Novas gerações rejeitam o termo 'turista' e se dizem 'viajantes'

Diferença, muitas vezes, está apenas no próprio rótulo

Carolina Muniz
São Paulo

Nada de contratar guia ou fazer selfie na torre Eiffel. Coisa de turista, nem pensar. Essa vontade de fazer diferente da maioria não tem nada de novo —ou de original.

Mas a aversão ao rótulo de turista, usado às vezes como se fosse sinônimo de viajante desinformado, predador e de comportamento bovino, foi amplificada com a mudança na forma de viajar das novas gerações, dizem especialistas.

Jairo Malta

“O termo ‘turista’, infelizmente, tem sido utilizado nos últimos anos de uma forma pejorativa. Isso é tão forte mundialmente que muitas empresas do setor preferem não usá-lo mais”, diz Mariana Aldrigui, professora do curso de turismo da USP (Universidade de São Paulo).

A palavra da vez no ramo é “experiência”. Por meio dela, tenta-se transmitir a ideia de viagem que explora o destino de forma profunda, pela  perspectiva de quem mora nele.

Em vez de assistir da janelinha de um ônibus a como as pessoas vivem em determinada cidade, os turistas agora querem viver como elas, diz Trícia Neves, sócia-diretora da consultoria Mapie, especializada em turismo.

Esse desejo é capitaneado pelas chamadas gerações Y e Z —dos nascidos entre 1979 e 1993 e entre 1994 e 2010, respectivamente. 

Esses jovens, sobretudo os mais novos, buscam de forma incessante experiências que consideram autênticas, segundo Stefano Arpassy, da consultoria WGSN.

“É um consumidor que exige transparência e quer sentir a verdade das coisas”, completa Trícia Neves. Na visão desse público, tudo aquilo que é construído com o intuito de atender ao turismo tem seu valor reduzido e adulterado.

Se um restaurante está cheio de turistas, é porque não deve ser bom —além de, provavelmente, cobrar mais caro pelo serviço. O que é considerado como genuíno, então, é só o que é feito e frequentado por moradores.

A palavra turista tem sua origem no termo francês “tour”. De acordo com Thais Nicoleti, consultora de língua portuguesa da Folha, o termo tem adquirido a conotação de indivíduo superficial e ingênuo, 
que vai aos piores lugares pagando os maiores preços.

O turista é visto, ainda, como um destruidor em potencial, que anda sempre em grupos, conduzido por um guia. Nicoleti lembra que, de uns tempos para cá, nos textos da imprensa, se tornou comum a expressão “hordas de turistas”, o que ajuda a intensificar essa visão negativa. Muitos dos que viajam querem se distanciar desse rótulo e se consideram “viajantes”.

A palavra remete aos exploradores naturalistas dos séculos 17 e 18, afirma Wilker Nóbrega, professor da pós-graduação em turismo da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte).

“O viajante daquela época tinha o propósito de adquirir conhecimento, interagir com as pessoas e entender o lugar com profundidade. E esses novos turistas estão procurando voltar a essas raízes”, diz. 

A professora Kesia Juliane dos Santos, de 27 anos, se identifica com a descrição. “Eu me considero mais uma viajante por gostar muito de elaborar o meu roteiro e de fazer todas as coisas por conta própria”, afirma.

Ela diz que quase sempre viaja sozinha e costuma se hospedar em hostels ou na casa de moradores, no esquema de couchsurfing (aluguel de quarto ou de sofá). Além de conseguir economizar, Kesia afirma se sentir, assim, mais imersa na cultura local. 

A professora ressalva que considera importante, também, visitar os pontos considerados turísticos — aqueles lugares em que “todo o mundo” vai. “Só não deve ser a única motivação que leva a pessoa a viajar”, diz.

Na concepção de Kesia, o turista, de forma genérica, preza a comodidade e está pouco aberto a mudanças no roteiro. “Nem acho que seja algo ruim; só penso que é um estilo diferente do meu”.

Mas não há como escapar: todo o mundo que viaja e dorme em um lugar onde não mora é mesmo um turista, querendo ou não, diz Mariana Aldrigui, da USP.

“Essa divisão é uma bobagem que precisa ser combatida”, completa Cynthia Mello, autora do livro “Semiótica do Turismo Aplicada” (Ed. Appris, 221 págs., R$ 80).

Todos os que viajam estão fruindo experiências, e não há como comparar e medir a intensidade do que cada um vivencia, afirma Mello.

Para o servidor público Ronaldo Messias, 54, a forma ideal de visitar um destino de maneira mais profunda é viajar com o suporte de uma agência de turismo.

Há cinco anos, ele prefere conhecer lugares com a família por meio de pacotes, que incluem transporte, hospedagem, passeios e alimentação.

“Quando íamos por conta própria, acabávamos gastando além do orçamento, não conhecíamos todos os atrativos e ficávamos sem saber fatos interessantes sobre o local”, diz Ronaldo, que não vê problema nenhum em ser chamado de turista.

Para Mariana Aldrigui, aqueles que criticam o modelo tradicional de viagem provavelmente já o experimentaram. “Quem condena o visitante que tira selfie em um ponto turístico já fez aquela foto ali em um outro momento. Faz parte da curiosidade querer ver o que é aquilo que todo o mundo registrou”, afirma.

Pensar que “todos são turistas, menos eu” talvez seja uma maneira usada pela pessoa para se distinguir e tentar ser o dono exclusivo da experiência de viagem, diz ela.

Segundo a professora da USP, as pessoas querem ter a sensação de que são os primeiros a desbravar um lugar e acabam enxergando todos à sua volta como intrusos, que só atrapalham a fruição. 

Mas, no fim das contas, todos são forasteiros —mesmo aqueles que, de forma legítima, querem se conectar com os moradores, a cultura e o modo de vida local.

Todos os visitantes, independentemente de como eles se definem, ajudam a transformar o lugar ao longo do tempo. “O nostálgico vai dizer que, na época em que ele esteve lá , é que o lugar era raiz”, afirma Aldrigui.

O problema surge quando o turismo em excesso começa a descaracterizar a cidade e prejudicar seus habitantes, o que ficou conhecido como “overtourism”. O termo é usado para descrever a situação na qual se encontram cidades como Veneza e Amsterdã.

Veneza proibiu navios de cruzeiro de circular no centro histórico e aprovou o banimento de turistas com mau comportamento, como urinar na rua ou nadar em canais.

A partir de janeiro do ano que vem, a Prefeitura de Veneza vai passar a cobrar uma taxa aos visitantes que não pernoitarem na cidade. 

Já Amsterdã tem um programa para incentivar a abertura de restaurantes —para turistas—afastados de pontos turísticos.

“Não é o turista que estraga o lugar. É o comportamento da sociedade. A gestão pública tem que envolver a comunidade para garantir que o destino turístico continue sendo um local adequado, saudável, onde as pessoas vivam bem,” afirma Trícia Neves.

Já ao turista ou viajante, tenha ele se deslocado de ônibus, avião ou carona, cabe o papel de respeitar o ambiente que visita e seus habitantes, contribuindo assim, um tantinho que seja, para melhorar essa imagem genérica não muito boa do “forasteiro”.

Até porque não existe uma viagem mais autêntica do que outra, como defende a especialista em semiótica Cynthia Mello. Seja qual for a vivência que uma pessoa tenha longe de casa, essa será uma experiência verdadeira para ela, mesmo que seja um passeio de gôndola veneziana em um hotel de Las Vegas.

Jairo Malta

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