Interesse por competições esportivas faz mais brasileiros viajarem para fora

Turistas buscam de megaeventos, como Copa e Superbowl, a jogos regulares de futebol americano

Dante Ferrasoli
São Paulo

Turismo esportivo está em alta no Brasil. Agências especializadas identificam um crescimento na procura de pacotes de viagem criados para quem quer assistir a grandes eventos do setor ou participar de maratonas, embora não haja números consolidados sobre o nicho. 

Os empresários atribuem o crescimento, de um lado, à avidez dos fãs de modalidades que demoraram a deslanchar por aqui, como é o caso do futebol americano, e, de outro, à democratização no acesso a informações sobre competições estrangeiras.

Stephan Geocze Jr., 40, dono da agência Juca na Balada, trabalha com turismo de festas desde 2006 e há um ano e meio viu nos esportes uma chance de expansão do negócio.

“Há uma sinergia grande entre os dois mercados, principalmente em eventos de futebol. Então, temos pacotes que incluem ingresso para partidas e festas”, conta.

Milhares de corredores correm em cima de ponte
Participantes da Maratona de Nova York correm sobre a Ponte Verrazano em 2018; edição deste ano acontece no próximo domingo (3) - Andrew Kelly - 4.nov.2018/Reuters

A Juca na Balada levou 90 pessoas à última Copa do Mundo, na Rússia, e o plano para a próxima, no Catar, é atrair ao menos 200. Para a final da Libertadores, em Santiago, no próximo dia 23, deve levar ao menos 150 turistas.

Um dado curioso, conta o empresário, é que 20% de sua clientela que viaja para ver esportes sai do Brasil pela primeira vez para fazê-lo. 

Geocze diz que planeja, para os próximos anos, se dedicar também ao Superbowl, jogo que define o campeão da NFL (National Football League), de futebol americano. 

Esse esporte pegou no Brasil recentemente e já tem fãs assíduos, segundo João Paulo Fernandes, dono da JPM Viagens, que tem um braço, o Turista FC, dedicado exclusivamente a esse tipo de pacote. 

“Esse público é muito ávido por viagens”, diz. Ele conta que a equipe de futebol americano New England Patriots tem muitos fãs no Brasil, também por causa da figura de Tom Brady —um dos melhores jogadores da história e marido da modelo Gisele Bündchen. Há demanda até para jogos regulares da temporada. “É um produto que comercializamos bastante”, diz Fernandes.

As vendas da Turismo FC cresceram 35% entre 2017 e 2018. Para a final da Liga dos Campeões, maior torneio de clubes do mundo, a empresa levou 50 pessoas a Madri, neste ano.

De acordo com Fernandes, o aumento na demanda por turismo esportivo começou em 2015. “Percebemos que muitos clientes que iam para os Estados Unidos ou para a Europa nos perguntavam muito se haveria jogos da NBA ou partidas do Barcelona e do Real Madrid quando estivessem por lá”, relembra.

O tênis também motiva o turismo entre brasileiros. Fábio Silberberg, que jogou profissionalmente e tem uma agência focada nesse interesse, a Faberg, conta que 65% das viagens comercializadas são relacionadas a essa modalidade. 

“Todos os anos, o calendário do tênis tem os mesmos eventos, as datas são agendadas com antecedência. Isso facilita a nossa operação”, afirma Silberberg.

O modelo é diferente, por exemplo, do futebol, esporte no qual a cidade em que determinado jogo será disputado depende de quais equipes se classificarem para a partida.

Só para o Aberto de Miami, nos EUA, a Faberg leva 500 pessoas todos os anos. Para o Aberto do Rio, 250. Entre os grand slams (quatro torneios mais importantes do esporte), o preferido dos brasileiros é o Roland-Garros, na França.

“A Faberg atua nesse evento há 13 anos e é a agência oficial para a América do Sul. É uma competição que os brasileiros gostam muito”, afirma. Ele leva entre 250 e 300 brasileiros à competição anualmente. Gustavo Kuerten, o Guga, foi campeão em Roland-Garros três vezes (em 1997, 2000 e 2001).

O administrador Itamar Gonçalves Jr., 38, costuma viajar para ver esportes. Segundo ele, suas férias às vezes são moldadas a partir de uma competição ou uma partida.

Ele cita uma viagem que começou em Praga, na República Tcheca, em 2017, para assistir à Copa Laver, torneio de tênis que teve sua edição inaugural naquele ano.

“Fizemos um tour cultural pela cidade, participamos de um jantar exclusivo, com atletas, num teatro. Praga não era prioridade, mas fomos pelo torneio. De lá viajamos para Alemanha e Suíça.”

Itamar recomenda que o planejamento para esse tipo de viagem seja feito com cerca de oito meses de antecedência e em parceria com uma agência. Ele diz já ter tido experiências ruins quando viajou por conta própria.

“Fora do país, tudo o que não queremos é ter imprevistos. E é difícil conseguir entradas para grandes eventos.”

O administrador conta que, em abril, estava em Houston, nos EUA, e queria ir à semifinal da NBA. “Tentei de tudo: site, ginásio, e nada. De lá, contatei minha agência, eles conseguiram o ingresso.”

Para obter as entradas, as agências buscam parcerias diretamente com a organização dos eventos. O problema de marketplaces, os sites que compram e vendem entradas, “é que eles garantem dinheiro de volta se der algo errado com o ingresso, mas, estando lá, não é o dinheiro de volta que você quer”, diz

Raphael Santana, diretor da Fanato, empresa com dez anos de expertise em turismo esportivo. 
Segundo ele, a agência tem crescido 40% ao ano.

“A metade dos nossos pacotes é vendida para empresas, em campanhas de incentivo. As companhias apostam nisso para agradar aos funcionários, e isso ajudou a mantermos as vendas durante a crise.”

Para o público em geral, Santana acha que o aumento do interesse pelo turismo esportivo tem a ver com uma democratização no acesso ao conhecimento de competições.

“Antes, era necessário TV a cabo, e só os pacotes mais caros tinham esse conteúdo. Hoje há planos mais baratos e redes sociais, onde há comunidades de interesses específicos, como no campeonato alemão, que quase ninguém acompanhava há pouco. Hoje, tem brasileiro que até torce para os times de lá”, diz. 

Calendário

Final da Copa Sul-Americana
Colón (ARG) x Indepen-diente del Valle (EQU)
Assunção (Paraguai)
9.nov

Final da Libertadores 
Flamengo x River Plate
Santiago (Chile)
23.nov

Superbowl 2020  
Miami (EUA)
2.fev.2020

Final da Liga dos Campeões  
Istambul (Turquia)
30.mai.2020

Roland Garros 
Paris, França
24.mai a 7.jun.2020

Olimpíada de Tóquio 
Japão
24.jul a 9.ago.2020

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.