 4.799 (R$ 19 mil)
6 noites em Veneza, na Venice Turismo (veniceturismo.com.br
Hospedagem em quarto duplo, sem regime de alimentação. Inclui passeio a pé pela cidade e traslados. Com passagem aérea 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.